Com raízes na comunicação popular e formação em Design, Brenda Viana discute como sua produção visual documenta a cultura de Alagoas através do movimento, das cores e da memória coletiva.

“Quem viu, viu. E quem não viu, não vê mais”. A frase do Mestre Fernando Rodrigues sintetiza a perspectiva de vida que Brenda Viana traduz em suas imagens. A fotógrafa, nascida e criada em Maceió, registra o que lhe causa sinestesia, buscando nas cores vibrantes e nas pessoas um “respiro” para o instante capturado.
Brenda iniciou sua formação artística na música e na dança, práticas atualmente em hiato. A fotografia, no entanto, chegou como um ato político. Foi na comunicação popular do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), registrando as feiras de reforma agrária, que ela descobriu o poder da imagem como ferramenta de narrativa e transformação.
Hoje, Brenda está na fase final da graduação em Design pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Sua prática profissional inclui passagens pela Galeria/Museu Coleção Karandash de Arte Popular e Contemporânea, onde trabalhou com direção de arte, design e produção audiovisual, além da elaboração e gestão de projetos culturais.
Através do que chama de “tecido do sonho”, Brenda detalha sua trajetória na fotografia:

R.A: Brenda, nós gostaríamos que você contasse um pouco da sua história. Quem é Brenda Viana e de onde vem?
Brenda Viana: Sou designer e fotógrafa alagoana, nasci e cresci em Maceió. Meu trabalho nasce das minhas vivências e da forma como observo o cotidiano e as relações. Essas experiências influenciam diretamente a maneira como construo imagens. Atualmente estou finalizando a graduação em Design na UFAL onde também sou pesquisadora de cultura visual e memória. Sempre fui uma criança imaginativa, curiosa, nostálgica, encantada pela arte. Meu primeiro contato com esse universo foi através da música e da dança (sou uma bailarina em hiato), a fotografia veio logo em seguida. A partir do momento que a arte entrou na minha vida, ela se instaurou aqui com pés bem firmes, não teve pra onde correr. Sinto que meu olhar e meu jeito de viver me acompanha desde da infância, um jeitinho diferente de ver o mundo, como se enxergasse tudo através de um tecido de sonho, essa essência está aqui até hoje. Acho que sou a que observa a vida atenta e não contente em apenas observar, levanta para dançar junto a ela, uma deliciosa coreografia improvisada cheia de emoção.
R.A: Como a fotografia entrou na sua vida? Você lembra de um momento ou experiência específica em que ela começou a fazer sentido para você?
Brenda Viana: Mesmo sem propriamente apertar no botão da câmera para capturar uma imagem eu já estava fotografando mentalmente. Mas foi no meio da adolescência que eu soube que a fotografia faria um papel importante na minha vida. E foi nesse momento que também entendi que pra mim ela é política, poética, e sinônimo de memória e permanência. Nessa época participei da comunicação popular do Movimento Sem Terra e foi entre as feiras da reforma agrária e atos políticos que tudo começou. Começou no movimento.
R.A: Sua atuação em projetos culturais e, especialmente, na Galeria/Museu Coleção Karandash, te colocou em contato direto com diferentes produções artísticas. Teve algum encontro, obra ou artista que marcou a forma como você passou a olhar ou fotografar? De que maneira isso apareceu no seu trabalho?
Brenda Viana: A Coleção Karandash teve um papel muito importante no meu trabalho, foi onde me apaixonei de fato pela cultura alagoana. Conheci e reconheci o sertão alagoano através deles e fui instrutora de oficinas de fotografia para jovens ribeirinhos em várias edições do Ponto de Cultura do Museu. Foram diversas viagens, idas e vindas, onde me vi deslumbrada pelas pessoas e possibilidades daqueles lugares. Tiveram vários encontros que me marcaram, acredito que a primeira oficina de fotografia no povoado Jacarezinho (2018) e a oficina em Mato da Onça (2022) me proporcionaram encontros que carrego para sempre comigo. Além disso, foram muitas perambulações desde o quintal de Dona Roxinha (Lagoa de Pedra), com seus dizeres de novela até o quintal da Família Antônio de Dedé (Lagoa da Canoa) onde conheci o legado do Mestre que os filhos deram continuidade (foram muitos mundos diferentes que conheci no quintal de cada artista rs). O encontro com os queridos irmãos artistas Clemilton e Amilton (Mato da Onça) que retratam o cotidiano com tanta singeleza e cuidado. Conheci de perto o legado e as histórias do Mestre Fernando Rodrigues que enxergava esculturas em árvores, inclusive, tem um poema dele que gosto muito, ele diz:
“Quem viu, viu. E quem não viu, não vê mais.” Te garanto que ter visto e conhecido tudo isso definitivamente foi uma experiência inesquecível. Isso trouxe um aspecto novo para o meu repertório, a poética da memória, de histórias que precisam ser contadas e conhecidas. A poética que só Alagoas tem, o nosso olhar, a nossa vida, a nossa cultura. As cores, o tempo e as pessoas daqui influenciam o meu trabalho.
R.A: Na série “Mercado de Cores”, você destaca que as cores e as pessoas te atraem, e fala sobre o interesse em imagens vivas, que “respiram”. A partir disso, como você constrói uma fotografia: o que te chama primeiro, o que te inspira no momento do clique e o que faz você entender que aquela imagem chegou ao resultado que você buscava?

