Autora do livro Folguedos da Nossa Terra explica o método de apuração em campo e os critérios para documentar manifestações culturais no interior do estado

Tatiane Almeida é jornalista, fotógrafa e pesquisadora da cultura popular alagoana. Seu trabalho reúne registros de manifestações culturais realizados em diferentes municípios do estado, com atenção aos grupos, aos brincantes e aos contextos em que essas tradições acontecem. Em 2025, apresentou sua primeira exposição fotográfica, “Pega de Boi no Mato”. A pesquisa ganhou continuidade em “Folguedos da Nossa Terra – Retratos da Cultura Popular Alagoana”, livro que reúne fotografias de diferentes folguedos alagoanos.
Para Tatiane, a formação em jornalismo também influencia a maneira como ela fotografa. O contato com os grupos envolve pesquisa, observação e convivência durante os registros. Nesta entrevista, ela fala sobre a relação com a fotografia, o trabalho de documentação da cultura popular e as experiências que deram origem ao livro. Confira:
R.A: Quando e como a fotografia entrou na sua vida?
Tatiane Almeida: A fotografia entrou na minha vida de uma forma muito natural. Sempre gostei de observar as pessoas, os lugares e as histórias que existem ao nosso redor. Quando comecei a trabalhar com comunicação e jornalismo, percebi que muitas vezes uma imagem conseguia dizer aquilo que eu não conseguiria explicar apenas com palavras. Aos poucos, fotografar deixou de ser só parte do meu trabalho e se tornou uma forma muito pessoal de enxergar e guardar o mundo.
R.A: Sendo jornalista e fotógrafa, você transita muito bem entre a informação e a estética. Pensando agora no processo de criação do Folguedos da Nossa Terra, de que forma a sua bagagem como repórter te ajudou a amarrar a narrativa visual que vemos nas páginas do livro?

Tatiane Almeida: Acho que o jornalismo me ensinou, principalmente, a olhar para além da imagem bonita. Antes de fotografar, existe uma história, uma pessoa, uma tradição e toda uma vida por trás daquilo. No livro, eu não queria apenas reunir fotografias dos folguedos. Queria que quem folheasse as páginas conseguisse sentir um pouco de Alagoas, entender a diversidade que existe na nossa cultura e perceber que aquelas manifestações são feitas por pessoas reais, que mantêm tudo isso vivo.
R.A: Você acredita que o jornalismo alagoano consegue representar a diversidade cultural do estado ou ainda existe uma concentração em determinadas manifestações, territórios e personagens?
Tatiane Almeida: Acho que ainda temos muito o que mostrar. Alagoas é muito maior do que aquilo que normalmente aparece. Temos manifestações culturais em todos os cantos do estado, mestres, brincantes e grupos que muitas vezes passam a vida inteira mantendo uma tradição e ainda são pouco conhecidos. Sinto que o jornalismo pode olhar mais para o interior, para as pessoas e para as histórias que nem sempre chegam aos grandes espaços. Foi também por sentir essa necessidade que comecei a viajar e registrar tantos lugares.
R.A: Por que a Pega de Boi no Mato despertou seu interesse a ponto de se tornar tema da sua primeira exposição fotográfica? O que você encontrou nessa manifestação?
Tatiane Almeida: A Pega de Boi no Mato me chamou atenção justamente pela força que existe nela. É uma manifestação intensa, cheia de elementos visuais, mas também de histórias e tradições. Quando comecei a fotografar, percebi que havia muito mais ali do que aquilo que as pessoas enxergam de primeira. Encontrei pessoas que vivem aquilo com verdade, uma relação muito forte com o território e uma tradição que faz parte da identidade de muita gente. Acho que foi isso que me fez querer transformar esse registro na minha primeira exposição.
R.A: Ao documentar a pluralidade dos nossos folguedos, você lida com cores vibrantes e muita ancestralidade. O que a fotografia captura de mais fiel dessas tradições, e o que você sentiu que só estando na roda, ouvindo e sentindo o momento, para realmente compreender?
Tatiane Almeida: A fotografia consegue guardar o gesto, a cor, o olhar, a emoção de um momento. Ela consegue fazer com que uma imagem continue existindo mesmo depois que a música acaba e a roda se desfaz. Mas tem coisas que nenhuma fotografia consegue explicar completamente. O som do tambor, a energia das pessoas, a emoção de quem está dançando, o cheiro, o calor, tudo aquilo que se sente estando ali. Eu aprendi que, para fotografar essas manifestações, eu precisava primeiro viver um pouco delas, ouvir e respeitar quem mantém aquela tradição viva.
R.A: A gente sabe que, no jornalismo e na fotografia, por trás de uma imagem forte, quase sempre existe um grande bastidor. Entre todas as fotos do livro Folguedos da Nossa Terra, tem alguma que seja a sua preferida não apenas pela estética, mas também pela história por trás do momento em que foi registrada? Pode nos contar sobre ela?
Tatiane Almeida: Essa é uma pergunta difícil porque cada fotografia do livro carrega uma história e uma lembrança. Mas tenho um carinho especial por imagens em que consigo perceber a emoção das pessoas. Muitas vezes, a foto mais importante para mim não é necessariamente a mais bonita tecnicamente, mas aquela que me faz lembrar exatamente de onde eu estava, do que ouvi e de como me senti naquele momento. São imagens que, quando olho novamente, me fazem voltar para aquele lugar.

R.A: Como pesquisadora que está na linha de frente documentando essas tradições, como você enxerga o interesse das novas gerações de alagoanos em manter vivas as manifestações da nossa cultura popular?
Tatiane Almeida: Eu vejo muitos desafios, porque vivemos em um tempo em que os jovens recebem informações e referências de todos os lados. Mas também vejo esperança. Existem muitos jovens aprendendo com os mestres, participando dos grupos e encontrando novas formas de mostrar essas tradições. Acho que o mais importante é fazer com que eles se sintam parte disso. A cultura não pode ser apresentada como algo antigo ou distante. Ela está viva e continua se transformando.

R.A: Tatiane, A fotografia pode ser um documento importante para preservar memórias e registros ao longo do tempo. Se daqui a 50 anos um jovem alagoano folhear o Folguedos da Nossa Terra em um acervo, o que você espera que as suas imagens sussurrem para ele sobre quem nós fomos, o que valorizamos e sobre a força da nossa cultura?
Tatiane Almeida: Espero que ele consiga sentir orgulho. Que perceba que existiu uma geração que amou e tentou cuidar dessas tradições. Que entenda que a nossa cultura sempre foi feita por pessoas, por histórias, por resistência e por muita força. E espero, principalmente, que as imagens mostrem que Alagoas sempre teve uma riqueza cultural enorme e que isso nunca deveria ser esquecido. Se daqui a 50 anos alguém olhar esse livro e sentir vontade de conhecer, valorizar e continuar essa história, vou sentir que tudo valeu a pena.
