Autoras refletem sobre a presença das mulheres no mercado editorial de Maceió e Arapiraca

Às vésperas do Dia Nacional do Escritor, celebrado em 25 de julho, reportagem reúne relatos de autoras de Maceió e Arapiraca sobre os desafios para publicar, circular e conquistar espaço no mercado editorial

 

Por Malu Damasio

Em uma livraria, ao segurar um livro, você já percebeu os caminhos que aquele livro percorreu para chegar em suas mãos? Best-sellers, discussões nas redes sociais, trechos viralizados, capas que marcam a memória e prêmios literários. As mulheres fazem pulsar a literatura. Porém, hoje, no Dia Nacional do Escritor – ou como propõe esta reportagem, Dia da Escritora – sucesso e reconhecimento não são palavras que predominam entre as mulheres que escrevem em Alagoas.  

O mercado literário é feroz, e durante anos as mulheres tiveram que respirar em um ritmo diferente para sobreviver. Segundo pesquisa da Universidade de Brasília (UNB), 72,7% dos escritores do Brasil são homens e somente 27% são mulheres. Esse cenário não surgiu por acaso. Ele está enraizado em séculos de desigualdade no acesso à educação, à produção intelectual e aos espaços públicos. Enquanto aos homens era amplamente permitido estudar, circular em ambientes de formação e publicar suas ideias, às mulheres foi historicamente reservado o espaço doméstico.

Ainda assim, num universo tradicionalmente dominado pelos homens, a presença feminina na literatura foi sendo cravada com sangue, suor e luta. Em meio à vastidão de sentimentos que vão desde revolta à incompreensão, as escritoras entrevistadas explicam como é a luta constante no escalar para conseguir produzir, imprimir e fazer seu livro chegar ao público leitor.

A promessa do sucesso

Dentre os relatos das escritoras entrevistadas, um dos mais recorrentes foi o das experiências com editoras predatórias. Laura Letícia, de 22 anos, que assina seus livros sob o nome de Artcjoon, além de ser autora de romances e integrante da comunidade LGBTQIAP+, descreve que o sentimento de estar sempre “pisando em ovos” ao fechar contratos é comum no mercado independente.

Ao relembrar sua primeira experiência com uma editora (de São Paulo), ela conta que precisou financiar a publicação, não recebeu divulgação adequada e viu a empresa lucrar às custas do trabalho de seu trabalho.

Além das barreiras econômicas, como a dificuldade de financiar a publicação de um livro, essa falta de confiança funciona como um obstáculo estrutural para escritoras sem recursos. Então, Laura distingue o mercado nacional do alagoano: no cenário nacional, afirma não ter percebido discriminação de gênero; já no mercado local, a percepção foi diferente. Segundo ela, “o que a gente tem a dizer é muito menos levado em consideração do que o que os homens têm a falar”.

Foto: Arquivo pessoal /Rochelli Messias de Assis

Uma das alternativas encontradas é a autopublicação. Além de Laura, a escritora maceioense de literatura infantil Rochelli Messias de Assis, de 44 anos, relata sua frustração com editais e o caminho que a levou a publicar de forma independente: financiando todo o processo, produzindo ilustrações no Canva e contratando serviços de revisão e diagramação por conta própria, um percurso que evidencia o esforço necessário para que escritoras sem recursos consigam existir no mercado editorial.

“Eu não fiz o livro para dizer que eu fiz um livro. Eu fiz porque eu sempre quis publicar uma obra que eu tinha”, afirma a escritora, ressaltando que a publicação surgiu mais de uma necessidade do que de uma possibilidade.

Após o lançamento do livro Crianças Brilhantes na Biblioteca Graciliano Ramos, Rochelli relata que o espaço acolheu o evento e, segundo ela, “abriu as portas para os artistas alagoanos de forma gratuita”.

O relato reforça o papel das bibliotecas não apenas como espaços de preservação do acervo literário, mas também como agentes ativos de circulação cultural e incentivo à produção artística local. A coordenadora e supervisora da biblioteca pública, Mira Dantas, explica que ainda não há um levantamento quantitativo do acervo, mas observa crescimento na produção local impulsionado por políticas públicas de incentivo, como a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), por meio dos editais voltados à literatura.

Mira também destaca que a política de doações contribui para ampliar o acesso, mas, por depender de doações, não garante que o acervo seja sempre inclusivo. Além disso, especialmente no mês de março, a biblioteca realiza ações voltadas às escritoras alagoanas, com iniciativas de promoção da literatura produzida por mulheres, como o prêmio Mulheres que Escrevem Alagoas. 

Arapiraca e o fortalecimento da literatura

A Casa da Cultura, em Arapiraca, é um espaço destinado a proporcionar aos cidadãos arapiraquenses acesso a diferentes recursos de informação, como livros, música, arte, pinturas e demais manifestações culturais produzidas por artistas da região. Vinculada à Secretaria Municipal de Cultura, Lazer e Juventude, a instituição deverá se tornar, oficialmente, Centro de Apoio às Escolas de Tempo Integral (Caeti),  uma mudança que representa um avanço não apenas para a literatura, mas para diferentes eixos da cultura arapiraquense.

Quem explica esse processo é Marta Eugênia, escritora e professora. Nascida na Bahia, mudou-se para Arapiraca aos seis anos de idade e atualmente atua na Casa da Cultura, vinculada à rede municipal de educação.

