Com 14 anos de carreira, o artista divide sua produção entre a música, a literatura e as artes cênicas, consolidando-se como um dos nomes centrais da nova cena cultural de Alagoas

Banhado pelas águas do Rio São Francisco, Alenilton construiu a identidade que hoje assina como Allê, O Santo. Aos 28 anos, dos quais metade deste tempo de vida fora dedicado à consolidação de uma carreira multilinguística; o artista divide sua produção entre a música, a literatura e as artes cênicas, consolidando-se como um dos nomes centrais da nova cena cultural de Alagoas, sediado na histórica cidade de Penedo.
Na música, sua atuação como cantor e compositor lhe rendeu premiações em eventos como o Festival Em Cantos de Alagoas e uma agenda constante pelos palcos do Estado. Ele também já lançou livros como Dê-me a Mão (2018, Editora Multifoco) e Guarda-Sóis, publicado pelo Selo ChicoPlá, laboratório de artes fundado por ele para investigar e fomentar a produção alagoana.
Seu repertório se estende e chega até a dramaturgia e à tradição popular. Autor de espetáculos Conta Chico e Acauã, ele também assume a direção artística da Quadrilha Junina Chapéu de Couro. Além disso, fundou o Coletivo Margeia de Teatro como plataforma de arte-educação, levando projetos voluntários a escolas públicas para discutir diversidade, produção negra e vivências LGBTQIA+.
Atualmente, Allê leva a experiência do campo para a academia. Como mestrando em Artes e Práticas Culturais pela PUC-São Paulo, ele pesquisa a oralidade ribeirinha, buscando nela o fundamento para sua literatura.

R.A: Allê, antes de qualquer coisa, eu gostaria que você falasse um pouco da sua história. Você é de Penedo, uma cidade conhecida por ser histórica e artística. como surgiu o seu interesse pela arte, considerando sua atuação multiartista, que transita do canto ao teatro? Pode contar pra gente?
Allê, O Santo: Eu tenho 28 anos e, destes, mais de 14 são dedicados ao fazer artístico, em idas e voltas de se perder e se achar a partir da arte. Quando eu retorno para o “Nego” – essa é a forma como minha família sempre me chamou, principalmente da primeira infância ao fim da adolescência – eu consigo tatear onde tudo começa. Eu sou o décimo quarto de 16 filhos, e só com isso é possível imaginar o caos numa casa de tanta gente com tantas vontades diferentes, olhares diferentes, com jeitos de ser tão diferentes.
De um lado, um irmão que desenvolveu, de forma autodidata, a função de luthieria; do outro, o da cozinha, o da construção civil, o do futebol. E eu? O que eu faria? Seria padre! Por alguns anos essa vontade me foi frequente, persistente até; mas as justificativas permeiam alguns lugares que eu estava descobrindo sobre mim e cuja visita, por vezes, era assustadora, justamente por não entender quem era o Nego. Também não se pode esperar certezas de uma criança e, hoje, eu consigo perceber e me acalmar por dentro quando essa criança vem.
Eu tinha nove anos, muitas perguntas e pouca escuta. Mas também tinha um lugar de certezas, que corria o peito com ferocidade. Talvez a necessidade de dizer, por muitas vezes silenciada pelo medo de quem escutaria e de como escutaria, me levou a querer fazê-lo em silêncio, mais próximo do papel e da caneta, como um cochicho de meia-noite em casa cheia. Foi a melhor decisão que eu pude tomar, porque ela me trouxe até onde estou agora. Eu escrevia pequenos contos ou crônicas confessionais; de muitos destes eu me recusava a revisitar, e muito se perdeu. Eu lembro que a escassez não me dava a chance de ter um caderno exclusivo para escrever as minhas “coisinhas”, então eu recorria às sobras dos cadernos dos anos letivos, apagando o que podia apagar para depois escrever meus anseios sobre um papel já marcado.
E isso foi até os 14, quando eu conheci o violão para além das obras que meu irmão fazia. Na escola, o Davi Souza, um menino estranho e novo na turma, foi obrigado por mim mesmo a me ensinar a tocar. E antes mesmo de qualquer música de outros artistas, eu passei a musicar meus velhos escritos, transformando em canções aqueles cochichos de meia-noite em casa cheia. Mas eu sempre me coloquei no lugar de quem escreve, não de quem canta. São questões minhas ainda, a insegurança com a minha voz; mas, àquela época, ela era maior e me calava com muita facilidade, até que um dia, nessas gincanas escolares, com shows de talentos e paródias, enquanto eu sussurrava uma das minhas canções, enquanto fazia uma atividade na sala de aula, uma amiga passou do meu lado, parou e disse para todo mundo: “Oh, minha gente, o Allê canta! Já temos quem vai apresentar nossa paródia”. Eu fiquei de todas as cores possíveis. Mas foi um pontapé.
