Conheça a arte dos Josés de Alagoas, o estado com mais pessoas com esse nome 

Por Maryana Carvalho sob supervisão de Lícia Souto

 

Três artistas alagoanos transformam suas histórias em cultura, memória e criatividade, mantendo viva a tradição local

A cada esquina existe um conhecido chamado José: seja vizinho, pai, padeiro. É tão onipresente que o Censo Demográfico de 2022 do IBGE atualizou a lista de nomes mais usados no Brasil: e “José” está no topo dela, sendo o nome masculino carregado por mais de 5 milhões de pessoas no país.

A força dessa tradição vem de muito tempo: cerca de 22% de todos os Josés vivos hoje foram registrados apenas na década de 1960, o auge de registros com esse nome. Alagoas, onde a reportagem se concentra, é o estado que mais registra “Josés”,com 7,14% da população usando-o. 

Nesta reportagem, a Revista conversou com alguns deles, para conhecer as artes e histórias por trás de um nome tão simbólico em Alagoas e no Brasil.

O José do Mamulengo

José Dário nasceu em Maceió, mas morou em João Pessoa e Recife. Foto: Bertrand Morais.

José Dário tem Alagoas como lar, mas sua relação com o mamulengo nasceu longe daqui, entre as ruas e praças da Paraíba e Pernambuco. Durante a ditadura militar, quando ainda era criança, mudou-se com o pai para João Pessoa e depois para Recife. Foi nesse deslocamento que conheceu o Teatro de Mamulengos; sentado na platéia improvisada das feiras, observava as apresentações com atenção de quem ainda não sabia que aquilo viraria ofício. A curiosidade pelas vozes, pelos gestos e pelas histórias contadas pelos bonecos cresceu junto com ele.

Quando voltou a Alagoas, em 1986, Dário reencontrou seu amigo Otávio Coutinho, que acabou sendo uma peça importante nessa construção. Foi ele quem o apresentou ao mamulengo de forma mais direta, abrindo portas para algo que Dário nem sabia que estava procurando. Então, foi ali que começou a criar os próprios bonecos. Tradicionalmente, os mamulengos são confeccionados com a madeira Mulungu, mas sem acesso a ela no início, Dário usou a imaginação e o que tinha em casa:

“Mas a gente fez os nossos bonecos de outro jeito: primeiro com isopor, sabe? A gente ia moldando as bolas de isopor, quando colocamos o projeto Mamulengo Jurubeba pra funcionar. Eu não faço no mulungu, faço com garrafa PET. A maior parte das minhas criações é feita com materiais recicláveis”, conta Dário. 

O Mamulengo Jurubeba foi o primeiro grupo de Seu Zé Dário, criado em Riacho Doce, inspirado no sítio que leva o nome da fruta. A proposta era simples e direta: não deixar o mamulengo cair no esquecimento. Entre os anos 1990 e 2012, período em que formou o segundo grupo chamado Mamulengo Sururu,  a arte ainda era pouco conhecida e tampouco difundida em Maceió.

Mas para muitos, trabalhar com o que se ama não garante estabilidade financeira. Zé explica que muitos amigos não se tornam mestres porque precisam conciliar o teatro com outra atividade para conseguir se manter. “Veja só: eu sou mestre, mas tenho amigos que não conseguem ser mestres. Alguns até tentam, mas não têm tempo. Na arte, a gente quase sempre precisa associar o trabalho artístico a outra atividade para sobreviver, entende? Isso pesa muito. Ainda assim, meu foco é manter a arte viva e passar a mensagem por meio dos bonecos, que é algo em que eu realmente me concentro.”

Como Zé Dário conta histórias de vida através do Teatro de Mamulengos? 

Palco do Teatro de Mamulengos. Foto: Bertrand Morais.

