Patrimônio Vivo: ACULTUJA se torna a primeira associação de corpo jurídico a receber o título em Alagoas

Conquista inédita consolida a preservação de saberes tradicionais e impulsiona o protagonismo de artesãos de Japaratinga como exemplo para o estado

 

Por Maryana Carvalho sob supervisão de Bertrand Morais 

A ACULTUJA rompe padrões ao se tornar a primeira pessoa jurídica reconhecida como Patrimônio Vivo no município e no estado, valorizando o saber coletivo. Foto: Arquivo pessoal

A Associação Cultural e Turística de Japaratinga (ACULTUJA) alcançou um marco histórico ao se tornar a primeira pessoa jurídica a receber o título de Patrimônio Vivo no município. A conquista rompe com o padrão tradicional da honraria, geralmente concedida a pessoas físicas (mestres e mestras), consolidando o papel institucional da associação na preservação da cultura local. 

É considerado Patrimônio Vivo o mestre, mestra ou grupo que detém o domínio de saberes, técnicas e expressões fundamentais da cultura tradicional. No âmbito das políticas de salvaguarda, o título reconhece esses detentores como peças-chave da identidade local, transformando sua atuação em um compromisso oficial de preservação. A honraria pressupõe que o conhecimento não apenas resida no presente, mas que seja obrigatoriamente transmitido às novas gerações, garantindo a continuidade da memória coletiva e do patrimônio imaterial de uma região. 

Elizabete Cristina e Maria Aparecida (Cida) celebram a diplomação da ACULTUJA como Patrimônio Vivo ao lado de membros da associação. Foto: Arquivo pessoal

Para Elizabete Cristina, vice-presidente da associação, o título representa a consolidação de um sonho coletivo. “Este reconhecimento é a garantia de que todo o nosso trabalho se perpetuará para as próximas gerações. Foi um divisor de águas em nossa história”, afirma. 

Com mais de 25 anos de existência, a entidade atua na preservação das tradições locais, promovendo o protagonismo de artesãos e artesãs de Japaratinga. De acordo com a diretora, o fortalecimento da ACULTUJA vem diretamente do povo, que transforma o saber artesanal em sustentabilidade econômica através do fluxo turístico. 


Nossos associados são artesãos e artistas que promovem a cultura através de suas produções autorais e atuam diretamente na economia criativa. São pessoas que acreditam na importância de preservar sua identidade e de repassar seus conhecimentos por meio de eventos, feiras, saraus, oficinas e festivais. Trabalhamos juntos, de diversas maneiras, para manter viva a nossa cultura.


O secretário de Cultura de Japaratinga, Rafael Nascimento, reforça que o reconhecimento da ACULTUJA como Patrimônio Vivo foi um processo natural, dada a relevância institucional que a entidade construiu ao longo das décadas. Segundo o gestor, a atuação da associação é fundamental para a cultura local, projetando o município em escala estadual.

“A associação é bastante atuante no município com seus fazedores de cultura associados, por meio de saraus, oficinas, literatura e outras frentes. Não tivemos obstáculos para essa concessão, pois é notória a sua atuação na identificação e valorização do notório saber em nosso município”, destaca Rafael.

Acolhimento na rede artesanal 

Cristina, uma das vozes à frente da ACULTUJA, vivenciou a transformação social promovida pela entidade e hoje atua na ampliação de oportunidades para artesãos locais. Foto: Arquivo pessoal

Cristina é uma das integrantes que dão vida à produção artística da associação. Ela relata que foi por meio da entidade que sua realidade se transformou. Após residir por oito anos em São Paulo, ela retornou para Alagoas em 2018 sem perspectivas profissionais. Na época, enquanto o esposo trabalhava, ela enfrentava a falta de uma rede de apoio familiar em Japaratinga: “Eu me sentia inútil”, recorda.

A mudança começou quando ela buscou, como terapia ocupacional, um curso de pintura em tecido ofertado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) no município.

“Foram quatro dias de um curso rápido de pintura em tecido, ofertado pelo Senar aqui no município. Na época, eu tinha pouco contato com a Cida (hoje presidenta da ACULTUJA), que era secretária de Cultura, mas lembro que fiz alguns chaveiros de feltro e fui conversar com ela sobre a possibilidade de participar das feiras da secretaria. Fui sem muita expectativa, mas fui muito bem recebida; percebi que alguém me acolheu ali como pessoa, e não apenas como alguém que estava iniciando no artesanato com poucas peças”. 