Pouco depois eu conheci o teatro. E fui puxado grosseiramente para dentro, pois no palco eu podia colocar meus textos, minhas canções, meus delírios, minhas paixonites da adolescência, meus quereres de futuro, atribuindo tudo aquilo a um personagem e não ao Nego que aos poucos se tornava Allê. Mas, como empecilho para tudo isso, para além da timidez, do Nego guardado por dentro, eu era gago e tinha um problema na projeção de algumas consoantes. Subir ao palco era um desafio, principalmente para fazer o outro entender o que eu dizia. Mas fui aos poucos construindo esse Allê que agora vos fala. De modo geral, gosto de dizer que a escrita me devolveu a vida, que o teatro me devolveu o corpo e a música me trouxe de volta a voz; e que, para isso, eu precisei resgatar o Neguinho de dentro e pô-lo para fora, nesse SANTO que me faço
R.A: Por que Allê, O Santo?
Allê, O Santo: Eu me chamo Alenilton, mas, na minha infância, sempre fui chamado de Nego, até meados do Ensino Fundamental II. Todos os meus irmãos também têm nomes iniciando em “Ale” e, como são todos muito parecidos, uma professora, Iris Xavier, não conseguia lembrar quem era quem. Por não saber qual nome era de cada um, ela chamava todos de Allê. Com o tempo, o apelido foi adentrando os meus grupos de amigos, colegas de turma e a rua onde eu morava; todos passaram a me chamar de Allê Santos. Foi assim que comecei a me apresentar publicamente.
Mais tarde, quando eu já estava me apresentando no canto e no teatro com mais afinco e profissionalismo, lá por 2017 ou 2018, conheci Afonso Xavier. Ele me apresentou ao trabalho de Liniker e os Caramelows e sugeriu que eu deveria ter uma banda chamada “Allê e os Santos”. Como eu não tinha uma banda e vi que a carreira estava ficando séria de fato, pensei que dava para seguir sendo Santo sozinho. Então, adotei Allê, O Santo.
Hoje, o nome ganha outros sentidos, claro: Allê carrega esse lugar de afeto, construído apesar das dores e dos percalços. E Santo, não porque eu seja puro – longe disso, nem pretendo –, mas porque sobrevivo dia após dia nesse mundo de meu Deus, em que carregar as minhas características desperta no outro motivações xucras sobre mim, sobre meu corpo e sobre meus afetos. Então, eu sei quem eu sou, mesmo com todas as dúvidas que ainda me cabem e me atravessam, e escolhi esse nome para dizer isso ao mundo.
R.A: Penedo é um cenário onde o patrimônio histórico abraça o Rio São Francisco. De que forma a “cidade-museu” e a fluidez do Velho Chico transformaram não apenas sua estética, mas o seu ritmo de criação?

Allê, O Santo: As ruas da cidade, os prédios – os que ainda estão de pé e os que não estão mais – me pregam peças diárias em qualquer momento que eu saia de casa. Não existe pôr do sol como o daqui; não existe, em qualquer outro lugar, a mesma língua de Chico para me dizer, tocando os meus pés à margem, submergindo meu corpo, me levando para dentro e me pondo para fora também. A cidade e suas marcas históricas me ensinam todos os dias a escutar o tempo com mais atenção, a silenciar as buzinas do amanhã para acalentar o peito. Tem todo um encanto que paira sobre a minha cabeça, que me estaciona para dizer que tudo bem parar.
E o rio, com seu fascínio, conduz a cadência, me reelabora por dentro, mata sedes seculares num corpo de só três décadas, nem completas ainda. Há uma contradição que me encanta e que diz muito sobre como componho, escrevo e canto: entre a solidez da rocha que constitui a cidade e a correnteza das águas que a abraça, é nesse intervalo que minha criação acontece. É onde memória e presente se encontram, e onde o território deixa de ser cenário para se tornar linguagem que anseia futuro, que busca tato, que busca respostas e, até mesmo, silêncios.
