Nesta reportagem, a Revista Alagoana revela como a organização comunitária mantém viva a essência da folia em Alagoas
O sururu é reconhecido pelo Conselho Estadual de Cultura como Patrimônio Cultural Imaterial de Alagoas desde 2014. O molusco é referência tanto na culinária quanto na cultura do Estado, estando presente em músicas e até na moda. Recentemente, ganhou projeção internacional quando a estilista Rúbia Sáfira confeccionou um vestido feito inteiramente com cascas de sururu para a cantora Joyce Allane, que desfilou no tapete vermelho em sua estreia no Grammy Latino 2025.

Em Maceió, o sururu também é tradição de Carnaval. O Bloco Sururu da Lama foi fundado no mesmo ano do reconhecimento da patrimonialidade do alimento. Realizada anualmente, a festa une a musicalidade percussiva do maracatu ao sabor do xequete – bebida à base de gengibre presente em festas e rituais religiosos de matriz afro-alagoana – e, claro, ao tradicional caldinho de sururu.
De acordo com Jeamerson dos Santos, mestre em Culturas Populares pela Universidade Federal de Sergipe e um dos organizadores do bloco, a motivação para a criação da agremiação ultrapassa a folia. “Foi a necessidade de termos um espaço próprio, com liberdade criativa e condições de brincar o Carnaval e, ao mesmo tempo, cobrar mais atenção para a riqueza cultural da cidade e para o meio ambiente”, afirma.
Vale ressaltar que a Lagoa Mundaú, um dos habitats naturais do sururu, sofreu com a escassez do molusco devido à contaminação, o que comprometeu a renda de diversas famílias que dependem da pesca. Nesse contexto, o bloco utiliza um “acessório” simbólico que foge dos padrões tradicionais para lembrar a importância do sururu: a lama. O que, para muitos, pode representar sujeira, para os foliões do Sururu da Lama é um grito de alerta.
“Sua presença vai além do simples ato do mela-mela da brincadeira. Somos de Maceió, com vivência direta com a lagoa. A lama é uma forma de alertar para a proteção e preservação da orla lagunar, com toda a dignidade que os pescadores e catadores de sururu merecem”, explica o mestre.
Santos destaca ainda que a construção do bloco é comunitária e voluntária, contando com moradores que ajudam desde a coleta das cascas para a confecção de adereços até a arte da serigrafia nas camisas. “Os membros são moradores de diversos bairros de Maceió. Eu, particularmente, era morador do bairro do Pinheiro”, conta.

Sururu fresco e o gosto das lembranças
Para quem está no “mela-mela” desde a primeira edição, como a foliã Iris Danielle, produtora cultural, o bloco é um território de reencontros e afetos. Para ela, a ausência de “glamourização” é justamente o que preserva a essência da festa. “Acho muito bacana a fluidez do bloco. Cada folião vai como quer, e estar melado deixa tudo com cara de brincadeira mesmo. É pisar na rua, curtir e ‘cabousse’!”, conta.
Além da diversão, Iris destaca que o bloco funciona como um elo com suas próprias raízes. Com família em Fernão Velho, estar no Sururu da Lama é como voltar para casa.
“Estar no bloco me aproxima muito de quem vive às margens da Lagoa Mundaú. Me lembra dos almoços que minha avó, Argentina, fazia: sururu no coco, com farinha, caldinho… são boas lembranças”, recorda, emocionada.
O que torna tudo mais divertido para ela é se “transformar em sururu” por meio da lama. “Encontrar meus outros amigos moluscos, para depois esquecer que sou um sururu só para poder comer o sururu!”, diverte-se.
Mas o envolvimento com o Sururu da Lama não se limita apenas a folia e alcança os bastidores. Iris faz questão de participar do “fazer acontecer” da agremiação, e recorda com carinho o dia em que assumiu a missão de buscar, em seu próprio carro, a argila que seria preparada para o desfile.
“Ali eu me senti ainda mais próxima do bloco”, revela. Essa proximidade se completa na avenida, ao som do grito que ecoa pela orla da Pajuçara e já virou marca registrada dos foliões: “SURURU FRESCO!”.
A mercantilização do Carnaval

“Ninguém é dono da felicidade”: a frase dita por Jeamerson funciona como um manifesto contra a mercantilização do Carnaval. Na entrevista, ele aponta o atual cenário de asfixia das políticas públicas, que favorece uma lógica de exclusão. “A ideia de ‘economia criativa’ racista só funciona para a concentração de recursos, a exemplo dos 8 milhões enviados para escolas de samba no Rio de Janeiro”, afirma.
Após tantos anos, o Sururu da Lama se consolidou como um território de resistência. Segundo Jeamerson, o bloco representa a possibilidade de enfrentar o preconceito através da valorização das artes de matrizes negras. No entanto, ele ressalta que essa construção plural esbarra na falta de incentivo oficial.
“O bloco ao protagonizar elementos da cultura de matrizes negras reafirma de forma positiva a composição de um carnaval plural no contraponto a lógica do pensamento do poder público que insiste na concentração de recursos para asfixiar a diversidade da cultura do carnaval da cidade”, finaliza
Em Penedo, o Carnaval é da molecada

Saindo da capital alagoana em direção ao interior, na cidade histórica de Penedo, o bloco Molecada do Bairro Vermelho (BV) – um dos bairros mais antigos da região – completa, neste ano, 19 anos de história. A tradição, que hoje arrasta famílias inteiras, começou com as crianças da comunidade.
Uma das organizadoras, Fabiana Pinheiro, conta que a iniciativa surgiu quando ela e sua mãe perceberam que os pequenos não tinham opções de lazer no Carnaval; a diversão se limitava a correr pelas ruas com um boneco improvisado de lata de leite. “Foi quando eu, minha mãe e uma vizinha resolvemos criar o bloco. No primeiro ano, compramos TNT laranja e, aqui em casa mesmo, confeccionamos os coletes com o nome do grupo”, recorda.
O nome “Molecada” faz referência justamente a esse início. Hoje, os pequenos de antigamente cresceram e levam seus filhos para brincar, o que torna o bloco ainda mais familiar.
Diferente das festas grandes e caras, o foco da Molecada é animar as ruas do próprio bairro. O desfile sai da Rua Santo Antônio e termina na Praça da Alegria, mostrando que o Carnaval de rua vive do carinho entre os vizinhos. Os primeiros bonecos do bloco foram o Cascão e o Cebolinha.
“Nenhum boneco é gigante. São todos pequenos porque eu quero que o bloco continue sendo para crianças e adolescentes. Graças a Deus, todo mundo participa e se diverte”, explica.

Entre as lembranças marcantes desses quase 20 anos, Fabiana destaca a homenagem à ilustre moradora e carnavalesca Dona Dalva, símbolo do bairro. “Dona Dalva foi uma carnavalesca que sempre esteve presente em todos os blocos e batucadas. Ela faleceu em 2021.”
Para a organizadora, o papel desses blocos é fundamental para a engrenagem da festa no interior: “Os blocos de rua são essenciais no Carnaval de Penedo. Somos nós que fazemos a coisa acontecer durante os quatro dias”, pontua Fabiana.