Joaquim Marinho compartilha sua transição das telas para as lentes em dez anos de arte no interior de Alagoas

Ari Marinho, como também é conhecido, é artista alagoano com descendência Ibérica e do Oriente Médio

 

Joaquim Marinho, tem 26 anos, nasceu e vive em Capela, Alagoas, onde também é conhecido como Ari Marinho. Foto: Arquivo pessoal

A pintura antecedeu a fotografia como o principal método de registro dos momentos da humanidade por séculos. Esse percurso histórico se repetiu na trajetória de Joaquim Marinho, ou apenas Ari Marinho. Natural de Capela, Alagoas, ele iniciou seu trabalho artístico através da pintura em tela durante um período de tratamento de ansiedade e depressão. Naquele momento, a produção artística serviu como uma ferramenta de enfrentamento e expressão pessoal. A transição para a fotografia ocorreu de forma técnica: Joaquim adquiriu uma câmera para registrar paisagens que seriam usadas como referência para suas pinturas. 

Com a prática, ele identificou na fotografia uma linguagem artística independente, capaz de documentar histórias e instantes de forma autônoma. O que começou como um suporte para o pincel tornou-se sua principal forma de atuação. Atualmente, Joaquim Marinho acumula 10 anos de experiência na arte, trabalhando profissionalmente em eventos, ensaios e registros fotográficos. 

Com influência de suas raízes ibéricas e do Oriente Médio, ele une o olhar das artes plásticas ao trabalho técnico com a câmera. Em celebração ao Dia do Fotógrafo, o artista compartilha um pouco de sua história na fotografia, assim como na pintura.

R.A: Joaquim, antes de qualquer coisa, você pode contar um pouco da sua história? Quem é Joaquim e de onde vem? Em que momento você se apaixonou pela fotografia?

Joaquim Marinho: O nome Joaquim atravessa gerações na minha família, veio do meu bisavô, foi de meu avô, passou pelo meu tio e chegou até o meu pai. Carrego esse nome com orgulho e significado.

Costumo dizer que a fotografia me escolheu. Desde a infância, sempre fui apaixonado por essa área. Ainda criança, ganhei minha primeira câmera fotográfica e passava horas fazendo fotos e filmagens, explorando o mundo ao meu redor através das lentes.

A fotografia, portanto, esteve sempre presente na minha vida, não apenas como uma profissão, mas como parte da minha história e da minha essência.

Além de fotógrafo apaixonado por paisagens do interior, é artista visual e aspirante a comissário de voo. Foto: Arquivo pessoal

R.A: Além da fotografia, você também é artista visual. Pode nos contar como a pintura surgiu na sua vida e qual foi a motivação por trás disso?

Joaquim Marinho: Descobri a pintura em tela em uma fase difícil da minha vida, marcada por muita ansiedade e sintomas de depressão, ainda no final da infância. Foi nesse período que encontrei, através da pintura, um espaço seguro para me conectar comigo mesmo. Cada sentimento que eu não conseguia expressar em palavras era colocado na tela; tudo o que eu sentia se projetava nas cores, nas formas e nos traços.

Pintar em momentos de tristeza era, paradoxalmente, um alívio. As obras nasciam exatamente no mesmo tom do meu estado emocional. Lembro-me de uma cliente que, ao ver uma pintura, disse que não conseguiria levá-la, pois sentia que ela carregava muita tristeza, e ela estava certa. Aquela obra refletia fielmente o que eu vivia naquele momento.

Foi por meio da pintura que aprendi sobre resiliência. Ao observar a natureza com mais atenção, passei também a olhar para dentro de mim, a me conhecer melhor e a aprender a lidar com as minhas emoções. Esse processo foi o início de um caminho que me levou à terapia e, consequentemente, a uma grande transformação pessoal.

Hoje, sou outra pessoa. E foi assim que descobri a pintura em tela: não apenas como forma de expressão artística, mas como um instrumento de cura, autoconhecimento e conexão profunda com a sensibilidade que tenho diante do mundo das artes.

R.A: A fotografia entrou na sua vida como apoio à pintura, mas acabou ganhando autonomia. Em que momento você percebeu que a câmera tinha se tornado mais do que uma ferramenta e passou a ser linguagem?