Não tem um dia em que eu não esteja criando; a cidade me impulsiona. E criar no sentido antagônico à prontidão massificada, mais próximo do processo; de entender que um verso de hoje é muito, que uma canção inteira requer pequenos versos de dias vários, que o texto requer descanso para maturar, que canção se faz de gente e que arte se faz de gente – dos vários que correm as ruas, dos outros que não mais correm, de todos.
Penedo é minha casa, embora por vezes – hoje menos – eu me sinta órfão de terra, principalmente quanto ao respeito e ao incentivo aos meus trabalhos artísticos. Mas, ao mesmo tempo, masoquismo ou não, não há outro lugar em que eu queira estar vivo e fazendo o que eu sou, o que canto, o que escrevo e o que atuo, pois, para além de ser o lugar onde eu crio, Penedo é o canto que me cria. Foi e é sobre este solo que minha mãe e meu pai, Elenita e Ailton, apesar de todos os azares e mazelas sociais, me deram ferramentas para me construir e ser esse amontoado de vários eus: do Nego, do Allê, do Santo.
R.A: Sua atuação transita entre música, teatro, literatura e cultura popular. Em que momento você percebeu que sua criação não cabia em uma única linguagem, e como essas linguagens se cruzam no seu processo artístico, principalmente da música?
Allê, O Santo: Eu não consigo ser ou fazer uma coisa só. Ninguém é ou faz. Eu sou muito inquieto e vivo para experimentar os fazeres e quereres que me dão na telha. Na minha cabeça, as ideias latejam como num caldeirão. Quando eu escrevo uma música, penso em como ela seria no palco, no teatro, num clipe; como seria pensá-la num livro, ampliando a história e contemplando outros ouvidos, olhos e peitos.
Quando subo ao palco para cantar, não é só o Allê cantor e compositor; é o Allê cantor-compositor-ator-brincante-escritor. Não dá para dissociar um do outro, o meu corpo diz isso. A timidez vai embora e o meu ser é tomado por algo que me faz, por ora, esquecer tudo o que fiz naquelas horinhas de palco, sob o olhar atento de alguém. E só sou. Inteiro.
Onde a consciência e os lapsos dela se encontram, dá para ser tudo e nada. Quando escrevo para o teatro ou estou atuando, tem música no corpo; quando vou para a quadrilha junina, é a mesma coisa: a dança pede, o tema pede… Tudo pede tudo. Não é diferente na escrita. Quando vou para a literatura, tudo isso está posto no caos da minha cabeça: a dança, o canto, as personagens, os diálogos, os ritmos, a poesia. Eu não sei criar senão percorrendo e utilizando cada uma dessas ferramentas.
R.A: Como é o seu processo de escrita? Ao longo desses 14 anos como cantor e compositor, o seu processo de escrita mudou? O que você sente que permanece e o que se transformou na sua forma de compor?
Allê, O Santo: Eu gosto de dizer que luto todos os dias para ser alguém que teria cuidado de mim na infância. E isso diz muito sobre como eu escrevo. O Allê cresceu, mas ainda preserva o Neguinho dentro de si, sabe? Isso é a base de como e por que escrevo. Por isso, talvez, embora o coletivo me embriague, muitos dos meus processos de escrita são solitários. São íntimos. Às vezes, surgem da necessidade de digerir o mundo, entendê-lo ou chegar próximo disso.
Meu processo de escrita sempre partiu da escuta. No início, escrevia muito a partir da urgência: havia uma necessidade quase imediata de dizer, de existir e de compreender pela palavra. Mas, hoje, a maturidade me deu a consciência de que o imediatismo não é suficiente, nem saudável. Ser artista nunca foi sobre quantas canções eu consigo fazer em um dia, mas sobre a relação direta com a experiência.
Logo, hoje tateio o fato de que escrevo a partir do que me atravessa: do corpo, da memória, do território e dos afetos. De todo jeito, ainda preciso que a escrita seja verdadeira, que venha de um lugar honesto, mesmo quando é dura ou contraditória.
Sobre o todo, posso dizer que o que muda é a forma, mas o sentido ainda é o mesmo: a busca pela compreensão do mundo, das demandas diárias e de tudo o que pode caber num peito de gente. O que cai por terra é a urgência; o que faz morada é o apego à lapidação, a cortar os excessos – mas sem ter medo deles. Acima de tudo, aprendi a respeitar o tempo da canção, a ouvir sem medo de dar mais e de tomar de volta, se preciso. Antes, eu escrevia muito mais para sobreviver; hoje, escrevo muito mais para compreender, pois entendi que a sobrevivência permeia a compreensão das coisas que me atravessam.
