O fotógrafo e gestor ambiental conta como as aves o levaram a conhecer de perto a biodiversidade de Alagoas
Por Maryana Carvalho

Há quem olhe para a natureza e veja apenas um cenário cotidiano. Afinal, entre tantas idas e vindas para o trabalho, ônibus lotados e prédios que teimam em tapar a linha do horizonte, esses detalhes acabam ficando em segundo plano e só são percebidos nos momentos de quietude. Para Clarindo Silva, no entanto, essa relação começou muito antes de se tornar parte do seu trabalho como gestor e educador ambiental. Desde criança, ele cresceu entre praias e manguezais, onde seus tios e primos catavam sururu como fonte de renda. Foi nesse contato desde cedo com a natureza que começou a construir uma relação que, anos depois, também estaria presente em seu trabalho e na fotografia.
Foi há nove anos que essa relação ganhou um novo capítulo, quando ele se apaixonou por algo que toca o chão, mas também os céus: as aves. A descoberta aconteceu durante uma visita ao Parque Municipal de Maceió, onde Clarindo teve o primeiro contato com espécies endêmicas e suas cores vibrantes. Na época, ele havia acabado de comprar uma câmera superzoom, ainda dos tempos em que trabalhava com comunicação visual. Foi com ela que começou a registrar as aves por hobby.
Aos poucos, a fotografia foi ganhando espaço na rotina de Clarindo e passou a contribuir também para a ciência cidadã e o registro da biodiversidade alagoana. À medida que sua atuação como gestor ambiental se aprofundou, os registros de aves começaram a se aproximar cada vez mais do trabalho de pesquisa e conservação. E foi justamente em uma dessas saídas que aconteceu uma descoberta importante: ao lado do biólogo e ornitólogo Arthur Andrade, Clarindo fotografou uma espécie recém-descrita, o surucuá-de-murici (Trogon muriciensis).
Nesta entrevista, Clarindo fala sobre a biodiversidade de Alagoas, os impactos da ação humana sobre os ambientes naturais e como a fotografia se tornou uma ferramenta para registrar e conhecer melhor a fauna do estado. A partir das experiências em campo, ele também conta como passou a perceber com mais atenção as aves, os fragmentos de Mata Atlântica e a relação entre conservação, pesquisa e educação ambiental.
R.A: Como a fotografia entrou na sua vida e em que momento você percebeu que ela poderia caminhar junto com a sua atuação na área ambiental?
Clarindo Silva: Desde criança, sempre estive em contato direto com a natureza. Cresci caminhando pela praia e visitando familiares na região lagunar, onde meus tios e primos catavam sururu como fonte de renda, e eu convivia com os manguezais. As aves sempre chamaram a minha atenção, mesmo morando em áreas urbanas. No entanto, minha trajetória ganhou um novo foco em 2017, quando visitei o Parque Municipal de Maceió pela primeira vez. Na época, eu trabalhava como signmaker em uma empresa de comunicação visual e havia adquirido uma câmera fotográfica com superzoom.
Foi lá que tive meu primeiro contato marcante com as aves endêmicas e suas cores vibrantes, especialmente com o pintor-verdadeiro. Desde então, quando me tornei gestor ambiental, as experiências que vivi com a natureza me ajudaram bastante a estudá-la e a buscar as melhores formas de compreender aquilo que eu via. Antes, eu observava como as pessoas viviam e retiravam alimentos da natureza e das lagoas e como já conviviam com a poluição como algo comum. Hoje, como gestor e educador ambiental, a gente passa a mostrar para as pessoas que os resíduos podem ser segregados e reciclados e que a poluição não precisa fazer parte do nosso convívio.

R.A: Você trabalha com registros da natureza alagoana, especialmente de aves. O que despertou esse interesse específico pela fauna e pela flora do estado?
Clarindo Silva: Durante a pandemia, acabei ficando desempregado. No início do “novo normal”, recebi o convite de um grande amigo, o ornitólogo e pesquisador Hermínio Vilela, para trabalhar como auxiliar de campo pela SAVE Brasil (Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil). Ficávamos semanas inteiras, de sete a dez dias, acampados na Estação Ecológica (ESEC) de Murici, dedicados à conservação e ao monitoramento da choquinha-de-alagoas (Myrmotherula snowi), uma espécie que hoje se encontra criticamente ameaçada de extinção.
Vivenciar essa pesquisa de campo me fez perceber o quanto Alagoas é rica em fauna e flora, mas, infelizmente, ainda pouco explorada. Boa parte dos próprios alagoanos desconhece essa riqueza natural. Foi a partir dessa experiência que decidi o rumo que queria para a minha vida: trabalhar em prol da natureza.
R.A: Você comenta que o que começa como um hobby pode se transformar em uma ferramenta de ciência cidadã. Como esses registros podem contribuir para o trabalho de pesquisadores e biólogos no mapeamento e monitoramento de espécies? Você já registrou alguma espécie ou ocorrência que chamou a atenção de pesquisadores? Como foi essa experiência?
Clarindo Silva: Durante um trabalho de campo como auxiliar, consegui fazer o registro de uma ave ao lado do biólogo e ornitólogo Arthur Andrade. Ele me informou que se tratava de uma nova espécie e que a nossa foto seria de extrema importância: era o surucuá-de-murici (Trogon muriciensis).
Passamos alguns dias apenas ouvindo a vocalização daquele indivíduo, até que o Arthur finalmente o avistou e gravou o canto para o banco de dados, enquanto eu consegui fazer o registro fotográfico. Foi um momento extremamente marcante, principalmente para a ciência, por se tratar de uma ave recém-descrita e que já nasce ameaçada de extinção. O surucuá é exclusivo da Estação Ecológica de Murici e sua população não supera os 90 casais. A minha foto acabou estampando o site de uma matéria sobre a descoberta da espécie.
Esse foi, sem dúvida, um dos momentos mais felizes da minha trajetória. Essa imagem me rendeu diversos contatos e e-mails de observadores de aves e pesquisadores do mundo todo.

