Carol Rox fala sobre técnica, vínculos familiares e inclusão LGBTQIAPN+ na fotografia de eventos 

Com 15 anos de profissão, a fotógrafa alagoana relembra o início na cobertura de shows e explica como a aproximação com os clientes permite que ela registre desde o casamento até o crescimento dos filhos 

A fotógrafa Carol Rox, que começou nos palcos cobrindo shows, hoje atua no registro de casamentos e ensaios de família em Maceió. Foto: Arquivo pessoal.

Carol Rox não sabe dizer exatamente quando a fotografia entrou em sua vida. Ela passou os primeiros 15 anos no Rio de Janeiro e viveu o fim da adolescência em Joinville. Foi no retorno a Maceió, sua cidade natal, que decidiu transformar a fotografia em profissão. 

No início da carreira, atuou na cobertura de shows, uma área bem diferente daquela em que trabalha hoje. Segundo ela, essa experiência foi importante para desenvolver a capacidade de lidar com imprevistos e diferentes condições de iluminação. Atualmente, Carol se dedica à fotografia de famílias, gestantes e casamentos. 

Seu trabalho é guiado pela busca por registros espontâneos. Antes das sessões e cerimônias, ela procura conhecer a história de cada cliente para entender melhor suas dinâmicas e criar imagens mais conectadas com a realidade de cada família. Essa proximidade faz com que muitos retornem ao longo dos anos: casais que ela fotografou no casamento voltaram depois para registrar a gestação, o nascimento dos filhos e, mais tarde, aniversários e outras celebrações. 

Em entrevista para a Revista Alagoana, a fotógrafa compartilha os bastidores da profissão e explica como sua própria bagagem pessoal influencia o registro da história de seus clientes. 

R.A: Carol, antes de qualquer coisa, você pode contar um pouco da sua história? Quem é e de onde vem Carol Rox?

Carol Rox: Carol Rox, na verdade, é Ana Carolina, nascida em Maceió, radicada no Rio de Janeiro até os 15 anos e em Joinville (Santa Catarina) durante a adolescência. O Rio é o lugar de onde vem grande parte da minha base familiar e cultural e das minhas lembranças mais vivas da infância. Joinville foi o desabrochar para novas conexões e o início da vida adulta. Maceió é de onde vim, para onde voltei e onde encontrei sentido para a minha vida adulta.

Em Maceió, a fotografia passou de algo corriqueiro para a profissão. Conheci pessoas incríveis que me apoiaram desde o início, desenvolvi meu olhar, entendi que realmente era esse o meu caminho e constituí uma das coisas mais importantes da minha vida: a minha família.

Profissionalmente, comecei fotografando shows, o que me trouxe um excelente repertório sobre como trabalhar com o imprevisto, com diferentes condições de luz e de forma mais dinâmica. Trabalhar com casais e famílias traz as nuances das relações humanas de uma forma mais acolhedora e complexa.

R.A: Como a fotografia entrou na sua vida? Você lembra de um momento ou experiência específica em que ela começou a fazer sentido para você?

Carol Rox: Não sei dizer como nem quando a fotografia entrou na minha vida. Minha sensação é de que, de alguma forma, ela sempre fez parte dela. Não sei se por influência do meu padrinho, que era fotojornalista, mas não me lembro da vida sem ter alguma câmera em casa. Daquelas simples, com rolo de filme e que, no final, a gente precisava rebobinar e abrir com cuidado para a luz não estragar tudo. Não era nada profissional, mas era, de certa forma, mágico. Colocar o filme e entender que eram aquelas 12 poses que iam contar a próxima história de algum aniversário, um passeio ou qualquer outro momento que merecesse ser guardado.

Foto: Carol Rox

R.A: Você mencionou que “a memória pode falhar, mas aquele momento não será esquecido”. Sendo a pessoa responsável por construir essa memória visual que vai ficar para as próximas gerações de muitas famílias, como você escolhe o que precisa ser eternizado? 

Carol Rox: Talvez não se trate exatamente de uma escolha, mas de um sentimento, um “feeling”. Em alguns casos, temos um conhecimento prévio da história dos clientes, e isso nos direciona para algo mais específico. De modo geral, eu sigo a espontaneidade, o imprevisto e a conexão. As artes nos dão essa licença poética de usar a sensibilidade em vez de alguma fórmula pronta.