R.A: Depois de 14 anos e prêmios, qual é o próximo passo do Allê? O que você ainda não disse na sua arte e está ansioso para expressar?
Allê, O Santo: Essa pergunta é difícil para mim, porque a resposta depende da mídia. Sinto que, no palco, por exemplo, já falei de muita coisa e deixo que o amanhã me diga sobre o que falar a mais. Porém, nos registros fonográficos – nas canções que já lancei oficialmente –, há um campo vasto que estou começando a adentrar agora.
Este ano é o momento de trabalhar no meu primeiro álbum. Ele traz uma reinvenção do Allê a partir das minhas próprias raízes, da estética sonora às palavras que canto e sobre o que canto. Volto a falar sobre o amor – se é que em algum momento deixei de falar sobre ele –, mas passo a tratar de um romantismo que muitas vezes me foi, e ainda é, negado; algo que pessoas como eu tendem a viver tardiamente devido às construções sociais e aos preconceitos.
Neste trabalho em específico, há algo que eu sempre quis dizer e sobre o qual, quase sempre, tive receio: o que sobra do amor para alguém que foi impossibilitado de vivê-lo? Dos afetos? Dos relacionamentos? Cantar “para ele”, em um exercício de imaginar lugares que eu ainda não vivi, é talvez abrir portas para compreender meu “eu” de agora e minhas demandas por bons afetos alheios, que queriam maturar em um peito que não fosse só o meu. Talvez esse seja o anseio da minha palavra-canção por agora: construir uma ponte para que eu viva, de fato, o que eu acho e projeto sobre o amor a dois.
R.A: Sua obra é atravessada pelas pautas negra e LGBTQIA+. Como é o desafio político e poético de afirmar essas identidades vivendo no interior de Alagoas, e como isso se diferencia da produção feita nas grandes capitais?
Allê, O Santo: Eu sempre tive consciência de que afirmar identidades negras e LGBTQIA+ no interior de Alagoas é, antes de tudo, um gesto de sobrevivência. Nunca houve um momento na minha vida em que essa consciência não estivesse presente; digo isso porque recordo do Nego de seis anos se transmutando para caber. De modo geral, existe um desafio cotidiano que não é apenas artístico, mas social: o de existir sem pedir licença e o de criar sem se esconder.
Penedo é uma cidade extremamente católica; nela, os atravessamentos são mais diretos, os olhares são mais próximos e a exposição é constante. O corpo que cria é o mesmo que circula, que é reconhecido e que é julgado. Portanto, não dá para dissociar.
Poeticamente, isso me exige honestidade radical, a ponto de eu sempre trazer esses temas em uma posição “combatente”, repleto de armaduras. Não há muito espaço para abstrações vazias; tudo é atravessado pela experiência real, pelo território, pela memória e pelas relações concretas. Eu costumo dizer que cantar o amor e o afeto com o corpo que tenho e com as verdades que semeio é, por si só, um ato político. Nada disso é neutro, embora ainda soe estranho para alguns. Logo, o ser político aparece no gesto, na palavra, na escolha do que se diz e do que se silencia; aparece em como o corpo se porta no palco, em como a voz é aveludada, em como a munheca quebra e em como o quadril é solto. Criar aqui é assumir riscos, mas também é criar com densidade, com chão.
Em relação às grandes capitais, é notório que esses temas já estão melhor inseridos. Não digo que não haja violências e pautas para serem discutidas – compreendo que cada realidade é única –, embora percorram linhas coletivas. Mas sinto que o debate lá está mais evoluído. A diferença se expressa na qualidade da produção, mas também nas condições de existência. Nas capitais, há mais circulação, mais redes e, muitas vezes, mais proteção simbólica. No interior, a produção é menos mediada e mais vulnerável; talvez por isso mesmo seja mais urgente. O que faço nasce de um lugar onde identidade não é conceito, é prática diária. É a vida acontecendo enquanto a obra se constrói.

R.A: Você é diretor e fundador do Coletivo Margeia de Teatro. Para você, qual é o papel do teatro como ferramenta de formação crítica dentro da escola pública? E como foi a decisão de criar o Coletivo?
