Por Josafá Gouveia
O grito do menino, rompendo o silêncio do meio-dia, fez Érica estremecer. Chamava-a do portão, impaciente, como quem traz não apenas uma entrega, mas um presságio. O motoqueiro mal aguardou — deixou o pacote e partiu em disparada, engolido pela estrada ainda quente. Ela, então, sentou-se à mesa.
A casa respirava um sossego breve, desses que antecedem a chuva. Já passava do meiodia, e o céu, inquieto, antecipava as águas de janeiro ainda nos últimos dias de dezembro.
Quando começou a comer, foi como se obedecesse a uma fome antiga, quase esquecida — mastigava com avidez, abarrotando-se de massa como se nunca antes tivesse provado alimento algum.
Minutos depois, só o som da chuva no telhado.
Até que a mãe entrou.
— Vocês ainda estão nesse mundo? — disse, irritada, enquanto fechava as janelas invadidas pela água. — A casa toda molhando, e vocês aí… Seu marido sabe o que está comemorando com você? Vieram pra cá e não fazem nada… nem cozinhar…
A voz dela carregava mais do que reprovação: havia cansaço, havia desconfiança, havia um saber silencioso.
As primas riam, cochichavam, alimentando-se não só da comida, mas de um plano.
— Hoje a festa vai ser grande — disse uma delas, com os olhos acesos. — Três bandas até o dia clarear. A gente vai… depois que todo mundo dormir.
Érica não respondeu. Apenas continuou comendo.
Dona Mariana observava.
Sabia.
Sabia de cada gesto contido, de cada olhar trocado, de cada ausência que se tornava presença em noites proibidas. Mas calava-se. Seu silêncio era uma espécie de oração — não para impedir, mas para proteger… ou talvez para adiar o inevitável.
— Não digo nada… — murmurou, mais para si do que para elas. — O Vicente não merece isso… mas vocês são meu sangue.
E sangue, ela sabia, nunca obedece à razão.
Havia anos que aquilo acontecia.
Nas sombras das festas, nos intervalos da música, entre o canavial e as bananeiras que cercavam o povoado, encontros eram tecidos com o cuidado de quem borda um segredo.
Tudo planejado. Tudo repetido. Tudo perigoso.
Naquela noite, seria perfeito.
Os homens da casa — o pai e o genro — já haviam bebido o suficiente para cair em um sono pesado. Dormiriam antes da virada. Dormiriam antes de perceber.
Era a noite ideal.
Armando já aguardava.
O carro, estacionado ao lado da pequena igreja, parecia guardar silêncio junto com as paredes antigas. A festa acontecia no início do povoado, mas ali — naquele ponto — o mundo parecia suspenso.
Havia gente demais naquele ano.
Gente desconhecida.
Rostos que não pertenciam à memória do lugar.
E, entre eles… a esposa de Armando.
Na casa, o jantar seguia lento para uns, apressado para outros. Érica e as primas mal erguiam os olhos do prato. Comeram rápido. Saíram rápidas. Nem olharam para os homens adormecidos.
Quatro sombras atravessando a noite.
— Hoje… tudo pode mudar — disse a esposa de Armando, em algum ponto da festa.
Ele riu.
Mas seu riso não era leve. Era um riso cansado, carregado de culpa, como quem já sabe que o destino está em movimento — e que não há mais como pará-lo.
A madrugada avançava.
Por volta de uma hora, Vicente despertou, ainda pesado da bebida. Ao lado do sogro, levantou-se com dificuldade. A casa estava estranhamente viva — vozes na sala, risos, movimento.
— O que está acontecendo? — perguntou o velho.
— Acho que… ela ainda acredita que está entre nós — respondeu Vicente, com uma estranha serenidade.
Chamaram.
Ninguém respondeu.
A sala estava vazia.
O silêncio caiu como um peso insuportável.
E então, todos compreenderam.
O chão pareceu abrir-se sob seus pés.
Fazia um ano.
Um ano desde aquela noite.
Desde a tragédia.
Desde o fim.
Naquela virada de ano, o povoado aprendera o verdadeiro significado de silêncio.
No bar, entre música e bebida, tudo aconteceu rápido demais.
Os tiros rasgaram a noite.
Érica caiu primeiro.
As primas não tiveram tempo de fugir.
Quatro corpos.
Quatro destinos interrompidos.
O pânico se espalhou.
E, no meio dele, a figura que ninguém esperava — a esposa de Armando.
— Por quê? — gritou ele, já sem chão.
Ela sorriu.
Um sorriso frio, seco, definitivo.
— Porque alguém precisava fazer o que você nunca teve coragem.
Os homens a seu comando o seguraram.
E ali, sob o olhar impotente de todos, ela fez do amor traído um ritual de vingança. Lento.
Doloroso. Irreversível.
Cinco mortes.
Uma única noite.
E o fim de um povoado que nunca mais seria o mesmo.
Um ano depois, restavam os ecos.
Dona Mariana, consumida pela culpa.
O pai, pela perda.
E Vicente… pelo ódio.
Não apenas pela morte.
Mas pela traição que agora também o assombrava.
— Ela vem… — disse Mariana, com os olhos perdidos. — Daqui a pouco ela chega…
Vicente nada respondeu.
Agradeceu.
Saiu.
Entrou na caminhonete.
Dirigiu até o fim da estrada, onde o asfalto começava.
Parou.
Respirou.
E então, uma voz:
— Tudo certo. Pode subir.
Ele não hesitou.
Olhou uma última vez para trás — para o povoado, para a igreja, para o passado.
— Vamos embora… — disse. — Esse lugar não nos merece.
E partiu.
Como quem deixa não apenas um lugar,
mas uma vida inteira enterrada entre canaviais.