Tela Brasil: Novo streaming brasileiro gratuito carrega DNA e produções alagoanas

Tela Brasil é uma iniciativa da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) por meio do Núcleo de Excelência em Tecnologias Sociais (Nees) junto com o Ministério da Cultura (Minc)

Foto: Reprodução/Tela Brasil

Recentemente, foi lançado o Tela Brasil, o novo streaming 100% brasileiro. Com mais de 500 produções em seu catálogo, a iniciativa ganhou destaque por ampliar o acesso ao audiovisual nacional e reunir obras de diferentes regiões do país.

Alagoas também tem participação nessa história. A Universidade Federal de Alagoas (Ufal), por meio do Núcleo de Excelência em Tecnologias Sociais (Nees), integrou a equipe responsável pelo desenvolvimento da plataforma em parceria com o Ministério da Cultura. O trabalho envolveu mais de 80 profissionais, entre pesquisadores, técnicos, estudantes e bolsistas de instituições públicas de diversas partes do país.

Além do desenvolvimento da plataforma, o grupo também participou da estruturação do catálogo inicial. As obras estão organizadas em diferentes curadorias temáticas, que abordam áreas como diversidade, memória, regionalidades, artes, infância e história do cinema brasileiro. Entre os destaques estão coleções dedicadas ao Cinema Novo, aos ciclos regionais, aos cinemas indígenas, às produções dirigidas por mulheres e aos acervos históricos preservados por instituições públicas. 

Prédio do NEES na Universidade Federal de Alagoas. Foto: Reprodução/Internet
Prédio do NEES na Universidade Federal de Alagoas. Foto: Reprodução/Internet

Embora o licenciamento das obras seja realizado pelo Ministério da Cultura, a coordenação do projeto afirma que já discute iniciativas voltadas ao mercado audiovisual alagoano. Segundo Thiago Cordeiro, coordenador do projeto Tela Brasil pelo NEES, afirma que estão sendo articuladas “iniciativas direcionadas aos grupos de audiovisual, estudantes, cineastas e profissionais do mercado alagoano que permitam uma maior divulgação dos recursos da PNAB, bem como parcerias com atores do audiovisual nacional”.

Sobre a ampliação do catálogo, Cordeiro explica que a seleção das obras ocorre por meio de editais conduzidos pelo Ministério da Cultura. “No ano passado, foi realizado o primeiro processo de licenciamento, que contemplou 405 obras audiovisuais. Há previsão de novas seleções pelo MinC, mas, no momento, não existe edital aberto”, afirma. 

Um estudo de consumo realizado pela pesquisadora e vice-coordenadora do projeto, Luciana Santa Rita, aponta perspectivas de crescimento para o Tela Brasil nos próximos anos. As projeções indicam que a plataforma pode alcançar entre 1,08 milhão e 3,61 milhões de usuários ativos mensais até o terceiro ano de operação, a depender da adesão do público ao audiovisual brasileiro. No cenário intermediário, considerado pela pesquisa, a estimativa é de aproximadamente 2 milhões de usuários por mês. 

“Com o crescimento da base, a expectativa é que cada usuário regular consuma, em média, de 25 a 35 horas mensais de conteúdo. Seguindo a tendência de acesso por TVs conectadas, o cenário intermediário indica que o Tela Brasil pode chegar a transmitir 45,9 milhões de horas de conteúdo assistido por mês até o final do terceiro ano”, explica Rita.

Presença do audiovisual alagoano no Tela Brasil 
Pesquisadora, produtora cultural e realizadora cinematográfica Larissa Lisboa. Foto: Arquivo pessoal.

A pesquisadora, produtora cultural e realizadora cinematográfica, Larissa Lisboa, atua há mais de 10 anos, junto com produtores e cineclubistas da cena local, na curadoria do audiovisual alagoano no portal independente Alagoar, que reúne mais de 800 obras catalogadas — 436 delas disponíveis para visualização online.

