Em entrevista, o ator, dramaturgo e professor alagoano narra sua primeira década de carreira, relembra as raízes nos folguedos e expõe os desafios de fazer arte e educação em Maceió
Por Mary Carvalho sob supervisão de Bertrand Morais

Nascido em Maceió, em 19 de março de 1997, dia de São José, Emmanuel Lima teve contato com a encenação ainda na infância. Filho de uma professora e de um trabalhador portuário, ele encontrou na igreja suas primeiras experiências de teatro. Cantava no coral Marianinhos e participava das montagens de Natal, da Paixão de Cristo e da coroação de Nossa Senhora, sempre incentivado pela avó, figura fundamental na descoberta da arte.
A decisão de transformar a vivência lúdica em profissão, no entanto, veio na adolescência, durante uma excursão escolar. Ao assistir à peça “O Mistério da Fonte Milagrosa”, com Mauro Braga e Ana Sofia no elenco, teve a certeza do seu destino. “Saí daquela peça bobo, com uma vontade enorme de fazer aquilo também. Eu não sabia como, mas percebia que a igreja já era um espaço onde eu praticava um pouco disso”, relembra.
O impulso o levou a buscar mais espaço. Na escola, passou a pedir às professoras atividades práticas de encenação. E aos poucos, começou a escrever e montar pequenas apresentações, aprofundando a relação com a arte tanto no ambiente escolar quanto na igreja. Como resultado, construiu uma base sólida para a escolha profissional que viria a seguir
A cultura está no sangue

A ligação de Emmanuel com a cultura popular vem de família. Ele lembra que o bisavô participou do Fandango do Pontal, da marujada e da chegança, enquanto a avó o conduzia para ver pastoril, baianas e festas de padroeiro. “Minha avó herdou o amor e me levava pra ver tudo isso. Eles também eram grandes amantes do carnaval, assim como eu, louco por frevo”, conta.
A fé é outro ponto que atravessa sua relação com a cultura. “Nasci em 19 de março, dia de São José, dia de plantar o milho pra fartura no São João, outra época pela qual sou apaixonado e onde também trabalho, envolvido com quadrilhas. Pra mim, tudo justifica. Costumo dizer que nasci na abertura do São João”. No palco, essa devoção se transforma em guia. “São José é meu santo padroeiro, e tem santo melhor pra proteger quem ama cultura popular? Um artesão. Ele é meu guia na vida e nas outras vidas que incorporo nos palcos.”