Joaquim Marinho: Percebi isso quando comecei a fotografar paisagens e as pessoas passaram a gostar do meu trabalho e a me chamar para fotografar eventos. No início, eu ainda não tinha estrutura para assumir grandes produções, mas isso só me motivou a investir ainda mais na fotografia e a enxergá-la definitivamente como profissão.

R.A: Viver em Capela influencia a forma como você cria? Como o interior e suas heranças ibéricas e do Oriente Médio se refletem tanto na sua fotografia quanto no seu trabalho como artista plástico?

Joaquim Marinho: Viver em Capela influencia diretamente a forma como eu crio. O interior me ensinou a observar com mais calma, a valorizar o silêncio, as paisagens e os gestos simples das pessoas. Essa sensibilidade está muito presente tanto na minha fotografia quanto no meu trabalho como artista plástico.

As heranças ibéricas e do Oriente Médio influenciam diretamente a minha pintura, são culturas que admiro e amo retratar, presentes nas cores, formas e símbolos que utilizo. Essa mistura de referências constrói a base da minha linguagem artística.

R.A: Vindo da pintura, como você enxerga a composição fotográfica? Ainda pensa como um pintor quando enquadra uma imagem? 

Joaquim Marinho: Vindo da pintura, ainda penso como pintor ao enquadrar uma imagem. A fotografia, para mim, é construída a partir da luz, das formas e do equilíbrio, como um quadro.

Atua profissionalmente na fotografia, registrando eventos, ensaios fotográficos e momentos especiais, área em que já tem 10 anos de experiência. Foto: Joaquim Marinho

R.A: Dia 08/01, celebramos o Dia do Fotógrafo. Para um artista que transita entre tantas áreas, o que significa ser fotógrafo e artista visual no interior de Alagoas?

Joaquim Marinho: Ser fotógrafo e artista plástico no interior de Alagoas é um ato de resistência e de afeto. É encontrar inspiração no cotidiano, nas pessoas e nas paisagens simples, e transformar isso em arte. Transitar entre essas áreas me permite contar histórias do lugar onde vivo, valorizando a cultura, a identidade e a sensibilidade do interior.

R.A: Entre registrar paisagens e fotografar pessoas em eventos e ensaios, o que te desafia mais como artista e por quê?

Joaquim Marinho: O que mais me desafia é a fotografia, porque estou sempre lidando com pessoas diferentes, cada uma com seu contexto social e cultural. Isso torna cada trabalho único e exige sensibilidade e adaptação. Na arte, tenho mais liberdade para criar; já na fotografia, busco equilibrar meu olhar artístico com o desejo dos meus clientes, para que o resultado final represente quem eles são.

R.A: Se você pudesse dar um conselho para o Joaquim de 10 anos atrás, que estava apenas manuseando a primeira câmera para servir de referência para as telas, o que seria?

Joaquim Marinho: Eu diria ao Joaquim de antes para fazer terapia. Foi por meio dela que consegui amadurecer muitas questões e desenvolver o autoconhecimento que tenho hoje. Essa construção exigiu esforço, mas refletiu diretamente na minha forma de trabalhar e de me relacionar com as pessoas, tornando tudo mais consciente e humano.

R.A: Você tem alguma foto que te marcou durante toda a carreira como fotógrafo? Se sim, você pode contar qual é essa imagem e a história por trás dela? 

Fotografia que ganhou o prêmio no Encontro Estudantil da Rede Estadual. Foto: Joaquim Marinho

Joaquim Marinho: Ótima pergunta. Existe, sim, uma fotografia que me marca até hoje. Com ela, ganhei um prêmio no Encontro Estudantil da Rede Estadual, cujo tema era 200 anos de Alagoas. Decidi mostrar os dois lados da moeda, trazendo também à tona o lado vulnerável que muitas vezes é esquecido.

Uma das imagens mais marcantes era a de um cachorro com fome, com um olhar profundo e triste. Essa fotografia me deu grande visibilidade e acabou vencendo o concurso, enquanto a maioria dos outros trabalhos apresentava apenas o lado bonito de Alagoas. Eu quis justamente dar ênfase ao que é ignorado, ao que incomoda, mas também faz parte da nossa realidade.

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