Defesa de mestrado ocupa terreiro e reafirma ancestralidade como lugar de saber

Pesquisa sobre o “pedido de perdão” às religiões de matriz africana será apresentada no Axé Pratagy, com participação aberta ao público e visita guiada ao museu

A produção acadêmica ganha novos contornos em Alagoas ao reconhecer que o conhecimento também se constrói nas comunidades tradicionais. Na próxima segunda-feira (30), a partir das 16h, o mestrando Amaurício de Jesus, do Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura da Universidade Federal de Alagoas, realiza sua defesa em um espaço carregado de significado e força, o Axé Pratagy.

Com o título “Entre o dito e o silenciado: o funcionamento discursivo do ‘pedido de perdão’ em Alagoas”, o trabalho aborda o discurso oficial do Estado ao reconhecer violências históricas contra religiões afro-brasileiras. O estudo parte do episódio conhecido como Quebra de Xangô de 1912, marco de perseguição e repressão às práticas religiosas de matriz africana em Alagoas, para analisar como esse passado é mobilizado no presente por meio da linguagem institucional.

De forma inédita e aberta ao público, a defesa amplia o acesso ao ambiente acadêmico e convida a comunidade a participar desse momento simbólico. A programação também inclui uma visita guiada ao Museu a Céu Aberto Axé Pratagy, proporcionando aos presentes uma imersão na história, nos símbolos e na memória preservada pelo terreiro.

A pesquisa aponta que o chamado “pedido de perdão”, realizado em 2012, carrega uma dupla dimensão, ao mesmo tempo em que simboliza um reconhecimento histórico, também evidencia disputas de sentido, silenciamentos e limites do discurso oficial diante de uma memória marcada por violência e apagamentos.

A escolha do local rompe com a lógica tradicional das salas acadêmicas e reposiciona o terreiro como um ambiente legítimo de produção e circulação de saberes. Mais do que cenário, o espaço se torna parte da própria narrativa da pesquisa, que dialoga diretamente com a história, a memória e as experiências das comunidades de terreiro em Alagoas.

A realização da defesa no Axé Pratagy amplia o sentido do ato acadêmico. O espaço, reconhecido por sua importância cultural e espiritual em Maceió, se transforma em ponte entre diferentes formas de conhecimento, aquelas legitimadas pela academia e aquelas preservadas pela oralidade, pela vivência e pela ancestralidade.

A trajetória de Amaurício de Jesus atravessa exatamente esses territórios. Professor de Educação Artística, produtor cultural, ogã de Oxóssi e diretor do Afoxé Odô Iyá, ele construiu sua atuação na interseção entre arte, religiosidade e resistência cultural em Alagoas. Sua vivência não apenas inspira o objeto de pesquisa, mas também fundamenta a escolha do espaço onde ela será apresentada.

“Estar no Axé Pratagy defendendo esse trabalho dentro do terreiro, é um gesto de coerência com tudo que eu acredito. Não dá para falar sobre essas histórias sem estar em diálogo com quem as carrega no corpo e na memória”, afirma o mestrando.

O encontro entre universidade e terreiro não apenas fortalece o reconhecimento das comunidades tradicionais, como também aponta para um movimento mais amplo de transformação dentro da própria produção científica. Sendo um ato de presença, memória e continuidade, sustentado pela força do axé e pela permanência de saberes que resistem ao tempo.

Serviço
O quê: Defesa de mestrado “Entre o dito e o silenciado: o funcionamento discursivo do ‘pedido de perdão’ em Alagoas”

Quando: 30 de março, às 16h

Onde: Axé Pratagy – Rua Doutor Arthur Cláudio Santos Neto, 352, Riacho Doce

Acesso: Aberto ao público

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