A educação é arte, e o teatro é política
Anos depois chegou à universidade, onde foi aprovado na primeira tentativa no curso de Teatro. Ele conta que na época não compreendia muito bem do que se tratava uma licenciatura. “Na universidade a realidade é outra. Vem os choques, as decepções e as descobertas”. Por uma feliz coincidência – ou obra do destino -, a graduação estreava um novo Projeto Pedagógico de Curso (PPC) com foco no teatro dos folguedos. Já no primeiro semestre, ele pôde colocar em prática todo o repertório herdado da família. Foi ao mergulhar nos estudos sobre o Bumba Meu Boi que veio a confirmação: o que antes era paixão de infância, agora se consolidava como profissão.
“A universidade me ensinou que a rua, a brincadeira de terreiro, o chão de barro e o pau-a-pique eram palcos lindos de teatro – e eu me assegurei nisso. Hoje, carrego o título de melhor marcador de quadrilhas juninas do Brasil; ganhei em 2025, no campeonato brasileiro, com quadrilhas do Brasil todo. Além de reconhecimentos e premiações, que ainda são pequenos perto do reconhecimento dos pais dos meus alunos, dos profissionais que me contratam e de todos que trabalham comigo”, conta.
Professor de Teatro, Emmanuel leva esse aprendizado também para a sala de aula, onde a cultura popular ocupa o centro das atividades, seja por meio das músicas, da literatura ou das temáticas que ele propõe aos estudantes. Para Lima, ensinar é um exercício que exige força e concentração, mas ao mesmo tempo gratificante.
“A vida do professor é muito difícil; a do professor de teatro, eu acho muito mais. Lidar com a sala de aula é algo que precisa de muita força e concentração; na arte, é o dobro. Lido com o ego que todo artista possui: o ego de crianças, idosos, jovens e adultos. Trabalho com PCDs que buscam a arte como refúgio e terapia. O lugar da sala de aula, pra mim, é sagrado, e ver meus alunos agradecidos pelo meu trabalho me orgulha, me faz sentir mais capaz, mais artista. Eu sou o artista que deixa os outros brilharem primeiro; eu ajudo a criar os brilhos dos meus alunos”, explica Lima.
Ele ainda ressalta que o cenário cultural alagoano vive um paradoxo: se, por um lado, a qualidade técnica e criativa floresce, por outro, a infraestrutura e o apoio governamental caminham na direção oposta. “O palco principal da cidade está fechado há anos; teatros estão virando cinema (importante também, mas é menos uma casa). O que existe é absurdamente caro e inacessível”.
A indignação do artista ganha contornos ainda mais críticos diante das promessas políticas, que, segundo ele, se repetem em ciclos vazios de incentivo real. “Falta visão política. Mas é ano de eleição, eles maquiam, o povo esquece e começa tudo outra vez”, critica Emmanuel, ressaltando o peso de escolher a arte como trincheira. “Ser artista é lutar todo dia contra o sistema, que diz ser democrático e anti ditadura”.
E o futuro?
Ao ser questionado sobre quais são os próximos passos para os próximos dez anos, ele respondeu que já está encaminhando outros projetos. O primeiro deles é o espetáculo O Auto do Compade Ciço, obra de sua própria autoria, que retrata a história de um personagem chamado Ciço – um jovem devoto de Padre Cícero – e que defende a cultura popular como se fosse sua própria família.
Em um pequeno spoiler, Emmanuel conta que os personagens são inspirados em figuras dos folguedos alagoanos, como Rosinha, que é uma Diana do pastoril, e Margarida, a florista.
“A obra é 100% alagoana: músicas autorais, tudo ao vivo, com uma pegada de coco de roda, frevo, maracatu, baianá e outros ritmos que representam a nossa essência. Com um elenco genuinamente nosso, não tem como forçar sotaque, inventar algo que não seja nosso ou diminuir o nosso tesouro cultural. É claro que nem todos conhecem absolutamente tudo, mas estamos em um processo de pesquisa e conhecimento dos nossos folguedos, brinquedos populares e tradições, que nos darão base total para montar um espetáculo atual, com a cara da nossa gente e que faça uma saudação aos nossos mestres”.
Além disso, Emmanuel pretende lançar, ainda este ano, um livro dedicado ao Boi de Maceió. Paralelamente, segue com os espetáculos das quadrilhas Luar do Sertão, de Maceió, e Mandacaru, de São Luiz do Quitunde, além de suas produções com o Boi Bumbá Alagoano.
Na agenda da Atto, estão previstos dois espetáculos para o meio do ano e outros dois para o fim de 2026, além de um musical inédito que homenageia um grande nome da cultura alagoana e que deve circular pelo Brasil. O público poderá acompanhar cada etapa desses projetos pelas redes sociais do artista: @emmanuelsalima.
Dez anos de história

Dez anos dão uma boa história para contar. Após uma década dedicada ao teatro, Emmanuel Lima decidiu comemorar o marco fazendo o que sabe melhor: atuar. No dia 21 de março, ele vai protagonizar a si mesmo no espetáculo “Um enredo assim, eu quero pra mim”, que estreia no Theatro Homerinho.
Escrito por João Regis e dirigido por Roberto Montenegro, o espetáculo conta a história de um enredista, ou carnavalesco, em o momento de criação. “O Carnaval nasce como ponto de apoio para essa história e, entre plumas, paetês, fantasias e cores, vamos passear por esses 10 anos de profissão. É um encontro com meus personagens principais: a cultura popular, a sala de aula e tudo o que me envolve e me representa artisticamente”, explica Lima.
A montagem reúne canções, cenas improvisadas e bastante dinamismo. Segundo Emmanuel, o espetáculo não terá apenas um palco. “Vamos fazer deste espetáculo uma grande festa em celebração”.
Para Emmanuel Lima, tudo começa e termina na arte. Ele chama este momento de “10 anos de ARTE” porque sua caminhada passa por muitos lugares: a comédia, os musicais, a cultura popular e a arte-educação. “Eu sempre defendi a cultura popular como forma de teatro musical, por exemplo. Vejo teatro em tudo e apresento isso aos meus alunos, defendo e acredito. Não dimensiono o que é maior ou mais importante para mim; não existe essa hierarquia. Eu gosto é de arte e reconheço muitas ligações entre os meus trabalhos e as minhas formas de criar. Sempre que posso, misturo tudo”.