Dois mestres alagoanos com passagem pela Revista Alagoana são titulados com o Notório Saber; Relembre suas histórias

A diplomação fez parte do Encontro Nacional de Mestras e Mestres do Notório Saber e foi a primeira cerimônia desse tipo realizada por uma instituição privada de ensino superior no Brasil

 

Entre os dias 01 a 03 deste mês, Maceió foi sede do Encontro Nacional de Mestras e Mestres do Notório Saber, uma realização do Ministério da Cultura e correalização da FOCUARTE, e outros apoiadores. Mas, foi a noite do dia 02, o ponto ápice do evento: a cerimônia do CESMAC de titulação do notório saber, para os mestres José Miguel da Silva Lima, ou Mestre Militar, da cidade de Girau do Ponciano, e para Maria das Graças Correia Gomes, ou Mestra Graça, da cidade de Olho D`água do Casado. A ocasião teve um fator inédito, pois é a primeira vez que uma instituição privada de ensino superior no país concede tal honraria, que tem peso de doutor, para público externo da academia, com reconhecida trajetória cultural e capacidade de repasse do saber.

“Recebemos as indicações da sociedade civil e, nos termos do que dispõe o estatuto e o regimento geral do centro universitário, apresentamos os nomes ao Conselho Universitário do CESMAC, que foi aprovado por unanimidade, em 19 de junho deste ano”, destaca, Rodrigo Guimarães, coordenador geral de extensão do CESMAC, e complementa “o Sr. José Miguel em reconhecimento à sua trajetória como guardião, promotor e transmissor dos saberes da cultura popular e, a Sra. Maria das Graças é amplamente reconhecida por suas contribuições pela valorização do artesanato como patrimônio cultural imaterial”.

Segundo Guimarães, no dia 16 de julho terá início o vínculo efetivo dos dois mestres com o centro universitário. A primeira atividade será uma oficina realizada dentro da instituição.

Quem são os novos Mestres do Notório Saber?

O título de Notório Saber reconhece mestres e mestras detentores de conhecimentos tradicionais, construídos fora das instituições formais de ensino e transmitidos de geração em geração. São práticas preservadas pela oralidade, pela experiência, pelo fazer cotidiano e pela relação com o território.

Foi por essa trajetória que a Mestra Graça e o Mestre Militar receberam a honraria. Graça Correia começou a bordar ainda criança, aos 9 anos de idade. Em entrevista à Revista Alagoana, contou que aprendeu o ofício com a avó e a mãe. Com o passar dos anos, desenvolveu peças inspiradas em sua cidade natal, Olho d’Água do Casado, transformando o bordado em uma expressão da identidade local.

Esse legado, porém, não permaneceu apenas em suas mãos. A artesã passou a ensinar outras mulheres e fundou a Associação Artesãs Casadenses que reúne mais de 20 integrantes, com impacto que atinge mais de 40 mulheres da região, entre quilombolas, assentadas da reforma agrária, entre outros públicos. Com o bordado livre, o grupo produz peças de vestiário, acessórios, entre outras peças artesanais, fortalecendo a renda de mulheres e contribuindo para o turismo da cidade conhecida como portal dos cânios do São Francisco.

O Mestre Militar, por sua vez, recebeu esse nome pela dedicação à Chegança Girauense, manifestação cultural de Girau do Ponciano, no interior de Alagoas. Aos 10 anos de idade, começou a participar do folguedo. Segundo ele, o interesse nasceu a partir das músicas e das histórias que envolvem a Chegança. Com o tempo, tornou-se guarda-marinho, foi promovido a segundo-sargento e, mais tarde, reconhecido como mestre, sendo o terceiro na linha de sucessão, depois de José Firmino e José Alias.

Assim como a Mestra Graça, seu Miguel mantém uma forte ligação com as tradições que ajudou a preservar ao longo da vida. Os dois compartilham o compromisso de transmitir esse patrimônio cultural às novas gerações, para que essas práticas continuem vivas e façam parte da identidade cultural alagoana.

A importância do título para a cultura de Alagoas e do Brasil

O presidente do Consórcio Nordeste, Aterlane Martins, que estava presente no evento, destacou a importância de uma universidade privada reconhecer a cultura nordestina e brasileira. Para ele, a iniciativa representa um marco, já que, por mais de 20 anos, apenas instituições públicas concediam esse título.

“Certamente, esse ato vai repercutir entre as instituições que são congêneres, e a gente espera que faça com que outras também reflitam e possam formalizar essa ação. Nós sabemos que o Cesmac, sobretudo, fez essa ação porque já tinha alguma atuação no campo, já trabalhava com mestres quilombolas, mestres indígenas e agora, de modo mais forte, efetivou esse reconhecimento, titulando-os como notório saber”, explica.

Além da diplomação dos mestres alagoanos, Aterlane Ceará destaca que o Encontro Nacional de Mestras e Mestres do Notório Saber fortaleceu o debate sobre o reconhecimento dos saberes tradicionais e aproximou representantes de todo o país.

“Nós conseguimos levar mestres de todos as regiões brasileiras para o Encontro Nacional. A representação desses mestres, juntamente com tantos outros que também estiveram presentes, especialmente os de Alagoas, permitiu ampliar as discussões sobre o que é o Notório Saber, os processos de titulação e a inserção desses mestres na educação superior. Nós acreditamos que esses são os grandes ganhos. Além disso, foi encaminhada a criação de uma rede nacional de institutos federais, universidades e instituições culturais que trabalham com mestres e mestras da cultura popular”, conclui.

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