R.A: Qual foi o primeiro registro de fauna que fez você perceber que queria seguir fotografando a natureza?
Clarindo Silva: Sem sombra de dúvidas, foi um registro bem simples de um udu-de-coroa-azul (Momotus momota) saindo do ninho. Eu nunca imaginei ver uma ave de 40 a 46 centímetros, com cores tão vibrantes, em Maceió. E, ainda mais, saber que elas fazem ninhos em barreiras e barrancos à beira de rios, que podem chegar a mais de um metro de profundidade e são bastante estreitos.
R.A: Durante suas saídas a campo, que impactos da ação humana, como o avanço imobiliário, o desmatamento e a poluição por resíduos plásticos, você tem percebido nos ambientes que costuma fotografar? Como isso aparece nos seus registros?
Clarindo Silva: Nas saídas de campo, infelizmente, observamos de perto os impactos da ação humana, que vão desde a especulação imobiliária até a poluição ambiental. Um exemplo marcante aconteceu em um local onde registrei uma sanã-carijó (Laterallus albicollis). Hoje, aquela área abriga um condomínio de luxo no litoral sul do estado. Outro contraste que vivi foi o registro de uma ave migratória, a gaivota-de-cabeça-cinza (Chroicocephalus cirrocephalus), em meio à intensa poluição no bairro de Jaraguá, precisamente na foz do Riacho Salgadinho.

R.A: Você já percebeu espécies desaparecendo de determinados locais ou passando a ocupar outros ambientes por causa das mudanças provocadas pelo ser humano?
Clarindo Silva: Sim, é evidente a diminuição da fauna, especialmente de aves, répteis e mamíferos, tanto em áreas urbanas quanto em zonas rurais.
Nos centros urbanos, o avanço da especulação imobiliária tem impulsionado a construção de edifícios cujas fachadas de vidro provocam colisões letais para diversas espécies de aves. Além disso, pequenos remanescentes de Mata Atlântica vêm sendo substituídos por condomínios, mesmo com licenças ambientais.
Já no meio rural e em regiões de transição, os principais fatores são a abertura de estradas e rodovias, obras de interesse público que fragmentam os habitats, o desmatamento associado à expansão da monocultura e a consequente perda de refúgios naturais para a vida silvestre.
R.A: Existe alguma fotografia que tenha um significado especial para você ou que represente um momento importante da sua história com a fotografia de natureza? Se sim, pode contar a história por trás dela?

Clarindo Silva: Com certeza, a jararacuçu-de-murici (Bothrops muriciensis) tem um significado extremamente especial. É considerada uma das serpentes mais raras e ameaçadas do Brasil e ocorre exclusivamente na Estação Ecológica de Murici, ao norte de Maceió, em um fragmento de Mata Atlântica com altitude superior a 400 metros. Ou seja, não existe em nenhuma outra parte do mundo.
Descrita cientificamente em 2001, ela está criticamente em perigo de extinção devido à restrição de seu habitat e à perda contínua de matas nativas. Como atuo no campo com conservação e já conhecia a espécie da região, avistá-la era um verdadeiro sonho profissional. Levei três anos trabalhando com pesquisadores e cientistas até conseguir vê-la e registrá-la. É um animal belíssimo, mas extremamente difícil de ser encontrado, principalmente porque sua coloração oferece uma camuflagem perfeita na serrapilheira, aquela camada de material orgânico que cobre o solo da floresta.
No entanto, a nossa rotina e os treinamentos que recebemos para monitorar ninhos, fauna e a ocorrência de espécies em diferentes áreas da ESEC facilitaram bastante o direcionamento da nossa busca.
R.A: Depois de tantos anos fotografando a natureza e a fauna de Alagoas, o que a fotografia mudou na sua forma de enxergar e se relacionar com a natureza?

Trabalhar com a natureza e conviver com pesquisadores dedicados à ciência e à conservação transforma o nosso olhar. A gente aprende a ver, ouvir e enxergar os mínimos detalhes nos ambientes e nos fragmentos de mata. A troca de experiências com profissionais de várias partes do Brasil e do mundo nos mostra uma conexão global com o meio ambiente e nos ensina a valorizar as pequenas coisas: as aves nas áreas urbanas, as árvores nas praças e até a nossa carência por mais parques públicos.
Hoje, atuando na gestão ambiental de construção rodoviária, compreendo muito bem o equilíbrio necessário da nossa profissão. Sabemos que uma rodovia é uma obra de infraestrutura essencial para o direito de ir e vir, melhorando o tráfego, a logística, a economia local e gerando empregos. Por outro lado, entendemos os impactos negativos que ela pode causar e que precisam ser mitigados.
Nossa missão diária envolve ações práticas, como a segregação de resíduos no trecho em obras e no canteiro central, a redução do atropelamento de fauna e o acompanhamento rigoroso da supressão vegetal em áreas de impacto direto, sempre respaldadas pelas devidas autorizações. Na sequência, aplicamos o PRAD, o Plano de Recuperação de Áreas Degradadas, que consiste no replantio de árvores em locais devidamente estudados como compensação ambiental.
Todo esse monitoramento e os dados gerados são reportados aos órgãos ambientais competentes. Além disso, fazemos questão de levar esse conhecimento para dentro e para fora do canteiro de obras, seja por meio do DDSMS (Diálogo Diário de Segurança, Meio Ambiente e Saúde) com os colaboradores ou através de palestras educativas nas comunidades vizinhas e nas escolas da região onde as estradas estão sendo construídas.