Com Oliver e o Rádio, Karla Dias reforça a importância da literatura infantil no desenvolvimento das crianças

Autora estreia na literatura infantil com Oliver e o Rádio e fala sobre memória, escuta ativa e o incentivo à leitura entre crianças 

Natural de Salvador (BA), a jornalista Karla Dias é autora do livro infantil Oliver e o Rádio. Foto: Arquivo pessoal.

“Pensei que seria interessante ver adultos lendo com seus filhos e netos, compartilhando os bons momentos da vida e os aprendizados que carregam.” Foi com esse desejo de aproximar diferentes gerações por meio da leitura que Karla Dias escreveu “Oliver e o Rádio: um livro sobre escuta ativa e relações afetivas”, sua estreia na literatura infantil.

Natural de Salvador, criada em Belo Horizonte e atualmente moradora de Maceió, a jornalista apresenta uma história ilustrada por Guilherme Olímpio. Na obra, o leitor acompanha Oliver e Lis em um fim de semana na casa da Vovó Lucinda. Lá, eles descobrem algo que nunca imaginaram: o passado da avó como locutora de rádio. A partir dessas lembranças, as crianças mergulham em conversas que despertam a imaginação e fortalecem os laços familiares.

Em entrevista à Revista Alagoana, Karla fala sobre o processo de criação do livro, a importância da literatura na infância, a parceria com o ilustrador Guilherme Olímpio e os próximos projetos como escritora.

R.A: Karla, antes de falarmos sobre Oliver e o Rádio, gostaria que você se apresentasse. Quem é Karla Dias, de onde você vem e como a escrita e a literatura passaram a fazer parte da sua história? Pode contar um pouco para a gente?

Karla Dias:  Sou jornalista, natural de Salvador-BA e autora de um projeto criativo que também é um sonho realizado. Desde pequena, sempre me interessei pela escrita e leitura, me recordo da professora passando atividades em que tínhamos que narrar  alguma curiosidade, escrever sobre as férias ou uma viagem que fizemos. Era o tipo de atividade que eu tinha muita facilidade de realizar, apesar de que a criação de texto não vinha somente desse lugar de criatividade. Eu assisti muitas séries e filmes e gostava de criar paródias ou pequenos roteiros de histórias, que serviam de narrativas para apresentações e trabalhos na escola. Passei a maior parte da infância e adolescência fazendo disso, de uma certa forma, uma brincadeira. 

R.A: Em Oliver e o Rádio, o leitor acompanha as lembranças da avó de Oliver e Lis, Lucinda , que compartilha com os netos histórias de quando trabalhava como locutora de rádio. A partir dessas conversas, o livro aproxima diferentes gerações e aborda temas como memória, escuta e convivência. Em um momento em que é comum falar sobre conflitos e distanciamentos entre gerações, por que você escolheu construir essa relação entre avó e netos como o centro da história? 

Karla Dias: Acredito que a relação entre avós e netos é justamente o oposto do que estamos vivenciando nas conexões de hoje de modo geral. Escrevi Oliver um pouco depois da pandemia, então, no primeiro momento, e talvez não muito consciente dessa representação, quis escrever algo que aproximasse as pessoas umas das outras. Contar essa história na perspectiva de uma relação de avós e netos, que comumente é mais livre, acolhedora e afetuosa, fazia sentido com a narrativa que eu desejava expressar. Eu não tive uma relação tão próxima com os meus avós, mas os momentos em que estive com eles, na casa deles, era assim que eu me sentia.

Também criei um enredo em que diferentes gerações estão interessadas em compartilhar sua cultura pessoal por meio de uma escuta mais ativa e presente e, a partir disso, reforçar o vínculo afetivo com o outro, seja ele familiar ou não. Valorizo essa troca e acredito na transformação consciente e verdadeira que essa dinâmica causa nas relações. 