Allê, O Santo: Eu sempre acreditei que as artes são fundamentos sólidos e ferramentas contundentes na construção de uma sociedade mais forte, mais consciente. Muito do que sou, eu devo aos projetos artísticos paralelos que aconteciam na escola. Meu primeiro palco foi a escola, enquanto artista da escrita, do teatro e da música.
Por isso, penso o teatro na escola pública como um espaço essencial de formação crítica. Ele não se limita à técnica ou à cena, mas atua na construção do pensamento, da escuta e do senso coletivo. Lembro que, assim que terminei o ensino médio, pedi à direção para retornar à escola que me formou para fazer oficinas de teatro, de forma voluntária, e, a partir disso, vi que o teatro permite que estudantes se vejam como sujeitos ativos, capazes de criar, questionar e elaborar suas próprias narrativas.
É desse movimento que nasce o Coletivo Margeia: de acreditar que nossos corpos podem contar outras histórias, para além das nossas; que podemos atiçar bons afetos, tirar gargalhadas, emocionar, mas também causar estranheza e desconforto. O Margeia é um espaço que preza pela criação estritamente ligada ao nosso território, do texto à direção, da sonoplastia ao cenário; tudo precisa ser nosso, feito por nós, para os nossos e para os outros.
R.A: Ser premiado no Festival Em Cantos de Alagoas marcou de que forma a sua trajetória como compositor? Houve alguma virada a partir desse reconhecimento?
Allê, O Santo: Estar no palco de um festival em nível estadual é incrível, mas os bastidores do processo me cativam mais. Pude conhecer dezenas de artistas alagoanos que não chegavam até mim aqui, em Penedo. As trocas, mesmo curtas, tinham, e têm, um valor gigante. São compositores de primeira linha, com canções que atravessam o peito da gente de forma visceral. Logo, a participação, por si só, já é um grande prêmio.
Claro que receber o reconhecimento e ser premiado com a canção “A Casa ou a Pressa de Não Mais o Ser” foi maravilhoso e me deu um pouco mais de confiança sobre o meu trabalho. Digo isso porque pairam sobre a minha cabeça algumas inseguranças que me paralisam demais e me tiram a capacidade de criar e, às vezes, de me expor.
Uma premiação como essa, ao lado de tanta gente boa, nos faz recobrar a consciência do nosso próprio trabalho e trajeto; ela nos provoca a seguir. Então, o impacto, ou a virada de chave, está neste lugar: o de entender que, em outros espaços, para além dos que eu já estava habituado a cantar, alguém há de se entender ou se encontrar no que eu faço.
R.A: Olhando para sua trajetória até aqui, o que você acredita que sua obra comunica sobre o interior de Alagoas para além dos estereótipos normalmente associados a esse território?
Allê, O Santo: Sabe aqueles memes que ilustram como as pessoas do Sul/Sudeste enxergam as vivências nordestinas? Mulheres com balde d’água na cabeça como se todos os territórios fossem somente seca, fome e miséria, pessoas sempre vestidas com roupas rasgadas ou “de matuto”, independentemente do contexto urbano? Normalmente as pessoas só enxergam o estereótipo nesses tamanhos, quando escrachados.
Mas, o que eu percebo é que há pequenas projeções sobre o jeito de fazer arte, e como muitas vezes os artistas das cidades menores abraçam essa ideia sem se questionar. Seja pelo estilo musical que se segue, sobre como parece que só existem cantores de barzinho – o que não é um problema, deixo claro. Digo isso, porque já passei por um tempo tentando me enquadrar nesses espaços para ser contratado, e para isso eu precisava abrir mão do que sou e acredito, para me adaptar a uma imagem do que é ser artista no interior.
Quando eu penso sobre isso e olho para a minha trajetória, acredito que minha obra comunica um pouco da complexidade do interior de Alagoas. Um território que não cabe em caricaturas nem em narrativas únicas, um interior que aparece no meu trabalho feito de contradições: é dureza e delicadeza, silêncio e invenção, tradição e contemporaneidade. Para além dos estereótipos, procuro mostrar um lugar onde há pensamento crítico, produção artística potente e afetos sofisticados, um interior que cria, que elabora linguagem, que reflete sobre o tempo, o corpo, o amor e a política. As paisagens não são apenas cenário; elas atravessam o modo como penso, componho e existo.
Minha obra tem aprendido a falar de um interior vivo, em movimento, que dialoga com o mundo sem abrir mão do seu chão, um território onde as margens também produzem centro, e onde ser do interior não é limite, mas ponto de partida.