Alagoas marcou presença na competição de longas brasileiros do Festival Internacional de Curitiba com “Olhe Para Mim”, novo filme de ficção de Rafhael Barbosa. A produção realizou sua estreia diante do público do festival e apresenta uma história construída a partir de crenças populares associadas ao Rio São Francisco.
Conhecido pelo documentário Cavalo (2021), Barbosa estreia na direção de longas de ficção. Estrelado por Rejane Faria (Marte Um), Luciano Pedro Jr. (Cangaço Novo) e o estreante Ulisses Arthur, o longa acompanha Marcelo, um jovem que convive com o desaparecimento da mãe ocorrido dez anos antes durante uma festa religiosa em sua cidade. Às vésperas de uma nova celebração, ele conhece Sandra e Ivan, dois viajantes que o conduzem por uma série de encontros e acontecimentos que atravessam memória, espiritualidade e imaginário popular.
História sobre ausência materna
Segundo Rafhael Barbosa, a ausência materna é o eixo central da narrativa. O diretor explica que Marcelo cresce sem compreender o desaparecimento da mãe e passa a preencher esse vazio por meio das próprias lembranças e interpretações dos acontecimentos.
“Marcelo cresce sem compreender os motivos do desaparecimento da própria mãe e passa a preencher esse vazio com lembranças inventadas e invenções mágicas da realidade”, afirma o diretor.
Essa busca conta com personagens inspirados em referências culturais presentes no interior de Alagoas e em tradições ancestrais que constroem o universo do filme.
Uma das figuras presentes na narrativa é a rasga-mortalha, ave associada a diferentes crenças populares no Brasil. Barbosa conta que buscou referências nas culturas de matriz africana para desenvolver a personagem.
“A rasga-mortalha é uma entidade que existe em várias culturas e ela tem diversos significados. Para as culturas ancestrais de matriz africana, ela é representada como um orixá, Yami Oxorongá, que representa a grande mãe, a mãe primordial, e tem um simbolismo muito forte. Então eu quis beber dessa referência para trazer esse simbolismo da mãe e ampliá-lo para o filme”, explica.
De acordo com o diretor, a ideia da maternidade atravessa toda a obra e aparece de formas distintas ao longo da narrativa, por meio de diferentes personagens femininas.
Mitos populares
Além de dialogar com tradições do Baixo São Francisco, Olhe Para Mim também se aproxima do cinema de gênero. Rafhael Barbosa afirma que desejava levar para a tela histórias que ouviu durante a infância, evitando reproduzir representações estereotipadas.
“Eu quis muito representar alguns desses mitos que são muito importantes para a gente, para o nosso imaginário, mas também quis tratá-los sem estereótipos. Eles são ressignificados no filme, inseridos num contexto até pop, que dialoga com o cinema de gênero que a gente tanto ama”, diz.
O diretor relata que cresceu assistindo a produções de terror, fantasia e monstros e procurou estabelecer uma relação entre essas referências e o repertório cultural nordestino.
“Eu cresci vendo esses filmes e quis relacionar o nosso imaginário a esse universo sem descaracterizá-lo, mas também ressignificando-o”, afirma.
A proposta resulta em um filme que articula elementos do folclore regional com referências contemporâneas do cinema, aproximando narrativas locais de uma linguagem reconhecida por públicos diversos.
Alagoas que ainda não foi vista pelo cinema
As paisagens alagoanas têm papel importante na construção visual da obra. Cerca de 70% das filmagens ocorreram em Penedo, cidade histórica localizada às margens do Rio São Francisco e integrante da Rede de Cidades Criativas da UNESCO na categoria Cinema.
Além de Penedo, a produção passou por Belo Monte, Pão de Açúcar e Maceió. Segundo Rafhael Barbosa, o projeto também surgiu do desejo de apresentar uma geografia pouco explorada pelo audiovisual brasileiro.
O diretor afirma que buscou transformar em imagens os relatos, histórias e lendas que ouviu ao longo da vida, percorrendo cenários ligados à memória e à ancestralidade da região. A intenção, segundo ele, era revelar “uma Alagoas que ainda não foi vista pelo cinema brasileiro”.
Embora trate de temas como perda, identidade e ancestralidade, Olhe Para Mim também incorpora elementos ligados ao universo dos sonhos. Para Rafhael Barbosa, essa é uma camada essencial da narrativa.
“Eu acho que todas essas camadas são bem importantes no filme, e tem uma outra camada que é muito importante, que é a camada dos sonhos. Eu abordo os sonhos como um elemento fundamental para a narrativa. É um filme muito onírico, é um convite para embarcar num sonho”
A estreia
A apresentação no Festival Olhar de Cinema marcou a primeira exibição pública do longa e reuniu uma delegação numerosa de profissionais alagoanos.
“A estreia no Olhar de Cinema foi muito especial. O filme tem sido muito bem recebido, tanto o filme como a nossa equipe”, afirma o diretor.
Segundo ele, a presença da equipe chamou atenção durante o festival.
“A gente viajou com 23 pessoas e se apresentou com mais de 30 pessoas. Isso foi um momento muito marcante do festival, o que mostrou a nossa força, a força do cinema alagoano”
Barbosa também destaca a repercussão entre espectadores e críticos.
“As críticas têm sido muito positivas, muito calorosas. Tem sido uma repercussão forte nas redes sociais, no Letterboxd. Então eu estou bastante feliz com essa estreia”
Após a première em Curitiba, Olhe Para Mim inicia sua trajetória nos festivais brasileiros levando para as telas referências culturais, personagens e paisagens ligadas ao Velho Chico e ao interior de Alagoas.