Quando Cida deixou a secretaria, o vínculo entre as duas se transformou em parceria empreendedora. Ela convidou Cristina para produzir peças destinadas a cestas personalizadas. “Ela lembrou de mim e me pediu algumas peças. Eu fiz, e vendeu tudo rapidamente! Foi então que surgiu a ideia de começarmos a loja colaborativa, que hoje acolhe diversos pequenos artesãos. Assim como nós um dia precisamos de uma chance, eu sempre digo: hoje, somos a porta que um dia precisamos encontrar aberta”, relata Cristina. 

Com a reestruturação da entidade em 2019, Cristina assumiu o cargo de vice-presindente da ACULTUJA. Ela explica que, embora a instituição tenha entrado em uma nova fase, a missão original de valorizar a cultura local permanece mais viva do que nunca. “Nesse novo ciclo, o artesanato se fortaleceu por meio de produções mais intensas, unindo-se a ações sociais, como oficinas criativas e campanhas de Natal voltadas a crianças em situação de vulnerabilidade”, destaca.

Atualmente, mais de 28 artesãos atuam na loja colaborativa Empório Japaratinga, em sua maioria mulheres crocheteiras. O espaço é mantido coletivamente pelos associados com o objetivo de divulgar e comercializar a produção local, além de sediar oficinas.


Nossa articulação ocorre por meio de convites e ofícios, sempre buscando integrar artistas e artesãos para que mostrem seus talentos. Acreditamos no trabalho inclusivo e colaborativo com outros fazedores de cultura. Sabemos das dificuldades do setor e, por isso, a união é fundamental. Nosso propósito é fortalecer a rede de economia criativa e ampliar o alcance das nossas atividades.


O protagonismo feminino marca a produção da associação, com destaque para as mulheres crocheteiras que dão vida à identidade cultural da região. Foto: Arquivo pessoal

Para a diretora, a evolução da produção artesanal em Japaratinga está diretamente ligada à troca de experiências entre os artistas. “Sobre influência na produção de peças, acredito que buscamos sempre melhorias, quando vemos, por exemplo, um colega com um acabamento diferente ou técnica que pode ser agregada ao nosso trabalho, é ótimo porque podemos pensar em como diferenciar ou até mesmo multiplicar as nossas técnicas”, explica.

Essa visão de colaboração ultrapassa as divisas do município. Recentemente, durante uma feira de agricultura familiar em Maragogi, Cristina iniciou uma parceria com um artista de Jundiá, que trabalha com madeira.

“Eu faço pintura em madeira e ele gosta muito do meu estilo de pintura, e já combinamos de ir lá para fazer uma oficina com o meu estilo de pintura, porque ele acredita que isso poderá abrir as possibilidades do trabalho dele, outras técnicas sendo usadas juntas… então esse exemplo casa bem com o que quero dizer, só há ganho nessas parcerias, de ambas as partes”, afirma Cristina.

Feira Tecendo a Arte

Outro projeto importante da ACULTUJA é a feira Tecendo a Arte, que em 2026 chega à sua 4ª edição. Consolidado no calendário local, o evento funciona como uma vitrine das produções dos artesãos locais. A programação vai desde oficinas técnicas e palestras até gastronomia e apresentações culturais. A iniciativa busca estabelecer um ambiente de intercâmbio de saberes, fortalecendo a rede de colaboração e abrindo novas frentes de mercado para os talentos japaratinguenses. 

“Estamos nos preparando para uma edição do Tecendo a Arte ainda mais incrível. O Sebrae irá nos ajudar a abrilhantar o evento, capacitando as artesãs crocheteiras, que são as grandes estrelas do projeto”, explica Cristina. 

Ao ser questionada sobre os próximos passos da ACULTUJA, Cristina garante que o objetivo é ampliar as ações de capacitação e as oficinas de forma acessível ao público.


Queremos garantir, assim, a perpetuidade desse trabalho, em conjunto com os saraus e feiras, que só multiplicam e também trazem essa troca rica de experiências com artesãos e artistas de outros municípios. Somos abertos para receber artistas e artesãos do município; a loja colaborativa foi um meio de comercializar as nossas peças, já que na cidade não existe um espaço público destinado aos artesãos locais.


 

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