Por Luís Laércio Gerônimo
Cinquentei recentemente. E, para minha surpresa — ou talvez alívio — continuo com o mesmo vigor mental de outrora. A curiosidade permanece intacta, o pensamento afiado, a vontade de compreender o mundo ainda pulsando. A aparência mudou, mas a essência permanece.
O corpo sofreu algumas mudanças e já não responde com a mesma disposição. Ele pede pausas, cobra limites, lembra — sem cerimônia — que o tempo deixou marcas. Ainda assim, a atividade física diária tem sido uma aliada fiel nessa negociação com o próprio corpo. Não devolve a juventude, é verdade, mas garante presença. E presença, hoje, vale mais do que velocidade.
Há algo curioso que acontece nessa fase da vida: tudo parece ter mais sabor. Conversas, silêncios, encontros, até pequenos rituais cotidianos ganham uma densidade diferente. Talvez porque, pela primeira vez, o tempo deixe de ser abstrato. A gente passa a desconfiar que já viveu mais do que ainda resta pela frente — e isso muda tudo.
Não é um pessimismo à Schopenhauer. É consciência.
Essa sensação me faz lembrar a história do menino e as jabuticabas, contada por Rubem Alves. Diz a história que um menino ganhou uma bacia cheinha de jabuticabas e, de forma displicente e aligeirada, comia e desperdiçava boa parte dessas jabuticabas. No entanto, ao perceber que a bacia estava se esvaziando, o menino deixa de comer as frutas com pressa e passa a valorizá-las, saboreando-as lentamente, como quem entende que cada uma pode ser a última.
Essa alegoria nos faz entender que o prazer não está na quantidade, mas sim na qualidade. A maturidade faz algo parecido conosco. Ela retira a urgência e nos devolve o gosto.
Aos 50, já não há tanto interesse em provar tudo, dizer sim a tudo, estar em todos os lugares. Em compensação, há um desejo sincero de estar inteiro onde se está.
É também uma fase em que o ego perde força. Não porque ficamos mais humildes por virtude, mas porque o tempo nos ensina, sem pedir licença, o quanto somos passageiros. Isso liberta. Já não precisamos impressionar tanto, competir tanto, provar tanto. O essencial ganha espaço; o supérfluo começa a cansar.
Claro, há perdas. O corpo mais lento, o espelho mais honesto, a memória que às vezes falha. Mas há ganhos silenciosos: a escuta melhora, a paciência cresce, o olhar se aprofunda.
Talvez envelhecer seja isso: trocar a pressa pelo sentido. Comer menos jabuticabas, mas saboreá-las melhor. E, se a vida já não se alonga tanto à frente, ao menos que seja intensa, consciente e — sobretudo — bem degustada.
E para você, que já ultrapassou os 50 como eu: o que ainda vale a pena viver com atenção, e não apenas por costume?
Sobre o autor
Luís Laércio Gerônimo, é natural de Pão de Açúcar-AL, graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe. Possui pós-graduação na área das Ciências Humanas, em Filosofia, História do Brasil, Teologia e Gestão Pública. É mestrando em Educação pela Universidade Autónoma de Assunção, no Paraguai.
