Por Luís Laércio Gerônimo
O carnaval brasileiro sempre foi mais do que folia. Foi palco de crítica social, de inversões simbólicas, de denúncias e, muitas vezes, de disputas narrativas. Neste ano, porém, a avenida transformou-se também em abre-alas da disputa política que o país enfrentará em outubro.
A tensão ganhou corpo quando uma agremiação carnavalesca decidiu prestar homenagem ao atual presidente da República e, em seu enredo, incluiu críticas à chamada família conservadora brasileira. O que para alguns foi apenas manifestação artística e posicionamento cultural, para outros soou como provocação direta a valores que consideram inegociáveis.
O resultado foi imediato: a ira de muitos evangélicos e de políticos alinhados à direita, que viram no desfile não apenas samba, mas militância. A arte virou trincheira. A avenida, palanque.
Mas o ponto mais sensível talvez não esteja apenas na homenagem ou nas críticas. Está na tentativa recorrente de trazer Deus para o centro da disputa eleitoral, como se o céu tivesse lado partidário.
No século XVI, durante as guerras de religião na França, o filósofo Jean Bodin defendia que a autoridade do rei procedia de Deus, ideia que ajudou a consolidar o chamado direito divino dos governantes. Séculos depois, “nos trópicos”, a tentação permanece: transformar preferências políticas em desígnios celestiais.
Em 2022, não foram poucos os que afirmaram que “Deus já havia escolhido” determinado candidato — que acabou derrotado nas urnas. O que mudou? Teria o céu alterado sua decisão ou teríamos nós confundido fé com torcida? Quando o resultado das urnas contraria a profecia eleitoral, a pergunta deixa de ser teológica e passa a ser política.
A religião, quando instrumentalizada, deixa de ser transcendência e passa a ser estratégia. O filósofo renascentista italiano, Nicolau Maquiavel, em sua obra O Príncipe, já observava que, para alcançar determinado fim, governantes poderiam lançar mão dos meios necessários — inclusive a dissimulação para parecer virtuosos e religiosos. A aparência de devoção pode ser politicamente mais útil do que a devoção em si (virtù).
O problema não está na fé do político, nem na manifestação cultural de uma escola de samba. O problema começa quando o sagrado é reduzido à ferramenta eleitoral. Quando púlpitos viram palanques. Quando Deus deixa de ser objeto de adoração e passa a ser cabo eleitoral.
Carnaval é festa, é crítica, é exagero. Política é disputa legítima por projetos de poder. Religião é consciência, transcendência, limite moral. Quando essas três dimensões se misturam sem discernimento, o resultado costuma ser ruído — e manipulação.
Em outubro, o eleitor votará. Mas talvez a pergunta mais importante não seja “quem Deus escolheu?”, e sim: estamos escolhendo com responsabilidade, ou apenas sacralizando nossas preferências?
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