Muitas vezes, a foto vem antes do clique. A verdade é que a gente tenta colocar, em uma fração de segundo, algo que não está sob nosso controle. E, quando conseguimos, é aquilo que fica, de fato, para sempre.

R.A: Na sua percepção, o mercado de fotografia de casamentos e ensaios familiares – historicamente mais voltado para padrões tradicionais e casais heteronormativos – tem se tornado mais aberto a diferentes configurações familiares e casais LGBTQIAPN+?

Foto: Carol Rox

Carol Rox: Com certeza! Ao longo desses 15 anos de fotografia, tive a oportunidade de atender diferentes configurações de famílias e, para mim, é nítido que os casais e famílias LGBTQIAPN+ têm conseguido, a muito custo, essa abertura.

Sempre que recebo clientes da comunidade, me sinto privilegiada por ter sido escolhida e feliz por ver uma família ou um casal ter a coragem de mostrar que o amor existe independentemente de questões como orientação sexual, raça, religião etc. E, sim, é preciso ter coragem para se mostrar como minoria em um mundo ainda tão carregado de preconceitos.

Infelizmente, ainda existem inúmeros casos de profissionais e fornecedores que se recusam a atender esse público. São pessoas que preferem deixar de realizar um trabalho a atender um casal de mulheres, por exemplo. Acredito que toda a sociedade perde quando alguns dogmas são colocados à frente do direito de cada indivíduo de ser, viver e sentir quem é. Ninguém deveria ter medo de amar e constituir uma família.

R.A: Ao longo do seu trabalho como fotógrafa, existe alguma foto que esteja ligada a uma história especial e que tenha ficado na sua memória? Se sim, pode contar qual é essa foto e a história por trás dela?

Carol Rox: Sim, existem algumas histórias e clientes que acabam marcando de fato. Há alguns anos, fui contratada para fotografar as bodas de ouro de um casal, em uma comemoração simples, realizada em casa, junto à família. Nesse período, entre a reserva da data e a realização das fotos, surgiu uma questão de saúde grave que poderia ter impedido a celebração. Ainda assim, a comemoração aconteceu, os filhos que moravam em outros estados conseguiram chegar a tempo e fizemos os registros com toda a família reunida. No início, o senhor não estava muito animado com as fotos, mas acabamos nos conectando por meio da nossa paixão pelo Flamengo. Isso tornou tudo mais leve, apesar das circunstâncias. Conseguimos registrar aquele dia de forma espontânea e especial. Pouco tempo depois, ele faleceu. As fotos daquela celebração ficaram como uma lembrança importante para a família, e essa é uma das histórias que mais me marcaram ao longo da minha carreira.

R.A: De que forma sua identidade e suas experiências de vida impactam as escolhas que você faz em seu trabalho fotográfico? 

Foto: Carol Rox

Carol Rox: O fotógrafo Ansel Adams dizia “no ato de fotografar trazemos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos”, e eu acredito bastante nisso. Quando saio pra fotografar, eu levo comigo tudo que vivi, as referências que aprendi, o amor que eu sinto pelos meus pais, pela minha família e isso me permite registrar não só com a técnica, mas também com a emoção.

R.A: O que mais mudou em você desde que começou a registrar histórias de outras pessoas? 

Carol Rox: Mudou a forma como eu olho e me comunico com as pessoas, como observo a vida acontecendo ao meu redor. A observação é um exercício interessante de se fazer e acaba sendo inevitável quando se trabalha nessa área. Me trouxe também um sentimento da importância de nos fazermos presentes de fato quando estamos com nossas pessoas queridas. O tempo de qualidade se torna raro quando trabalhamos com eventos e é algo que acaba tendo um valor muito maior quando o temos. 

R.A: Quando você olha para sua trajetória até aqui, do que sente mais orgulho?

Uma das coisas mais gratificantes é acompanhar a formação de uma família a partir do casamento e seguir até os aniversários das crianças. Essa transição de ser a fotógrafa do casamento e passar a ser a “tia Carol” é um dos grandes reconhecimentos desse trabalho. A gente vai crescendo junto com as famílias e é algo realmente incrível de se vivenciar.

 

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