Após 27 anos, a Associação EntreArtes insere o Rendendê de Piranhas no mercado da moda

Ao contrário de outros bordados, o Rendendê dispensa rascunhos sobre o tecido. O guia das artesãs é a contagem rigorosa da trama – matemática onde o design nasce do próprio ato de desfiar. Sem auxílio de marcações, o relevo do desenho se mostra à medida que a agulha abre caminhos e reconstrói a estrutura do pano.
Foi esse mesmo movimento de “abrir caminhos” que reuniu 40 artesãs no povoado de Entremontes, em Piranhas, no ano de 2002. O encontro, realizado no “Restaurante de Lurdes”, marcou o fortalecimento do que hoje conhecemos como EntreArtes. Na época, o grupo ainda atendia pelo nome de Associação de Bordadeiras Donas de Casa, tendo como figura central Dona Maria Nogueira.
Reconhecida como uma das precursoras do Redendê na região, ela unia o domínio técnico dos saberes tradicionais a uma forte determinação política e social. Fátima, sua filha, recorda que o maior desejo da mãe era ver o bordado transformado em força coletiva. “O sonho dela era que as mulheres se juntassem para formar um grupo onde todas pudessem tirar o sustento dali. Foi a forma de vender mais e de sermos mais divulgadas; quando o grupo se uniu, tudo tomou forma”, explica.
De mãe para filha
Mas, antes de se tornar uma causa coletiva, o Rendendê foi uma herança doméstica. Dona Fátima recorda que, aos oito anos, no povoado de Bonito, o silêncio da casa partilhada com as irmãs era preenchido pelo aprendizado. Ali, a mãe utilizava pequenos bastidores para ensinar a técnica dos “seis fios”, tratando o bordado não apenas como tradição, mas como um ofício para o futuro.
“Lembrar da primeira vez que eu aprendi a bordar é muito bom, né? Quando aprendi, já comecei fazendo toalhinhas de mão. Naquela época a gente tinha que trabalhar para sobreviver, porque não existia emprego. O emprego que tinha era o bastidor, a agulha e o tecido. Era dali que a gente tirava o sustento da casa, para comprar caderno, roupa… porque minha mãe e meu pai não tinham emprego, né? Trabalhavam na roça”, relembra.

Em um cenário de escassez, onde a pesca e o bordado ditavam o ritmo da economia local,o Rendendê era o caminho para a realização. Para Fátima, a técnica ia além do sustento; representava a conquista da própria autonomia.
“Então, para mim, era a maior alegria quando chegava a época das festas e a gente também podia ter uma roupa, um calçado, sabendo que tinha comprado com aquele trabalho feito com as próprias mãos, né? Para mim é uma lembrança que nunca acaba, entendeu? E também era uma forma de ajudar em casa, porque naquela época era muita dificuldade: era seca, era fome… então era assim, um motivo de continuar trabalhando”, conta.
De linha em linha

De linha em linha, a tradição de Dona Gogó, como era conhecida Maria Nogueira, chegou às mãos de Miguel, filho de Dona Fátima. Ela conta como foi ensinar ao mais novo as técnicas da família.
“O Miguel aprendeu a bordar na época em que fui trabalhar fora e ele ficava mais com a minha mãe. Vendo ela bordar, começou a ter curiosidade e acabou aprendendo sozinho. Até hoje ele faz seus bordados – não só de rendendê, mas de vários outros tipos também”.
Longe dos bastidores oficiais, Miguel iniciou sua trajetória no Rendendê de forma autodidata. Ele aproveitava as sobras de tecidos coloridos, muitas vezes ignoradas pelas artesãs, para testar sua percepção técnica. O desafio não era apenas dominar a agulha, mas compreender a lógica por trás da técnica: “Eu achava que tudo era quadrado, mas sempre dava errado”, recorda.
Devido aos estereótipos locais, o artesão iniciou na arte de forma escondida e silenciosa, observando os movimentos das mestras da família. Essa imersão permitiu que ele desenvolvesse um olhar crítico apurado. Mesmo sem bordar oficialmente, Miguel já sugeria designs e apontava erros na execução das peças.
Formado nas tradições da família, mas também bacharel em Direito, Miguel encontrou sua vocação longe dos tribunais. O caminho até o Rendendê, contudo, foi barrado inicialmente pelo receio de ser o único homem bordadeiro da cidade. Foi o olhar sensível de sua mãe, Dona Fátima, que enxergou o talento do filho acima de qualquer estigma e deu o incentivo necessário para que ele assumisse o bastidor.
“Foi também quando comecei a falar disso mais publicamente, a não ter mais vergonha de assumir que sou um homem que borda. A partir daí passei a olhar para o Rendendê de outro jeito, tentando reinventar um pouco a técnica, saindo um pouco do geométrico, brincando mais com as cores, pensando em outras formas de aplicar. Trouxe mais para o vestuário, para peças decorativas”.

EntreArtes semifinalista em premiação nacional
Hoje, da mesma forma que o Rio São Francisco abriu as portas do sertão para o mundo através do turismo, a EntreArtes projetou o Rendendê para além das divisas alagoanas e alcançou o epicentro da moda nacional: a São Paulo Fashion Week. Esse reconhecimento se consolidou em 2025, com a indicação ao FFW Brasil Awards na categoria “Projeto Artesanal”, reafirmando que a tradição das bordadeiras de Piranhas agora dita tendências nas passarelas do país.
Para Miguel, esse reconhecimento é fruto do trabalho das mulheres que começaram a EntreArtes há 27 anos atrás.
“É um sentimento de muito orgulho ver o trabalho da minha avó, que foi uma das precursoras, chegar a esse nível. Depois começa a passar um filme na cabeça, e você percebe que está entre os dez indicados em um país tão rico culturalmente como o Brasil, ao lado de pessoas que fazem trabalhos incríveis e que há muito tempo levam a moda para outros países. E aí você entende que não é só o nosso trabalho. É o trabalho de várias mulheres. O mérito é delas. É uma conquista para toda a comunidade, mas as verdadeiras protagonistas são elas, que estão aqui há muito mais tempo, bordando”.
Mas o trabalho não para por aí. Um dos próximos passos é garantir que o bordado alcance as novas gerações. Entre as diversas iniciativas desenvolvidas, a EntreArtes também promove oficinas ao longo do ano, voltadas tanto para crianças quanto para adultos. A proposta é transmitir a técnica e assegurar que essa tradição continue viva, sem cair no esquecimento.
“As crianças e adolescentes também aprendem desde cedo. Os ateliês dão espaço para que as peças que elas produzem sejam expostas e vendidas. Assim, elas já começam a ter contato com esse universo do empreendedorismo e percebem que é possível gerar renda a partir do bordado. E também fortalecer essas mulheres e, quem sabe, futuros homens que queiram bordar. É manter vivo, é resistir”, explica Miguel.
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