Júnior Soares: entre o interior e a capital, a paixão pela fotografia a cada nova descoberta

O fotógrafo revela como seu trabalho se tornou um espaço de encontro entre experiência, escuta e representação

Foto: Junior Soares

A fotografia é mais do que um registro. Ela interpreta gestos, conecta tempos e revela sentidos no cotidiano. Quando guiada por atenção, escuta e sensibilidade, a imagem se transforma em linguagem, capaz de relacionar memória, território e identidade. É nesse ponto de encontro que o trabalho de Junior Soares ganha força.

Fotógrafo, artista visual e agente cultural alagoano, Junior constrói sua pesquisa a partir das referências do interior onde cresceu, das experiências nas ruas de Recife, onde atuou como fotojornalista, e do trânsito entre as cidades viveu – Maceió, Recife e Teotônio Vilela. Sua produção mistura documentação, simbolismos e um olhar atento ao que passa despercebido.

Em entrevista à Revista Alagoana, Junior fala sobre suas motivações, como os processos definem seu olhar fotográfico e o impacto do reconhecimento no FotoSururu – Projeções. Ele também reflete sobre a fotografia feita em Alagoas. Confira:

R.A: Antes de entrarmos no assunto da fotografia, gostaria que você contasse um pouco da sua história. Quem é Junior Soares e de onde vem?

Júnior Soares: Sou um artista alagoano de 25 anos. Atualmente resido em Teotônio Vilela (AL), cidade onde passei grande parte da infância e adolescência. Também já morei em Maceió e Recife, capitais onde pude estudar e me profissionalizar. Hoje transito entre essas e outras cidades desenvolvendo minhas linguagens artísticas e atuando como agente cultural.

R.A: Você lembra em que momento da sua vida você se apaixonou pela fotografia e por quê?

Júnior Soares: Desde muito cedo sempre tive interesse por tecnologia. Comecei fotografando na infância com um celular, antes mesmo de usar redes sociais. Anos depois, passei a compartilhar minhas imagens na internet, e outras pessoas começaram a se identificar com elas. A partir disso, fiz bons amigos que compartilhavam do mesmo interesse. O que era diversão se tornou uma extensão da minha personalidade e foi ocupando cada vez mais espaço na minha rotina. Isso me motivou a aprender mais, até que a fotografia também se tornou meu trabalho. Eu me apaixono pela fotografia a cada nova descoberta. Mesmo sendo profissional, sempre existe algo novo para aprender além da técnica, e minha curiosidade cresce a cada dia.

R.A: Júnior, quando olho para as suas fotos, percebo que muitas são feitas em instantes rápidos (pessoas em movimento, objetos que quase passam despercebidos). Cito como exemplo a fotografia intitulada “À margem”, em que jovens periféricos aparecem se jogando no rio Capibaribe. Como você chega a essas imagens? O que você observa ou pensa antes de fotografá-las?

Júnior Soares: Estou sempre atento ao que acontece ao meu redor. Tenho o hábito de buscar simbologias no cotidiano, e meu raciocínio faz leituras semióticas de tudo o que enxergo. Assim consigo registrar esses “instantes decisivos” que, na teoria de Henri Cartier-Bresson, são aqueles momentos em que tudo se alinha na composição para transmitir exatamente o que desejamos.

Adriele Biacy representa a moda e os símbolos do território Alagoano. Foto: Junior Soares

R.A: A imagem com a modelo Adriele Biacy reúne moda alagoana, símbolos do território e um clima quase onírico do interior. O que orientou essas escolhas estéticas? Como você pensou a relação entre a modelo, os acessórios e esse imaginário que você busca construir no trabalho?

Júnior Soares: O interior é a minha origem. Cresci vivenciando manifestações culturais e aprendendo diretamente com grandes mestres da cultura alagoana. Essa é a minha referência. O dia a dia não escapa da arte, e isso também está presente na proposta desse ensaio. Todos os signos evocam pertencimento: o filé alagoano, as cores e os acessórios botânicos feitos pelo artesão André Antônio. Tudo reflete essa atmosfera lúdica e nostálgica, um espaço afetivo de um imaginário que é íntimo, mas também coletivo.

R.A: Você trabalhou como fotojornalista em Recife. Poderia falar um pouco sobre essa experiência e como era a sua rotina nas ruas? O que mais te desafiou e de que forma esse período influenciou o trabalho que você produz hoje?