Para o público que não conhece, o Teatro de Mamulengos é composto por bonecos manipulados pelas mãos de um artista que lhe dá voz e movimento atrás de um pequeno palco – chamado de toldo ou barraca. É uma manifestação cultural popular que traz histórias diversas. Diferente do teatro tradicional, ele não preza pela estética ou um formato “correto” de espetáculo. Ele nasce das ruas, de sítios, feiras e pequenas comunidades.

De acordo com o artigo “Mamulengo: o teatro de bonecos popular no Brasil” de Fernando Augusto Gonçalves Santos, a maior concentração do teatro está no Estado de Pernambuco, mais especificamente na zona rural, onde encontra o público mais fiel. Lá, pequenas lavouras e roças ligadas a engenhos ou fazendas maiores sustentam uma vida baseada na agricultura de subsistência. 

O mamulengueiro sabe conversar com esse público porque parte das mesmas experiências: transforma em cena as alegrias, as dores, os medos e as esperanças que circulam na vida de quem o assiste. Ao entrar no universo do espetáculo, esses temas são reinventados. E a partir daí, no palco, o público reconhece suas próprias histórias, mas vê nelas novas possibilidades.

É justamente essa capacidade de dialogar com a vida real que move o trabalho de Zé Dário. Ele fala que se alimenta do presente, daquilo que acontece todos os dias. Ele deu um exemplo prático de algo que todo mundo tem medo na infância ou até mesmo na fase adulta: o medo de vacina.  “O que eu quero dizer é que a vida sempre entra em cena. Por exemplo: eu mesmo morro de medo de vacina, e quem não tem,né? Mas criei um boneco que toma a vacina sem nem perceber. Em cena, o professor diz com calma que ‘a vacina não dói’, e ,de repente, o enfermeiro aplica a injeção e o boneco nem reage. As crianças assistem, riem, e a mensagem vai sendo passada do jeito que o mamulengo sabe fazer”. Portanto, a arte, ali, vira ponte entre o medo e o entendimento.

Além de abordar temas recentes, o mestre também fez questão de manter vivas as histórias antigas do mamulengo. Uma de suas referências é o Professor Tiridá, um boneco criado pelo mestre Ginu em 1937. O personagem era um homem negro estudado, o “doutor da caneta” – como diz o mestre Zé – mas sempre era recebido como alguém destinado ao trabalho braçal. Ele virou símbolo de resistência e inteligência entre os mamulengueiros e ajudou outros personagens a serem criados. Zé Dário vê nessa linha de crítica social, humor e provocação, uma inspiração para o seu trabalho. “É uma das coisas que eu procuro fazer: manter essa história que ele construiu há muito tempo”.  

Os bonecos de seu Dário são feitos de materiais recicláveis. Foto: Bertrand Morais

Entre pausas, memórias e certezas, ele fala sobre o que espera deixar para os novos brincantes. Ensinar, segundo ele, é continuar. Continuar com a cultura, colocar valor no que veio antes e acompanhar o que ainda está por vir. “Às vezes, a gente, como ser humano, não pode falar. Mas o boneco fala, e fala sem agredir”, explica.

Ele lembra que o Teatro de Mamulengo é Patrimônio Cultural e Imaterial desde 2015 no Nordeste e reforça que a brincadeira não pode desaparecer. Diz que o mamulengo abre espaço para aprender fazendo, porque move a curiosidade, provoca novas ideias e incentiva o imaginário das pessoas. Para ele, é assim que a cultura se desenvolve, quando continua formando quem chega, seja criança ou adulto.

“E o meu objetivo é esse: não deixar a cultura morrer. Eu já sou um homem sexagenário, né? O que eu mais quero agora é formar mais mestres, mais garotos que deem continuidade. Para que, quando eu for para o andar de cima, a brincadeira siga”, conclui.