Assim que o Tela Brasil foi lançado, Lisboa fez questão de realizar uma pesquisa, visitando na busca avançada cada ano de lançamento de obras audiovisuais brasileiras entre 1922 e 2026. Ela relata que a chegada da plataforma impactou sua perspectiva sobre a preservação e a difusão da memória do cinema brasileiro. “Aqueceu meu coração poder ter acesso a obras de outros estados realizadas nos primórdios da produção cinematográfica brasileira”, explica.

No entanto, Lisboa aponta uma lacuna nas informações apresentadas pela plataforma. Segundo ela, não foram disponibilizados detalhes sobre os processos de preservação das obras, nem sobre as instituições responsáveis pela conservação dos filmes brasileiros do início do século passado, que integram o catálogo do Tela Brasil. 

Por mais extenso que seja o catálogo da plataforma, ela avalia que o audiovisual alagoano ainda aparece de forma “tímida” no Tela Brasil. Durante sua pesquisa, a realizadora percebeu limitações nos mecanismos de busca para localizar produções relacionadas ao estado. Ao pesquisar pelo termo “Alagoas”, por exemplo, encontrou apenas obras que continham a palavra no título, como o documentário Comunidades Negras Quilombolas de Alagoas. 

Para localizar outras produções, foi necessário recorrer à busca avançada e pesquisar ano a ano, utilizando como referência o mapeamento contínuo que realiza por meio do portal Alagoar. “Acredito que os resultados podem ser mais completos se for possível indexar o conteúdo das sinopses e outros materiais disponibilizados nas páginas das obras, permitindo pesquisas por termos variados”, conclui. 

Cineasta alagoana de “Na Ponta do Palito” chega às telas do Brasil 
Cineasta do curta “Na Ponta do Palito”, Madlene Delfino. Foto: Arquivo pessoal.

O Mercado do Artesanato é um dos espaços mais frequentados de Alagoas. Localizado no bairro da Levada, em Maceió, reúne artesãos e comerciantes que utilizam o local para expor e comercializar seus produtos. Foi ali que a turismóloga e produtora cultural, Madlene Delfino, encontrou o tema para seu documentário.

A produção acompanha Mestre Arlindo, artista pernambucano radicado em Maceió. Seu trabalho é voltado à confecção de miniaturas feitas com palitos de fósforo, lâminas de madeira e cascas de árvores. Entre as peças produzidas estão aviões, personagens do folclore, representações de São Jorge e cenas do cotidiano. A precisão dos detalhes e a diversidade das obras contribuíram para que o artesão fosse escolhido como personagem central do documentário.

A escolha de Mestre Arlindo como personagem principal tem origem nas lembranças de infância da diretora. Filha de comerciantes que atuavam no Mercado do Artesanato, Madlene Delfino frequentava o espaço diariamente e acompanhava de perto o trabalho do artesão. “Eu acho mesmo que o trabalho dele me seduziu quando criança, é lúdico, Arlindo apresenta um mundo diferente. Então quando surgiu a proposta de apresentar alguns artistas, sem dúvidas ele foi a primeira pessoa que pensei”.

As gravações aconteceram em um único dia, no próprio mercado, e incluíram conversas com comerciantes vizinhos para compreender a rotina do local. O material registrado levou a equipe a ampliar o projeto inicial e desenvolver o documentário. “A equipe toda se apaixonou por Arlindo na hora”, relembra. 

Agora, o curta integra o catálogo do Tela Brasil e está entre as produções que representam o audiovisual alagoano na plataforma. Segundo a cineasta, a inclusão do curta na plataforma ocorreu por meio de um edital de seleção. Ela explica que a distribuidora Nobre, responsável pela circulação de suas produções, acompanha constantemente oportunidades de exibição em festivais e chamadas públicas. Por isso, muitas vezes toma conhecimento das seleções apenas após a confirmação dos resultados. “Eles estão sempre atentos a editais e festivais que fazem sentido para os meus curtas, e eu acabo recebendo as notícias depois”, comenta. 

