Celebrando o Dia do Poeta, o alagoano Gabriel Bernardo reflete sobre o poder da palavra sensível, a presença da poesia no cotidiano e a importância de abrir caminhos para novos escritores.
Texto de Esmeralda Donato com supervisão de Bertrand Morais
No compasso entre um suspiro e uma leitura, a poesia ressurge onde menos se espera: no cotidiano, nas dores e nos afetos. No Brasil de hoje, versos ainda insistem em brotar dos gestos mais simples: um olhar demorado numa prateleira, um silêncio dividido com o outro, uma emoção traduzida em rimas que escapam da consciência. Poesia é isso, um encontro entre a sensibilidade e o mundo, uma transfiguração do que pulsa por dentro e insiste em ganhar voz; há quem diga que o mundo anda apressado demais para poemas, mas talvez seja justamente por isso que a poesia ainda resista.
É nesse mesmo território onde moram as palavras sentidas que habita Gabriel Bernardo, poeta, escritor, diretor de marketing da editora Império Sagrados e atendente da Livraria Leitura, em Maceió, lugar onde também cultiva sua paixão pela literatura. Gabriel escreve sob o pseudônimo Augusto Flores e já publicou dois livros de poemas: Codinome (2020) e Amores, vícios e obsessões (2024). Seu trabalho busca não apenas expressar o íntimo, mas também abrir espaços para outras vozes, como no projeto “Varalzinho de Quinta”, que ele coordena na editora.
Em entrevista à Revista Alagoana, o escritor fala sobre o nascimento da poesia em sua vida, a criação do seu alter ego literário, o cenário atual para quem escreve versos no país e a importância de se permitir sentir, com ou sem rima. Confira:
R.A.: Você se lembra do momento ou da fase em que a poesia começou a fazer parte da sua vida?
Gabriel: Lembrar com clareza, não lembro, pra ser sincero. Mas acredito que a poesia apareceu na minha vida ainda na infância, nas leituras da escola. Só que ela começou a fazer parte de forma mais intensa mesmo na adolescência. Eu já escrevia algumas coisas, meus primeiros poemas, mas sem pretensão de ser escritor ou mostrar pra alguém. Era mais um desabafo, uma tentativa de colocar pra fora o que eu estava sentindo.
A poesia veio mais de dentro do que de fora, como uma tentativa de decifrar o que eu sentia. E, pra ser bem honesto, acho que isso veio mais da música do que da literatura em si. Na época, eu ouvia muito rap, como Racionais e Facção Central, e também rock e metal, como Slipknot e Avenged Sevenfold. Aquelas letras mexiam comigo. Me faziam pensar no que estavam dizendo, no que significavam, e isso me inspirou a tentar traduzir meus próprios sentimentos no papel. Acho que foi aí que a poesia começou a ganhar espaço na minha vida.
R.A.: Ser poeta no Brasil de 2025 é um ato de resistência? De afeto? Ou de teimosia?
Gabriel: Acho que é um pouco dos três: afeto, resistência e teimosia também. Ser poeta é muito difícil. A gente brinca com palavras, mas também carrega essa sensibilidade de observar, a si mesmo e o mundo, e tentar passar um pouco do que vê pro outro. E que o outro, por sua vez, sinta isso através da palavra. Às vezes eu brinco que, por mais que a gente escreva um poema, ele quase nunca traduz exatamente o que a gente queria dizer ou sentia. E isso faz parte da experiência da linguagem: o poema toca quem lê de maneiras que muitas vezes são completamente diferentes da intenção original. Um mesmo texto pode provocar emoções distintas em cada pessoa, e isso é bonito. Tem a ver com o afeto: com o lugar em que aquela leitura vai bater.
Vejo resistência no fato de que a poesia não é tão consumida quanto outras formas literárias. Muita gente prefere romances, acha que a poesia é difícil. Mas não é bem assim. Tem muita poesia acessível, como o cordel, que é profundamente poético e muito prazeroso de ler. E tem também a oralidade, principalmente aqui no Nordeste, onde a poesia está na fala do povo, no jeito de dizer as coisas. Às vezes, você ouve uma frase do tipo “menino, deixe disso!” e ali já tem poesia. Tem sentimento, tem cotidiano. Então acho que a resistência está em mostrar que a poesia não é algo inalcançável, está nas pequenas coisas, no dia a dia. E talvez seja justamente aí que ela se revele com mais força.
R.A.: Por que você escolheu um pseudônimo? O que o nome Augusto Flores carrega que Gabriel Bernardo não diria da mesma forma?
Gabriel: Hoje eu vejo o Augusto Flores como alguém completamente diferente do Gabriel Bernardo. Ele é, de fato, um personagem. Às vezes se mistura comigo, claro, como acontece com qualquer escritor, mas ele nasceu dessa necessidade de separar as coisas, separar o que eu sentia do que eu queria observar. Lembro que li um texto sobre como a ficção e a não ficção se cruzam na vida de um autor, e me vi exatamente ali. O pseudônimo surgiu como uma forma de me distanciar um pouco do que eu estava vivendo. De enxergar minhas emoções com outros olhos. Quando eu colocava aquilo no papel através do Augusto, era como se ficasse mais fácil de lidar.