Foto: Arquivo pessoal

R.A: Vivemos um momento em que a leitura disputa espaço com diferentes formas de entretenimento, especialmente entre as crianças. Diante desse cenário, qual você acredita ser o papel da literatura infantil na formação dos pequenos leitores e como Oliver e o Rádio busca despertar esse interesse pelos livros? 

Karla Dias: A literatura infantil é um hábito necessário no desenvolvimento cognitivo e social de uma criança, é o cantinho onde ela pode criar, pensar, se expressar, desenvolver a própria linguagem. Considero que a leitura na infância é um tipo de ensaio educativo onde a criança aprende sobre suas emoções, empatia, imagina com o seu próprio olhar, exercita a sua forma de interpretar o mundo, e assim pode se conhecer e crescer com mais segurança e repertório, também. Isso é fundamental. 

Quando terminei de escrever Oliver, pensei que seria interessante ver adultos lendo com seus filhos e netos, compartilhando os bons momentos da vida, os de maior aprendizado, talvez. Perceber como a criança entende isso, como sente o que está sendo contado e como essa interação funciona na perspectiva da criança. É o tipo de comunicação que gosto de despertar e incentivar nas crianças, por meio de livros — como Oliver e o Rádio — e nas conversas do cotidiano.  

R.A: Você pode dizer qual foi a sua maior inspiração ao escrever esse livro? Antes de Oliver e o Rádio, você já escrevia histórias infantis ou esse universo surgiu mais recentemente? 

Karla Dias: A minha inspiração surgiu  de vários lugares, ideias e pessoas para construir a narrativa de Oliver. A mais importante foi a vontade de deixar o medo e a insegurança para dar vida a um projeto criativo que tentei realizar em outros momentos, mas não deu muito certo. Então, cada etapa do processo desse livro — desde a ideia até a publicação — foi de grande inspiração e aprendizado para mim, enquanto escritora iniciante. Quero criar mais projetos criativos como este e diferentes deste. Descobri que gosto de escrever contos e histórias para o público infantil, e escrevo outros tipos de textos também. Estou absurdamente feliz e grata por essa realização.

R.A: Como foi o trabalho conjunto com o ilustrador Guilherme Olímpio? Em que momento as ilustrações passaram a dialogar com o texto? 

Karla Dias: Eu estava à procura de uma arte que expressasse o sentimento do texto de uma forma leve e natural, e encontrei o trabalho maravilhoso do Gui no @ilustragui. Ele tem uma conexão forte com os avós e suas raízes mineiras, ilustrou um livro sobre essas recordações, o que acabou sendo uma boa coincidência na escolha da ilustração, porque ele entendeu rapidamente a minha proposta. Eu queria que a ilustração contasse a história linearmente, como no texto, e que tivesse essa impressão nostálgica do enredo. Fiquei muito feliz com o resultado e ele também. 

Livro infantil Oliver e o Rádio, com ilustrações de Guilherme Olímpio. Foto: Arquivo pessoal

R.A: Em celebração ao Dia do Livro, que tipos de livros você costuma indicar para crianças que estão começando a criar o hábito da leitura? 

Karla Dias: Leiam livros de autoras brasileiras contemporâneas que estão produzindo obras literárias. A escrita feminina é algo realmente revolucionário e enriquecedor, adoro ler livros escritos por mulheres. 

Para quem deseja incentivar a leitura nos pequenos leitores atualmente, indicaria livros que contam curiosidades da vida de modo geral, livros que ajudam a compreender as emoções na infância e reforçam vínculos afetivos saudáveis. 

R.A: Depois da estreia na literatura infantil, você já pensa em novos projetos ou personagens? 

Karla Dias: Sim, com certeza. Tenho um livro infanto-juvenil que escrevi antes de Oliver e o Rádio, pretendo reescrevê-lo para uma possível publicação em HQ e estou escrevendo um livro para o público adulto. Estou sempre rabiscando o meu bloco de notas com coisas, comportamentos e personalidades que chamam a minha atenção e se tornam referência para a criação de textos e personagens.

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