Os carnavais da cultura alagoana

Nesta reportagem, a Revista Alagoana revela como a organização comunitária mantém viva a essência da folia em Alagoas

O sururu é reconhecido pelo Conselho Estadual de Cultura como Patrimônio Cultural Imaterial de Alagoas desde 2014. O molusco é referência tanto na culinária quanto na cultura do Estado, estando presente em músicas e até na moda. Recentemente, ganhou projeção internacional quando a estilista Rúbia Sáfira confeccionou um vestido feito inteiramente com cascas de sururu para a cantora Joyce Allane, que desfilou no tapete vermelho em sua estreia no Grammy Latino 2025.

O bloco foi uma iniciativa de Tia Célia, Bárbara Moraes, Cadu Àvila, Keka Rabelo, Vitor Farias e Ana Santos. Foto: Reprodução/Instagram@blocosururudalama

Em Maceió, o sururu também é tradição de Carnaval. O Bloco Sururu da Lama foi fundado no mesmo ano do reconhecimento da patrimonialidade do alimento. Realizada anualmente, a festa une a musicalidade percussiva do maracatu ao sabor do xequete – bebida à base de gengibre presente em festas e rituais religiosos de matriz afro-alagoana – e, claro, ao tradicional caldinho de sururu.

De acordo com Jeamerson dos Santos, mestre em Culturas Populares pela Universidade Federal de Sergipe e um dos organizadores do bloco, a motivação para a criação da agremiação ultrapassa a folia. “Foi a necessidade de termos um espaço próprio, com liberdade criativa e condições de brincar o Carnaval e, ao mesmo tempo, cobrar mais atenção para a riqueza cultural da cidade e para o meio ambiente”, afirma.

Vale ressaltar que a Lagoa Mundaú, um dos habitats naturais do sururu, sofreu com a escassez do molusco devido à contaminação, o que comprometeu a renda de diversas famílias que dependem da pesca. Nesse contexto, o bloco utiliza um “acessório” simbólico que foge dos padrões tradicionais para lembrar a importância do sururu: a lama. O que, para muitos, pode representar sujeira, para os foliões do Sururu da Lama é um grito de alerta.

“Sua presença vai além do simples ato do mela-mela da brincadeira. Somos de Maceió, com vivência direta com a lagoa. A lama é uma forma de alertar para a proteção e preservação da orla lagunar, com toda a dignidade que os pescadores e catadores de sururu merecem”, explica o mestre.

Santos destaca ainda que a construção do bloco é comunitária e voluntária, contando com moradores que ajudam desde a coleta das cascas para a confecção de adereços até a arte da serigrafia nas camisas. “Os membros são moradores de diversos bairros de Maceió. Eu, particularmente, era morador do bairro do Pinheiro”, conta.

Iris Danielle e seus familiares no bloco Sururu da Lama. Foto: Arquivo pessoal

Sururu fresco e o gosto das lembranças

Para quem está no “mela-mela” desde a primeira edição, como a foliã Iris Danielle, produtora cultural, o bloco é um território de reencontros e afetos. Para ela, a ausência de “glamourização” é justamente o que preserva a essência da festa. “Acho muito bacana a fluidez do bloco. Cada folião vai como quer, e estar melado deixa tudo com cara de brincadeira mesmo. É pisar na rua, curtir e ‘cabousse’!”, conta.

Além da diversão, Iris destaca que o bloco funciona como um elo com suas próprias raízes. Com família em Fernão Velho, estar no Sururu da Lama é como voltar para casa.

“Estar no bloco me aproxima muito de quem vive às margens da Lagoa Mundaú. Me lembra dos almoços que minha avó, Argentina, fazia: sururu no coco, com farinha, caldinho… são boas lembranças”, recorda, emocionada.

O que torna tudo mais divertido para ela é se “transformar em sururu” por meio da lama. “Encontrar meus outros amigos moluscos, para depois esquecer que sou um sururu só para poder comer o sururu!”, diverte-se.

Mas o envolvimento com o Sururu da Lama não se limita apenas a folia e alcança os bastidores. Iris faz questão de participar do “fazer acontecer” da agremiação, e recorda com carinho o dia em que assumiu a missão de buscar, em seu próprio carro, a argila que seria preparada para o desfile.

