O Clube de Leitura Página Aberta inicia dia 28 deste mês, com um debate sobre o livro O Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago
Tudo é desconhecido até que seja descoberto. E o que é a leitura senão uma descoberta de mundos? Pensando nisso, a escritora, aquarelista e produtora cultural Lisley Nogueira idealizou um jeito de compartilhar esses mundos desconhecidos com pessoas 60+: o Clube de Leitura Página Aberta. Com data marcada para o próximo sábado, o projeto tem como objetivo valorizar a troca de saberes entre os participantes através da leitura e do pensamento crítico.
Nogueira – autora de Atalho para Naufrágios (Editora Alumiá) e de Tapete de Agulhas (projeto contemplado pelo Edital Secult-AL 2024) – será a mediadora do debate sobre O Conto da Ilha Desconhecida. Na obra de 1997, José Saramago narra a jornada de um homem em busca de uma ilha improvável, provocando reflexões sobre o desejo pelo impossível, o autoconhecimento e a coragem de olhar além das bolhas sociais e geográficas.
A veia de produtora cultural da escritora se estende a outras iniciativas de sucesso. Entre elas, o Casa Poesia, que está em sua 7ª edição e divulga poetas de todo o Brasil através de vídeos com leituras de suas obras. Já no projeto Orelha do Livro, Lisley explora a sinestesia entre artes, criando resenhas literárias que vêm acompanhadas de trilhas sonoras pensadas especificamente para cada título.

R.A: Lisley, você acabou construindo um caminho que passa pela escrita, pela aquarela e pela fotografia – e cada uma delas acabou virando parte da sua forma de se expressar. Como foi que você se encontrou nessas diferentes artes? Cada uma veio de uma história ou momento específico da sua vida?
Lisley Nogueira: Tudo começou com a fotografia. Um olhar curioso, essa inquietação em perceber nas imagens algo que eu gostaria de dizer, mas não sabia como. Até o momento em que eu me deparei com a oportunidade (oficina de escrita criativa) de escrever mais tecnicamente. Daí em diante, experimentar mais formas de expressão, desenho, aquarela, acabou seguindo um fluxo muito natural.
O olhar curioso se mantém, as diversas expressões artísticas me ajudam a nutrir meu repertório de ideias e mesmo presentes na minha vida em momentos diferentes, elas dialogam entre si, e mais ainda, dialogam com a minha necessidade de criar que, para mim, é básica e vital.
R.A: Você é idealizadora do projeto Casa Poesia, onde divulga escritores diversos do estado. A iniciativa já está na sétima edição, você pode contar como esse projeto começou e o que te motivou a criá-lo?
Lisley Nogueira: Eu acredito muito no coletivo. Tive a alegria, durante esse tempo, de participar de trabalhos muito especiais, não só como autora, mas também como produtora de antologias, saraus e revistas, em conjunto com amigos e grandes escritores. Sou uma grande entusiasta de qualquer projeto que possa difundir a arte e dar visibilidade; nesse sentido, o Casa Poesia é a minha maneira de dar continuidade a essa dinâmica. O projeto conta com a participação de escritores de vários estados do Brasil e é sempre uma honra ter contato com talentos tão incríveis.
R.A: Ao criar o Orelha do Livro, você transforma cada leitura em uma experiência sonora. Nesse processo de traduzir atmosferas, emoções e personagens em música, o que mais te guia? É a sensibilidade do momento, algum detalhe específico do livro ou uma intuição que nasce durante a leitura? Como você percebe que encontrou a ‘trilha certa’ para cada obra?
Lisley Nogueira: Tenho um carinho infinito por esse projeto, que une literatura e música, duas das minhas grandes paixões. A escolha de cada música parte de uma faceta intuitiva, às vezes ligada à ambiência do livro, à atmosfera onde a narrativa se estabelece; outras vezes, representando minhas impressões sobre um personagem. A playlist para O Morro dos Ventos Uivantes (Emily Brontë), por exemplo, surgiu pela percepção da dramaticidade narrativa: intensa e sombria. Outro exemplo foi a trilha para Vidas Secas (Graciliano Ramos), feita em homenagem aos seus personagens. Definida a linha de escolha, sigo com as especificações do projeto: nenhuma lista é muito longa, para não ser exaustiva, nem muito curta. O objetivo é potencializar a leitura através dessa expansão sensorial.
Acesse aqui a playlist Orelha do Livro

R.A: Como leitora, qual o seu livro favorito e por quê?
Lisley Nogueira: Alguns livros me marcaram profundamente, mas se eu pudesse escolher um, seria parte da obra de Lygia Fagundes Telles. Antes do Baile Verde foi fundamental para minha formação como escritora. Na época, eu era aluna do escritor e cineasta Nilton Resende, e jamais esquecerei o momento em que ele fez para a turma a leitura dramatizada do conto Venha Ver o Pôr do Sol. Encantei-me instantaneamente pela maestria da autora e isso me mudou, principalmente como leitora.
R.A: Dia 28 (sábado) acontece o primeiro encontro do Página Aberta. Embora clubes de leitura estejam em ascensão, o seu recorte é muito específico: o público 60+. O que esse projeto propõe de diferente para essa geração e qual lacuna cultural você sentiu que precisava ser preenchida em Maceió?
Lisley Nogueira: Mais do que discutir obras literárias, o Página Aberta busca valorizar a vivência de cada participante, estimulando a troca cognitiva, o exercício da escuta, o pensamento crítico e, sobretudo, a interação social. Muitas vezes são pessoas que gostam de ler, mas se sentem inibidas a compartilhar suas impressões. Meu intuito é oportunizar esses momentos de inclusão, leveza e partilha.
O clube propõe encontros em que a leitura se torna ponto de partida para a troca de experiências, memórias, sentimentos e diferentes interpretações do mundo. Cada página lida, dialoga com uma vida inteira de aprendizados.
R.A: Você escolheu iniciar o clube com “O Conto da Ilha Desconhecida”. Que relação você enxerga entre o tema do livro e a proposta de abrir um novo caminho de encontros e trocas com pessoas mais velhas?
Lisley Nogueira: Para não dar spoiler, posso dizer que há uma passagem específica nessa leitura que me interessa em particular. Penso que compreender esse trecho pelo olhar mais experiente dos participantes será muito enriquecedor. O livro envolve muitas metáforas sobre seguir sonhos, perseverar nos desafios e se perceber como protagonista da própria jornada. Espero que os participantes gostem da leitura tanto quanto eu. E, claro, reitero o convite: o clube é voltado para pessoas 60+, mas todos são bem-vindos para participar e aprender com esse grupo tão inspirador.
R.A: Você pode falar um pouco sobre como vão ser os encontros do Clube do Livro? Tem uma quantidade de pessoas limite?
Lisley Nogueira: Não há limite de participantes. Os encontros serão mensais, em locais divulgados previamente. A nossa programação do semestre já está disponível no @pagina.aberta_ . Uma dica aos nossos leitores é acompanhar a página para informações sobre local, data e tudo mais. São todos bem-vindos.

R.A: O que você espera vivenciar pessoalmente ao conduzir esse clube de leitura? Existe algo que você sente que também está buscando nesse processo?
Lisley Nogueira: Sou fã de histórias. As lidas, as contadas, as imaginadas. A leitura e escrita me proporcionaram grandes alegrias e penso que é hora de homenageá-las de certo modo, reunindo leitores muito especiais, opiniões e vivências a partir de uma curadoria feita com muito carinho. O que não falta nesse grupo é experiência, inspiração e motivação. Eu só tenho a aprender com os participantes do Página Aberta.