Com o tempo, ele deixou de ser apenas reflexo do que eu vivia. Passou a absorver também histórias de outras pessoas, sentimentos que me atravessavam indiretamente. A vida do Augusto Flores foi ganhando forma própria. Meu primeiro livro, Codinome, publicado em 2020, marcou esse nascimento dele, fala de uma fase muito específica, da infância e pré-adolescência. A partir dali, comecei a escrever outros textos: romances, contos, crônicas… muitos ainda não publicados, mas que ajudaram a dar corpo a esse personagem.
No fim de 2024, publiquei Amores, vícios e obsessões, que representa uma nova fase do Augusto. E hoje eu enxergo com mais clareza: ele faz parte de mim, mas não sou eu. É um personagem com sua própria trajetória. Tenho vontade de um dia lançar o romance oficial do Augusto Flores, para que as pessoas conheçam mais da história dele, para além da poesia.
R.A.: Seus dois livros, Codinome e Amores, vícios e obsessões, têm títulos que evocam intensidade. Como esses afetos moldam sua poética?
Gabriel: Eu sempre fui uma pessoa muito sensível, não só aos meus sentimentos, mas também aos sentimentos das pessoas ao meu redor. Lembro de situações em que eu estava em silêncio, só observando os outros conversarem sobre algo que estavam vivendo, e aquilo me fazia transbordar por dentro. Era como se eu sentisse junto, e às vezes nem sabia o que fazer com tudo aquilo.
Tanto Codinome quanto Amores, vícios e obsessões são esse transbordamento. São tentativas de transformar em palavras aquilo que, muitas vezes, nem eu mesmo compreendia. Porque a gente pode até dizer: “estou com raiva”, “estou com amor”, “estou com dor”… mas nomear o sentimento não significa entender ou traduzir ele por completo. A palavra “amor”, por exemplo, pode significar tudo e ao mesmo tempo nada, depende de quem diz, de como se sente, de onde vem. E é nesse espaço do desconhecido, do que escapa da explicação lógica, que minha poesia se forma.
Os dois livros refletem fases muito intensas da vida do Augusto Flores. Codinome é sobre a infância e esse momento de descoberta, quando a inocência começa a dar lugar a uma percepção mais crua e real do mundo, linda, mas assustadora também. Já Amores, vícios e obsessões mergulha na adolescência, que é esse turbilhão de emoções. Inclusive, sentir “nada” também é muito intenso. O vazio também pesa. E acho que o Augusto traduz isso: esse lado meu que sente demais, e que tenta entender o mundo, e a si mesmo, por meio da poesia.
R.A.: O que a convivência com os leitores na Livraria Leitura te ensina sobre o público que consome poesia hoje?
Gabriel: Essa é uma pergunta interessante. Eu, inclusive, estava refletindo sobre isso recentemente. Acho que o público que consome poesia é diverso, mas ainda vejo uma concentração maior em obras de nomes mais populares ou de autores contemporâneos que viralizam nas redes, como Igor Pires, William de Albuquerque, Ryane Leão, Bráulio Bessa… Esses nomes aparecem com frequência por lá.
Não que isso seja um problema, são autores que tocam muita gente. Mas sinto falta de mais variedade. Muitas vezes, é como se fossem sempre os mesmos livros, falta espaço para novos autores, para outras vozes poéticas que estão escrevendo hoje, inclusive aqui em Alagoas. Trabalhar na livraria me faz pensar muito sobre como é importante ampliar esse diálogo entre o que já foi feito na poesia brasileira e o que está sendo construído agora. Às vezes, os leitores vão direto pros clássicos ou pro que está em evidência, mas não conhecem o que está sendo produzido ao lado deles.
Sempre que posso, tento puxar conversa com quem procura poesia. Pergunto o que estão lendo, se já conhecem algum autor da cidade ou da região. Apresento nomes novos, indico livros de poetas locais. Porque tem muita coisa acontecendo, mas muita gente ainda acha que “não está acontecendo nada” na literatura ou na cultura daqui. Nesse sentido, acho que meu trabalho também tem algo de curadoria, sabe? De tentativa de aproximação entre o leitor e a literatura contemporânea, inclusive a alagoana.
R.A.: No Dia do Poeta, o que você diria a quem ainda não se permite sentir ou escrever poesia?
Gabriel: Recentemente estava conversando com um amigo sobre um projeto que faço na editora onde trabalho, o Varalzinho de Quinta, da Império Sagrados. A gente atua tanto no Instagram da IS Editora quanto na plataforma Substack, e toda semana eu seleciono cinco poemas de autores do Brasil inteiro. Estava convidando ele para participar. A ideia é justamente essa: criar um espaço de escuta e de partilha para quem está começando ou quer mostrar sua escrita pro mundo.
Então, o que eu diria pra quem ainda não se reconhece como poeta, ou tem vergonha de compartilhar o que escreve, é: tome jeito! (risos) Deixe essa besteira de insegurança de lado e mostre o que você sente. Às vezes, pra se entender melhor, a gente precisa colocar pra fora. Manda um poema pra gente no Varal, mostra pra um amigo, compartilha com alguém. Deixa que outra pessoa veja essa sensibilidade que você carrega e que, às vezes, acha que é só sua. Pode ser que ela também precise cuidar disso, ou se sinta cuidada por isso.
E mesmo que o medo esteja aí, tudo bem. O medo vai te acompanhar pela vida inteira. Mas não se avexe. Deixe entrar. Escreva. Sinta. E compartilhe. Porque a poesia não é só palavra bonita, é o que pulsa.