O poeta José

José Minervino lançou seu segundo livro “Terra Cercada” em 2024. Foto: Arquivo pessoal

Outro que carrega o nome mais popular de Alagoas, é José Minervino Neto, escritor e poeta nascido em Branquinha, interior de Alagoas. Cresceu e fez jus a frase “menino de interior”, corria atrás de caminhão de cana, roubava manga para comer com sal – que diz a lenda que faz mal –, brincava de ximbra. Confessa que foi um menino arteiro de brincar na rua. Mais tarde, decidiu cursar História, mas seu sonho, mesmo sem saber, era estudar literatura e por isso também fez Letras ao terminar o primeiro curso. “Na academia, segui fazendo especialização, mestrado e agora estou no doutorado. Tornei-me pai do Francisco em 2018, a maior alegria da minha vida, e desde então ele é a razão do meu viver”, conta Minervino. 

Entre os livros didáticos, ele encontrou na poesia um meio de se declarar para uma menina a qual se apaixonou na infância. Imitava os primeiros o ritmo dos poemas que lia. Mas o momento decisivo mesmo foi na sala de aula, quando a professora de português pediu para toda sala escrever uma redação aleatória de um ditado. “Eu peguei aquelas palavras, coloquei-as em ordem e saiu um conto que foi lido para a turma e muito elogiado por essa professora. Ali eu percebi que a literatura era algo inegociável na minha vida”.

A poesia depois da tragédia 

A ligação com a escrita, porém, sofreu um baque. Em 2010, a cheia do rio Mundaú invadiu sua casa e levou tudo: livros, objetos pessoais e, principalmente, o fichário que guardava todos os poemas que ele havia escrito à mão. O impacto foi tão grande que Minervino passou anos sem conseguir ler ou escrever, e o TCC de Letras precisou ser adiado por cinco anos.

“Nós conseguimos salvar o computador e alguns DVD’s com arquivos como fotos, música, vídeos e textos. No entanto, meu fichário com todos os poemas que escrevera à mão até então, meus livros e tantos objetos importantes foram embora”

No entanto, as folhas do caderno não ficaram em branco para sempre. Em 2015, ele encontrou o edital do Prêmio Literário da Imprensa Oficial Graciliano Ramos. Foi aí que viu uma oportunidade e juntou todos os poemas antigos que tinham restado e somou com os que tinha produzido depois da enchente, e assim, a luz do sol voltou a brilhar nasceu o livro “Antes e depois da chuva”. Uma obra que preserva tudo o que viveu e o que quase deixou cair no esquecimento. “Como não aprimorei minha habilidade com a prosa, faço poemas como quem congela uma cena. A memória viva, a recusa do esquecimento. As cenas que presenciei, as histórias que ouvi”. 

O movimento não parou aí. No ano passado, lançou “Terra Cercada”, um livro que se volta para a coletividade da sua cidade natal, observando como ela se constrói, se transforma e se sustenta com o tempo.

Além da graduação, Minervino se especializou em Educação e Diversidade, um espaço que abriu outro caminho dentro da própria relação dele com a literatura. E, diante de quem ainda insiste em dizer que textos literários “não servem” para a sala de aula, ele pensa o contrário. Na especialização, transformou essa convicção em proposta: um trabalho que buscava mostrar como a literatura pode ajudar a discutir direitos humanos com os estudantes.

Para isso, escolheu o conto “A terra dos meninos pelados”, de Graciliano Ramos. Explica que a história funciona como ponto de partida para conversar sobre temas que atravessam qualquer pessoa, seja ela idosa, adolescente ou até mesmo crianças. O livro traz pautas sobre a construção da identidade, igualdade e respeito ao outro. 

“A literatura é um instrumento poderoso de preservação da nossa identidade social, de crítica e reflexão. E, o mais importante, de fruição, pois sem sentir o prazer de ler nenhuma mensagem vai tocar o público leitor”, explica.

