Mesmo com chuva, o bloco realizou um cortejo de quase cinco horas com segurança e responsabilidade

A manhã do último domingo (08) amanheceu debaixo de muita chuva em Maceió. O céu fechado e o tempo instável pareciam anunciar que a festa não aconteceria e que o batuque do Rock Maracatu ficaria guardado. Por algumas horas, a dúvida rondou a produção e os foliões. Mas o Rock Maracatu é desses que não recuam.
Antes mesmo do cortejo ganhar as ruas, a equipe de produção já estava mobilizada, acompanhando a previsão do tempo, ajustando estruturas e mantendo diálogo com os órgãos competentes e com a organização do Carnaval de Rua para garantir segurança e qualidade. A decisão de sair foi tomada com responsabilidade, planejamento e cuidado com quem escolheu viver a festa.
Quando os primeiros tambores soaram, já não havia mais chuva. Aos poucos, a avenida foi sendo ocupada por dança, canto, abraços e muitas cores. O que era incerteza virou celebração e festa, como sempre é.
Com o tema “Maceió que vibra o coração”, o coletivo reafirmou sua identidade como espaço de encontro, cultura popular e pertencimento. O desfile contou com participações da cantora Mary Alves, do grupo Roda de Coco, de Llari Gleiss e da pernambucana Joyce Alane, ampliando o diálogo entre tradição e novas sonoridades nordestinas.
Carnaval para todo mundo
Entre as premissas do Rock Maracatu está a defesa de um Carnaval realmente democrático. Esse compromisso ganhou forma na ala da acessibilidade, realizada em parceria com a Permear – Acessibilidade Cultural.
A iniciativa ofereceu 25 vagas para pessoas com deficiência, cada uma com direito a acompanhante, além de intérprete de Libras e apoio bilíngue durante todo o percurso. A proposta é simples e potente: garantir que todos possam ocupar a rua com autonomia, conforto e segurança.

Foi justamente na ala da inclusão que a auxiliar administrativa Rosane Escobar viveu um dos momentos mais marcantes ao lado da filha, Letícia Escobar, de 13 anos.
Letícia tem Síndrome de Williams, condição genética associada a uma forte sensibilidade musical, algo que, segundo a mãe, sempre a conectou ao maracatu. A família conheceu o Rock Maracatu pelas redes sociais e, encantada com os ensaios e a energia do grupo, decidiu participar do bloco pela primeira vez este ano.
“Foi a primeira vez que me senti segura em estar com ela em um bloco. Sempre tinha alguém oferecendo água, protetor solar, cuidando do espaço, observando a corda para não empurrar. Mas o que mais tocou minha alma foi o olhar atento para a Lelê, convidando ela para tocar um instrumento e sorrindo pra ela. Ela estava plenamente feliz”, conta.
Para Rosane, ver a filha integrada ao cortejo foi algo raro na vivência de uma maternidade atípica.
“Meu coração ficou exaltando de alegria, porque não vi privação da totalidade do ser dela. Ela estava livre, inteira, pertencente. E, quando ela está feliz e segura, eu também consigo curtir. Isso é difícil de acontecer.”
Ao falar sobre inclusão, ela é direta: “Investir em acessibilidade é investir em respeito e humanidade. É dizer para o outro que ele é importante e merece ocupar todos os espaços”.
Histórias de cura e celebração
Entre os foliões, outras histórias também marcaram o desfile. A presença de Larêssa Mello foi um símbolo de recomeço. Frequentadora do bloco há anos, ela recebeu, em 2025, o diagnóstico de um câncer grave pouco antes do Carnaval. Passou meses em tratamento, longe da festa, mas conta que o Rock Maracatu seguiu vivo como memória e esperança.
Curada, voltou à avenida para celebrar. “Eu determinei que, se sobrevivesse, eu comemoraria. E essa comemoração precisava ser em um lugar que sempre representou liberdade, força coletiva e alegria real pra mim. Participar do Rock Maracatu este ano é um ato de gratidão, resistência e esperança.”
Ela ainda deixa um recado para outras mulheres: fazer exames de rotina, escutar o corpo e não adiar cuidados.
“Não desistam. A cura é possível, e a vida presta.”
O cortejo também celebrou o aniversário da batuqueira Analice Maia, homenageada em meio aos tambores, abraços e parabéns improvisados.
“É o terceiro ano que eu tenho a felicidade de tocar maracatu com os batuqueiros e com a cantora Fernanda Guimarães, e dessa vez foi ainda mais especial por coincidir com o meu aniversário. Estar na rua, celebrando a cultura popular de Maceió e sentindo o carinho do público transformou a data em um momento de afeto, pertencimento e gratidão. Que o Rock Maracatu siga vivo pelas ruas da cidade”, afirmou.
Quase cinco horas de cortejo

Fundadora e uma das vozes do coletivo, Fernanda Guimarães resumiu o sentimento do dia citando uma canção que, segundo ela, traduz o espírito do bloco e marcou o cortejo.
“Ontem eu tive esse sonho, nele eu encontrava com vocês. Não sei se sonhava o meu sonho ou se o sonho que eu sonhava eram os seus.”
Ela lembra que, antes da saída, houve até uma corrente de fé coletiva. “Tivemos uma corrente de gente rezando pra chuva passar, cada um à sua maneira, pedindo aos maiorais do universo que pegassem leve no céu. E deu certo. Foram quase cinco horas de cortejo, felizes, vibrantes, lindos e alegres. Só tenho a agradecer a todos que fazem parte do Rock Maracatu, aos apoiadores e patrocinadores que acreditam no nosso projeto.”
No fim, a chuva virou detalhe. O que ficou foi a imagem de um bloco que transforma a rua em espaço de cultura, cuidado, pertencimento e celebração da vida. Mais uma vez, o Rock Maracatu mostrou que, quando a cidade vibra junto, nenhum tempo fechado é capaz de calar o som dos tambores.