Brenda Viana: O movimento me chama primeiro, uma ação, uma interação, uma relação, a corporeidade sendo posta pra jogo. Me agrada que minhas fotografias tenham pessoas, tenham gente. Em segundo, o uso da cor, vermelho, azul, amarelo e verde são as cores que mais me chamam a atenção e geralmente estão nos ambientes onde circulo, elas fazem parte do cotidiano popular… A feira, o rio, as fachadas. No meu olhar a fotografia já se fez, mas para que eu sinta que o clique chegou onde queria, é preciso de uma dose de sinestesia, cores se misturam com sentimentos que se misturam com cheiros e assim vai… É quando consigo retratar a vida.
R.A: Nas fotografias realizadas nos povoados ribeirinhos de Jacarezinho e Ilha do Ferro, você descreve a água como memória. Como foi a sua vivência nesses lugares e de que forma esse contato com o rio e com as pessoas influenciou o que você escolheu fotografar?
Brenda Viana: Eu, de maneira particular, tenho a água como conexão, como guia, como retorno para mim. Cresci nessa cidade litorânea, onde um banho de mar é sinônimo de renovação. Quando conheci os povoados banhados pelo Velho Chico, em contraponto com minha cidade de origem que é cheia de intervenções antrópicas, nesses povoados há quase que um sincretismo das pessoas com o percurso do rio. A gente é que se adapta, a gente é que flui conforme as águas, no tempo dela. Costumo dizer que a Ilha tem um tempo próprio “O tempo da Ilha” onde tudo corre mais devagar e só nos resta respeitar e viver esse tempo. Escolhi fotografar essas interações com o Rio São Francisco como forma de mostrar essa conexão ribeirinha, mostrar novas possibilidades de viver. Aquelas vivências estão atreladas ao rio e ele carrega as suas memórias. A natureza também é memória.

R.A: Ao olhar para o conjunto do seu trabalho, você identifica padrões, recorrências ou uma identidade visual que foi se formando ao longo do tempo?
Brenda Viana: Meu trabalho sempre tem gente. Acho que as pessoas são o que fazem eles terem minha identidade. Também gosto de explorar a fotografia preto e branco e destacar o assunto sem a distração da cor, mas na maioria das vezes me pego trazendo as cores como parte de sua linguagem também. Acredito que o meu trabalho sempre foi marcado pelas pessoas que cruzam o meu caminho.
R.A: Ao longo da sua experiência como fotógrafa, quais histórias e vivências mais marcaram você? Existe alguma imagem que tenha ficado guardada na sua memória de forma especial? Poderia descrever essa foto e nos contar a história por trás dela?
Brenda Viana: Definitivamente os encontros. Uma imagem sempre carrega uma interação por trás, seja com o espaço e a pessoa fotografada ou internamente, um diálogo interno comigo mesma.
Sim. Essa é uma imagem que ficou na minha memória e que sempre relembro com carinho. Um menino olhando para a natureza como se fosse uma janela. Criei uma narrativa intitulada “A procura”. Nesse momento a criança estava procurando uma bola perdida que voou para longe e já estava tão longe que nem mais a bola ela procurava, já procurava outra coisa, já estava em outro momento, em outra procura.
Passamos nossa vida inteira procurando, mas num piscar de olhos perdemos tudo o que procuramos e encontramos tudo o que nunca iríamos imaginar… Coisas que a gente nem imaginava que gostaríamos de encontrar. Igual ao menino que já procurava outra coisa.

R.A: Como você imagina os próximos passos do seu trabalho na fotografia? Já tem algo em mente?
Brenda Viana: Estou com vontade de explorar minhas fotografias a partir de intervenções visuais. Já visualizo mentalmente algumas imagens que poderiam receber escrituras, poemas e desenhos, como se a fotografia se abrisse para outras camadas narrativas. Penso nessas intervenções como uma continuidade do que já faço, uma forma de ampliar a memória e as sensações presentes nas imagens. Seria interessante incluir esse aspecto no que fotografo, construindo novas leituras.