Seu Arlindo, protagonista do curta-metragem alagoano que agora integra o catálogo nacional do Tela Brasil. Foto: Arquivo pessoal

E para ela, a sensação não pode ser definida. Contribuir para o registro e a difusão das histórias de mestres e mestras da cultura popular é uma forma de valorizar a memória, elemento que considera fundamental para a construção da identidade coletiva. “São várias as sensações e sentimentos, mas o mérito é todo dele. Fico feliz quando recebo áudio do Arlindo dizendo que vai ser entrevistado, e me agradecendo. Pronto, é um abracinho no coração, de forma bem fofinha mesmo e sensação de dever cumprido”.

A presença do cinema alagoano em uma vitrine nacional contribui para ampliar a compreensão sobre a diversidade cultural brasileira e fortalecer a representação do estado no cenário audiovisual. A circulação dessas obras permite que o público conheça narrativas produzidas fora dos grandes centros e ajuda a enfrentar estereótipos historicamente associados ao Nordeste. 


“O cinema alagoano fazer parte disso, nos ensina como é bom nos olhar. Acho que é um presente de autocuidado, de construção da nossa auto estima como um povo que ainda sofre com a insistência de uma imagética que insiste em nos colocar de um povo sem educação em todos os níveis, principalmente artístico. Não somos vistos como protagonistas na arte pelo sul e sudeste brasileiro. Vamos nos consumir!”, conclui Delfino.


Conheça 5 produções de cineastas alagoanos disponíveis no Tela Brasil*
O Grande Circo Místico (2018), de Cacá Diegues. Foto: Reprodução/Tela Brasil

O Grande Circo Místico (2018), de Cacá Diégues 

Duração: 01h45

Classificação indicativa: 16+

Dirigido por Cacá Diegues (1940–2025), o longa-metragem adapta para o cinema o espetáculo teatral baseado no poema homônimo de Jorge de Lima (1893–1953). O filme acompanha cinco gerações da família circense Knieps e apresenta os acontecimentos do Grande Circo Místico desde sua inauguração, em 1910. A condução da história é feita por Celavi, mestre de cerimônias que permanece com a mesma aparência ao longo das diferentes épocas retratadas. A produção recebeu seis prêmios no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, incluindo as categorias de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Direção de Arte.

Ponto das Ervas (1978), de Celso Brandão 

Duração: 11min

Classificação indicativa:  Livre

Lançado em 1978 e produzido em Maceió (AL), o curta-metragem retrata o trabalho do médium e raizeiro Prof. Oliveira. Ao longo de cerca de 10 minutos, a obra registra práticas de cura popular, destacando o uso de ervas e plantas medicinais, além de crenças ligadas às forças da natureza presentes nos saberes tradicionais.

Comunidades negras quilombolas de Alagoas (2008), de Sandreana Melo e Christiano Barros

Duração: 26min

Classificação indicativa: Livre

A obra documenta a realidade das comunidades quilombolas de Alagoas por meio de fotografias e relatos reunidos durante seis meses pela equipe do Núcleo Quilombola do Iteral. O projeto registra a visita a 34 comunidades, das quais 28 ainda aguardavam a certificação oficial da Fundação Cultural Palmares. 

Diafragma (2023), de Robson Cavalcante 

Duração: 10min

Classificação indicativa: Livre

Agora partindo para uma animação infantil, o curta Diafragma utiliza elementos lúdicos para abordar questões relacionadas à saúde pública. A produção alagoana acompanha Carlos, um adolescente que descobre ter diabetes e passa a enfrentar a possibilidade de perder a visão. Ao longo da narrativa, Carlos revisita memórias e enfrenta os desafios que surgem após o diagnóstico, lidando com o medo das mudanças que a doença pode causar e com a possibilidade de transformar a forma como percebe o mundo, suas cores e formas. 

Na ponta do palito (2023), de Madlene Delfino

Duração: 10min

Classificação indicativa: Livre

Na Ponta do Palito acompanha o cotidiano do Mestre Arlindo, artesão pernambucano radicado em Maceió que transforma palitos de fósforo, madeira e outros materiais simples em miniaturas detalhadas. O documentário apresenta seu processo de criação, a relação com o Mercado do Artesanato e a dedicação a um ofício desenvolvido ao longo de décadas, registrando uma expressão da cultura popular presente no cotidiano alagoano.

*com curadoria de Larissa Lisboa 

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