A dificuldade de ser escritor 

Antes e depois da chuva é o primeiro livro do Minervino Neto e revisita as memórias antes e depois da enchente em Branquinha. Foto: Arquivo pessoal

 

Pretender ser lido é o desejo de qualquer escritor que dedica meses, às vezes anos, à construção de um livro. Mas o caminho até o leitor não é igual para todos. Em Alagoas, essa distância costuma ser ainda maior. A Revista Alagoana, inclusive, já mostrou as dificuldades enfrentadas por autores locais para conseguir espaço no mercado editorial. É nesse cenário de pouca visibilidade que Minervino volta a atenção para um problema que conhece de perto: a falta de divulgação da mídia, a ausência de críticas literárias sobre obras periféricas e editoras que publicam, mas não promovem seus próprios autores.

 

“Para mim, foi terrível ter que perturbar a caixa de mensagens das pessoas durante o financiamento coletivo de Terra Cercada. No fim, ainda precisei completar o valor para bater a meta”, comenta. Foi nesse momento que um gesto vindo de casa fez diferença: a Secretaria Municipal de Educação de Branquinha, por meio de Ednaldo Firmino, comprou um exemplar do livro para cada escola do município. “Assim, eu consigo chegar ao meu público-alvo, que é o meu povo branquinhense. É para eles que escrevo.”

Se na especialização Minervino levou Graciliano Ramos para dentro da sala de aula, agora ele chega às escolas com a própria obra. E isso tem gerado encontros que, para ele, justificam todo o esforço. “Uma das maiores felicidades da minha vida de escritor do interior foi quando me chamaram para conversar sobre Antes e Depois da Chuva numa escola de Branquinha, e as crianças se reconheceram nos textos, nas histórias do nosso lugar, dos cortadores de cana, do rio Mundaú”.

Apesar disso, Minervino não tenta alimentar uma angústia comum entre escritores: a busca por um grande público leitor. Para ele, a escrita cumpre outra função – é o meio de colocar para fora uma dor que só encontra descanso no papel. “Se eu tiver a sorte de ser lido por mais alguém, ótimo. Já recebi bons retornos de colegas e as críticas me ajudam a melhorar. Mas sigo sem pressa e sem aperreio. Meu foco é cuidar do meu filho, essa é a minha prioridade”.

Outro José que já passou pela Revista Alagoana 

Outro José que já passou pela Revista Alagoana é José Ramiro, natural de Viçosa. Ele se encantou pelas histórias em quadrinhos ainda nos anos 1980 e mantém viva essa paixão até hoje, aos 55 anos. Todo o processo é feito à mão: das aquarelas aos fanzines que ele mesmo produz em casa. Entre suas obras estão “Inaiê”, que revisita a ocupação do Nordeste pelos holandeses, e “O Punho de Aço”, que já chega à sétima edição.

Mas afinal, o que os “Josés” têm em comum além do nome? 

José Minervino Neto com seu pai. Foto: Arquivo pessoal

Algo interessante na conversa com os dois “Josés” foi que eles contaram histórias parecidas para explicar de onde vinham seus nomes. Foram passados de geração em geração. Seu José Dário explica que o seu nome veio de seu pai que se chamava “José Couto”. Na época do seu nascimento, a discussão era se ele levaria o título do pai ou do avô, Dario, e aí quem ganhou foram os dois.

Já Minervino Neto foi filho e bisneto de “Josés”. Então, seu nome vem tanto de seu pai quanto do avô paterno de quem herdou um relógio e o apelido de Zé Vital, e por isso o “Neto” no final.

A herança do nome “José” remonta a tempos muito mais antigos do que apenas algumas décadas: ele vem do templo bíblico, sendo o nome do pai adotivo de Jesus, e significa “aquele que acrescenta” em hebraico.

Em Alagoas, os “Josés” fazem jus ao significado ancestral. José Dário, José Minervino e José Ramiro não apenas carregam a tradição familiar; eles acrescentam cultura, memória e resistência ao estado, transformando a vida em arte, seja pela voz dos bonecos do mamulengo ou pelas páginas que congelam o tempo na poesia. É assim que esse nome, tão popular, se torna sinônimo de legado.

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