Com uma década de atuação na fotografia, a estudante de Jornalismo desenvolve projetos voltados à valorização da identidade e a preservação da memória no sertão alagoano

“Eu sempre quis mostrar meu sertão através das minhas fotos, mostrar nossa cultura, a vida que existe onde muitos pensam ser apenas uma terra seca”. Nascida e criada em Senador Rui Palmeira, no sertão alagoano, Léh Nasctos atua há cerca de 10 anos na fotografia documental, com foco na valorização da cultura local e no enfrentamento de estereótipos sobre a região.
Entre os trabalhos desenvolvidos estão as séries “Alaranjar” (2015) e “Sertanejos” (2022). Na primeira, o destaque está na presença do tom alaranjado nas paisagens do sertão. Segundo a fotógrafa, a cor é característica da região e evidencia aspectos visuais que persistem mesmo em períodos de seca. Já em “Sertanejos”, a produção se concentra nos moradores, com registros do cotidiano e das condições de vida no interior. Ao citar Euclides da Cunha: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”, Léh relaciona sua produção à ideia de resistência associada à população sertaneja.
Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Nasctos direciona sua atuação para o fotojornalismo e para a preservação da memória regional. Ela também é idealizadora do Sertão Cult, plataforma digital voltada à divulgação de artistas e manifestações culturais do interior do estado.
R.A: Antes de entrarmos no assunto da fotografia, gostaria que você contasse um pouco da sua história. Quem é Léh Nasctos e de onde vem?
Léh Nasctos: Eu sou uma pessoa apaixonada pela vida, independentemente de quais sejam as dificuldades que eu encontre. Sou quieta para alguns, tagarela para os mais íntimos, e me defino com gratidão por conseguir enxergar o quanto a vida é boa de se viver, mesmo no simples. Eu venho do sertão alagoano, de uma terra que aprendi a valorizar antes mesmo de ir embora, e por isso sou grata.
R.A: : Você lembra em que momento da sua vida começou sua paixão pela fotografia?
Léh Nasctos: Eu amava quando era criança e mainha deixava eu bater a foto, a câmera ainda era analógica, nós ficávamos na ansiedade pra ver a foto revelada e era sempre um momento único parar pra ver todos os álbuns de fotos que mainha colecionava de nossa família. Com as câmeras digitais, eu já comecei a fazer umas fotos de paisagens, brincava muito com o foco em objetos só pra deixar o fundo desfocado. Comecei a trabalhar e comprei minha primeira câmera semi profissional em 2014, uma Nikon Coolpix L820. Amava fazer fotos da lua com o zoom topado que ela tinha, fiz muitos registros da minha cidade, de paisagens, por do sol. Desde então, sigo documentando tudo que me atrai. Foi em 2015 que comecei a explorar mais o sertão e comecei a me apaixonar através da fotografia, aprendendo a reconhecer o valor daquele lugar e da minha cultura sertaneja.

R.A: Você é estudante de Jornalismo na Ufal e atua como fotógrafa há 10 anos. Na sua visão, quais são hoje os principais desafios para fortalecer o fotojornalismo independente em Alagoas? E como você enxerga o espaço e as oportunidades para as mulheres que atuam nessa área no estado?
Léh Nasctos: Existem muitas questões, principalmente políticas, que um fotojornalista vivencia em nosso estado. Para se ter reconhecimento fora da política, uma longa trajetória deve ser enfrentada e como em quase todas as áreas, o reconhecimento maior vem de fora. Eu conheço poucas mulheres fotojornalistas em Alagoas, nosso espaço é pouco, mas isso não me impede de querer essa área. Eu entrei no curso de Jornalismo para fazer fotojornalismo e desde então sigo firme com essa ideia.
R.A: Em Alaranjar (2015), você fala sobre como o tom do Sertão acolhe a beleza mesmo na seca. Como essa percepção aparece na sua prática fotográfica? No momento do clique, como é o seu processo de fotografar? O que você busca observar e de que forma tenta transmitir o que sente ao olhar a cena?
Léh Nasctos: Eu acho que fotografar no sertão me acostumou a observar momentos normais do cotidiano, que numa foto acabam transmitindo sentimento, mesmo sem perceber como aquilo é especial, por mais que seja rotineiro. Eu costumo visualizar uma foto que eu faria, o tempo todo, pelo simples fato de sentir que aquilo um dia pode não mais fazer parte da realidade, e numa foto o sentimento está ali guardado.
R.A:Ao longo desses 10 anos trabalhando com fotografia documental, especialmente registrando o Sertão, quais histórias ou experiências mais te marcaram? Existe alguma imagem que tenha ficado especialmente marcada pra você? Se sim, pode contar qual é essa foto e a história por trás dela?

Léh Nasctos: Ouvir as pessoas falando que nunca tinham percebido como esse lugar era lindo antes, e ter visto como uma foto minha ficou perfeita lá, me fez entender que o meu trabalho era importante para mostrar aos outros a visão que eu tinha do mundo, enxergar a beleza onde ninguém dava valor, e a partir disso, incentivar a valorização dos outros também. A minha foto preferida eu fiz num momento que estava descendo uma serra, numa dessas andanças que eu fazia explorando o sertão, procurando coisas para fotografar, o sol estava se pondo e quando eu vi aquele lugar, fiz a foto que me marca até hoje porque para mim, parecia uma cena de filme, mas era real e estava bem ali na minha frente: os galhos secos da caatinga e o sol de pondo ao fundo.
R.A: Além da fotografia, você criou o Sertão Cult, um projeto jornalístico digital dedicado a documentar e compartilhar a cultura sertaneja. Como surgiu essa iniciativa e o que motiva você a transformar essas vivências em pautas? Quais critérios você utiliza para selecionar as histórias e definir o formato de cada publicação?
Léh Nasctos: Eu sempre quis mostrar meu sertão através de minhas fotos, mostrar nossa cultura, a vida que há onde muitos pensam ser apenas uma terra seca. O Sertão Cult veio como um projeto para também mostrar a riqueza do nosso povo. A arte, o artista, aquilo e aqueles que precisam ser reconhecidos. Eu tenho muita história para contar por lá, e espero conseguir conciliar o meu tempo para me dedicar melhor a essa iniciativa.

R.A: Para encerrar: quais são os projetos e planos para os próximos 10 anos?
Léh Nasctos: Estudar mais, aprender mais, levar a fotografia documental do meu sertão pro mundo, e do mundo pro meu sertão. O jornalismo pode me levar para vários caminhos, mas eu sei que a foto documental está enraizada em mim e será sempre uma grande paixão que sonho em compartilhar mundo afora.
Acompanhe o trabalho de Léh Nasctos em seu Instagram: @lehnasctos