“Ali eu me senti ainda mais próxima do bloco”, revela. Essa proximidade se completa na avenida, ao som do grito que ecoa pela orla da Pajuçara e já virou marca registrada dos foliões: “SURURU FRESCO!”.

A mercantilização do Carnaval

O caldinho de sururu da Tia Célia. Foto: Reprodução/Instagram@blocosururudalama

“Ninguém é dono da felicidade”: a frase dita por Jeamerson funciona como um manifesto contra a mercantilização do Carnaval. Na entrevista, ele aponta o atual cenário de asfixia das políticas públicas, que favorece uma lógica de exclusão. “A ideia de ‘economia criativa’ racista só funciona para a concentração de recursos, a exemplo dos 8 milhões enviados para escolas de samba no Rio de Janeiro”, afirma.

Os 8 milhões citados referem-se ao patrocínio feito pelo prefeito da capital alagoana, JHC, à escola de samba Beija-Flor, do Rio de Janeiro, em 2024. Na época, Maceió foi homenageada pela agremiação na avenida da Sapucaí, onde o prefeito e sua esposa estiveram presentes.

Após tantos anos, o Sururu da Lama se consolidou como um território de resistência. Segundo Jeamerson, o bloco representa a possibilidade de enfrentar o preconceito através da valorização das artes de matrizes negras. No entanto, ele ressalta que essa construção plural esbarra na falta de incentivo oficial.

O bloco ao protagonizar elementos da cultura de matrizes negras reafirma de  forma positiva a composição de um carnaval plural  no contraponto a lógica do pensamento do poder público  que insiste na concentração de recursos para asfixiar a diversidade da cultura  do carnaval da cidade”, finaliza

Em Penedo, o Carnaval é da molecada

O bloco inicialmente foi criado para as crianças do bairro. Foto: Arquivo pessoal

Saindo da capital alagoana em direção ao interior, na cidade histórica de Penedo, o bloco Molecada do Bairro Vermelho (BV) – um dos bairros mais antigos da região – completa, neste ano, 19 anos de história. A tradição, que hoje arrasta famílias inteiras, começou com as crianças da comunidade.

Uma das organizadoras, Fabiana Pinheiro, conta que a iniciativa surgiu quando ela e sua mãe perceberam que os pequenos não tinham opções de lazer no Carnaval; a diversão se limitava a correr pelas ruas com um boneco improvisado de lata de leite. “Foi quando eu, minha mãe e uma vizinha resolvemos criar o bloco. No primeiro ano, compramos TNT laranja e, aqui em casa mesmo, confeccionamos os coletes com o nome do grupo”, recorda.

O nome “Molecada” faz referência justamente a esse início. Hoje, os pequenos de antigamente cresceram e levam seus filhos para brincar, o que torna o bloco ainda mais familiar.

Diferente das festas grandes e caras, o foco da Molecada é animar as ruas do próprio bairro. O desfile sai da Rua Santo Antônio e termina na Praça da Alegria, mostrando que o Carnaval de rua vive do carinho entre os vizinhos. Os primeiros bonecos do bloco foram o Cascão e o Cebolinha.

“Nenhum boneco é gigante. São todos pequenos porque eu quero que o bloco continue sendo para crianças e adolescentes. Graças a Deus, todo mundo participa e se diverte”, explica.

Os primeiros bonecos do bloco foram o Cascão e o Cebolinha. Foto: Arquivo pessoal.

Entre as lembranças marcantes desses quase 20 anos, Fabiana destaca a homenagem à ilustre moradora e carnavalesca Dona Dalva, símbolo do bairro. “Dona Dalva foi uma carnavalesca que sempre esteve presente em todos os blocos e batucadas. Ela faleceu em 2021.”

Para a organizadora, o papel desses blocos é fundamental para a engrenagem da festa no interior: “Os blocos de rua são essenciais no Carnaval de Penedo. Somos nós que fazemos a coisa acontecer durante os quatro dias”, pontua Fabiana.

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