Segundo Marta, em Arapiraca educação e cultura caminham juntas. Ela observa um crescimento nas oportunidades para mulheres escritoras, oportunidades que quando começou sua carreira eram mais restritas, e avalia que a literatura no município vem se fortalecendo com o aumento de chamamentos públicos voltados ao setor.

Entre os principais incentivos ao fortalecimento da literatura e da produção cultural estão políticas públicas federais, como a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e a Lei Paulo Gustavo, voltada ao setor audiovisual. Para Marta, esses mecanismos ampliaram as oportunidades para mulheres escritoras e impulsionaram diferentes formas de produção artística. “São mulheres escrevendo roteiros, filmando, escrevendo livros e publicando em vários gêneros: poesia, prosa e textos formais”, destaca.

Em Alagoas, esse movimento se reflete tanto em políticas nacionais,  como a PNAB e o Edital nº 26/2025 Cordelista Mariquinha das Alagoas, quanto em iniciativas privadas de valorização da produção literária, como o Prêmio Sesc de Literatura.

“Fomos construídas dentro dessa entidade patriarcado e, dentro dessa ‘construção-mulher’, as restrições eram muito mais consistentes. E ainda persistem. Aos poucos, no tempo, as mulheres se movimentam em busca de direitos políticos, sociais e culturais. E ainda há muito pelo que lutar”, finaliza a escritora.

Ainda em Arapiraca, outro exemplo de quem decidiu fazer por conta própria diante das dificuldades do mercado editorial é a Editora Performance, fundada há cinco anos. Criada por Carla Emanuele, a editora surgiu com uma proposta que também dialoga com o protagonismo feminino: toda a equipe é formada por mulheres, desde a gestão até áreas como diagramação, design e produção editorial.

Segundo Carla, antes da criação da Performance não havia editora em Arapiraca. Para publicar seus primeiros livros, há cerca de oito anos, a escritora precisou recorrer a editoras de fora de Alagoas, já que os custos para publicação eram altos, inclusive em Maceió.

A experiência fez com que ela buscasse entender todo o funcionamento do mercado editorial e aprender cada etapa do processo de publicação. A partir disso, fundou a própria editora com o objetivo de reduzir barreiras e tornar a publicação mais acessível. Hoje, segundo Carla, é possível publicar livros pela Performance com investimentos a partir de cerca de 700 reais.

Lua Negra Cartonera, quando a autopublicação é ato político 

Ana Karina Luna fundou sua própria editora-pessoa após se declarar “furiosa com a falta de inclusão e variedade no mercado editorial”. Desde o início de sua trajetória, enfrentou dificuldades para se orientar em um meio marcado por uma estrutura complexa e excludente. Ela aponta que, além das barreiras técnicas do setor, trata-se de um ambiente muitas vezes desumanizado, mesmo lidando com atividades ligadas à sensibilidade da escrita e da leitura.

As frustrações em bancas de concursos e editais no início da carreira foram determinantes nesse percurso, levando à criação da editora como forma de viabilizar a publicação de seus próprios livros. A atuação como editora não estava no projeto inicial. Karina conta que seu amor sempre foi pela escrita e literatura, mas a necessidade de inserção no mercado levou à expansão desse papel. Nesse processo, assim como outras escritoras citadas ao longo desta reportagem, ocorre uma ressignificação da produção literária, que passa a incluir também a mediação editorial, o que revela menos uma escolha do que uma resposta a um mercado que não abre espaço por conta própria.

Essa resposta encontrou forma no movimento cartonero. A Editora Lua Negra incorpora essa prática surgida na Argentina em 2001, que consiste na produção de livros com capas de papelão reciclado, feitos de forma artesanal e colaborativa, como alternativa aos circuitos editoriais convencionais. Em todos os processos de criação, a coleta do papelão, a confecção, a costura, o trabalho é elaborado coletivamente por mulheres. Por isso, Ana Karina é direta: “O cartonero é sim uma resposta feminista ao modelo tradicional.”

Foto: Arquivo pessoal / Ana Karina Luna

Quando questionada sobre caminhos para ampliar a inserção de mulheres no mercado editorial, a resposta é igualmente direta: “acabar com o patriarcado”. O problema é, no entanto, visto como mais profundo e estrutural, com impactos que permanecem ao longo do tempo. Na avaliação dela, medidas externas como editais, prêmios e programas de incentivo têm relevância, mas não são suficientes para enfrentar estruturas mais profundas, sustentadas por práticas e pensamentos machistas e misóginos ainda presentes no setor.

A fala de Ana Karina ecoa o que outras vozes já haviam dito com outras palavras, a escritora que bancou o próprio livro, a que esperou anos por um edital sem retorno, a que aprendeu sozinha os trâmites de uma publicação porque ninguém ensina isso a quem está de fora. As situações parecem mudar, mas o problema permanece o mesmo.

Um olhar ácido para o mercado literário e suas relações intrínsecas com gênero e classe. Histórias em comum que não são por acaso: são estrutura, são padrão. O que une todas essas mulheres não é talento, esse, sobra. É a pergunta que ainda não tem resposta: até quando escrever vai ser um ato de resistência antes de ser um ato de criação.

Confira abaixo uma lista de livros incríveis escritos por mulheres alagoanas:

Sobre seus cachinhos e nossa banda de rock

 Autora: Artcjoon

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Crianças brilhantes

Autora: Rochelli Messias de Assis

Adquira em contato diretamente com a autora 

 

 

 

 

 

Mario & Rosina (edição cartonera)

Autora: Ana Karina Luna

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A criação da não-mãe

Autora: Ana Karina Luna

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À cata de berduegas

Autora: Marta Eugênia

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