Júnior Soares: Minha atuação na Folha de Pernambuco foi um período de muitos aprendizados. Pude conhecer Recife de maneira mais profunda e estar em contato direto com os desdobramentos sociais, políticos e culturais de um estado que, até então, era novo para mim. Quanto aos desafios, acredito que estavam na rotina corrida e nas pautas imprevisíveis — tudo é muito variável, então precisamos estar preparados para qualquer situação. Isso me fortaleceu profissionalmente e me trouxe segurança para fotografar de tudo, além de ampliar minha consciência sobre o valor histórico do material que produzo.

R.A: Você tem alguma foto que te marcou durante toda a carreira como fotógrafo? Se sim, você pode contar qual é essa imagem e a história por trás dela? 

Júnior Soares: Uma obra muito significativa para mim é “Metalinguagem da memória”, apresentada na minha exposição de conclusão de curso na Universidade Católica de Pernambuco.

A imagem foi feita durante minhas andanças pelo Centro do Recife, quando avistei barqueiros transportando fotografias para a construção de um memorial da antiga ponte giratória, que aparece ao fundo. A foto levada pelos barqueiros mostra a ponte ainda com o mecanismo giratório usado para permitir a passagem de embarcações – recurso substituído em 1971 por uma estrutura fixa de concreto, hoje interditada para reforma.

O instante decisivo criou uma leitura que fez aquela ponte “girar” novamente, quando as linhas geométricas da imagem se alinharam para conectar presente e passado. Foi o momento exato em que a memória ganhou continuidade e assumiu novas simbologias.

Metalinguagem da memória. Foto: Junior Soares

R.A: Este ano, você ficou em primeiro e terceiro lugar no FotoSururu – Projeções, um reconhecimento importante dentro da cena fotográfica alagoana. Como você recebeu esse resultado? O que essas duas imagens significam para você dentro do percurso que vem construindo, seja em termos de pesquisa, de linguagem ou de entendimento do seu próprio trabalho?

Júnior Soares: Recebi as duas premiações com muita alegria. Elas representam respostas sobre o direcionamento que venho dando ao meu trabalho. Ambas as séries dialogam diretamente com as ciências humanas – abordo conceitos ligados à antropologia, história e psicologia – e é muito gratificante ter esse reconhecimento. Além disso, compartilhar minhas produções em um espaço que reúne tanto capital simbólico e discutir temas relevantes com pessoas ligadas ao universo fotográfico é uma experiência que acrescenta muito.

R.A: A série sobre Zé Crente revela uma aproximação muito sensível com o cotidiano e com o modo como as pessoas se relacionam com seus territórios. A partir de experiências como essa, como você percebe a responsabilidade de quem fotografa histórias reais?

Júnior Soares: É indispensável ter sensibilidade ao registrar a história de alguém. Acredito que o processo de escutar quem fotografamos faz toda a diferença. Assim entendemos como a própria pessoa se enxerga além das nossas lentes e temos a chance de nos aproximar disso. Para mim, o humanismo sempre será o caminho.

Zé Crente é um artesão e coveiro bastante conhecido na Ilha do Ferro, em Alagoas. Foto: Junior Soares

R.A: Como você enxerga a cena fotográfica alagoana hoje e onde você sente que seu trabalho se encaixa nesse movimento?

Júnior Soares: Vejo muita potência no cenário alagoano, especialmente no cinema, na moda e nos projetos socioculturais. Minha fotografia dialoga com todas essas áreas, e sinto que caminham muito bem juntas. No geral, movimentos interessantes têm acontecido, principalmente em Maceió. Mas considero urgente expandir oportunidades para artistas que vivem no tabuleiro sul, no agreste e também no sertão.

R.A: Que caminhos você imagina para os próximos anos? Há projetos ou pesquisas que você pretende desenvolver?

Júnior Soares:  Quero dar continuidade ao que venho desenvolvendo: documentar mestres alagoanos, manifestações folclóricas, territórios quilombolas, arte e cultura popular, tendo a fotografia e o audiovisual como base. Também vou atuar em um projeto pedagógico voltado para formações e capacitações artísticas em Teotônio Vilela (AL), em parceria com a produtora cultural SOMOS. E sigo aberto a iniciativas que valorizem a cultura e busquem democratizar o fazer artístico.

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