Homenageado no Festival Primavera Cultural, em Arapiraca, o artista relembra sua infância sob a lona e os 68 anos de dedicação ao circo-teatro

“O circo, o picadeiro e o circo-teatro nunca irão se acabar enquanto houver o sorriso de uma criança.” A frase de Teófanes Silveira encerra a entrevista concedida à Revista Alagoana e diz muito sobre a relação do artista com o universo circense. Há quase uma vida inteira, ele dá vida ao palhaço Biribinha, personagem que acompanha seus 75 anos de idade e 68 de carreira. Mas, a verdade é que ele vive o circo desde o seu primeiro segundo de vida.
Ele nasceu literalmente debaixo de uma lona, em 1951, na cidade de Jequié, na Bahia. Ao relembrar as histórias contadas por sua mãe, Espedita Silveira, Teófanes descreve o calor sufocante dentro da barraca no momento de seu nascimento. O parto foi feito por uma amiga da família, que também era proprietária do circo. Naquela época, as companhias ainda viajavam com animais e, poucas horas depois de trazê-lo ao mundo, a parteira precisou realizar outro parto: o filhote de uma leoa.
O nascimento de Jumbo acabou criando uma história curiosa na infância de Teófanes. Os dois cresceram juntos e chegaram a dividir o mesmo espaço na barraca dos pais do artista. “O leãozinho, até um ano, é como se fosse um gato de casa. Então, um animal doméstico. Com um ano, por instinto, ele começa a machucar a gente. E aí separaram os dois. Foi um para a jaula e outro para o berço”, conta.
Teófanes ainda brinca com a própria história: “Eu costumo dizer que tenho dúvidas se realmente fui para o berço. Porque, nesse país, você sabe que, para a gente ser artista, tem que ser fera. Tem que ser fera! Se não, não chega aos 75 anos como eu cheguei, com 68 de carreira e ainda em plena atividade”.
A primeira cena de Teófanes e início do palhaço Biribinha

Até os sete anos de idade, Teófanes viveu de cidade em cidade com os pais, acompanhando a rotina do circo e assistindo às apresentações da família. Foi em 1958, quando chegaram ao Rio de Janeiro, que sua relação com o palco começou a mudar. Naquele ano, seu pai, dramaturgo e autor de 26 peças teatrais, decidiu adaptar para o circo-teatro o filme espanhol Marcelino Pão e Vinho, que fazia sucesso na época. Ao perceber a semelhança física entre o protagonista e Teófanes, escolheu o filho para interpretar o personagem na adaptação.
“E o papai disse: ‘Presta atenção nesse filme, porque você vai fazer esse papel’. Até então, eu nunca tinha entrado no picadeiro, nem subido ao palco. Depois que assisti ao filme, meu pai fez a adaptação, preparamos tudo, ensaiei e estreei como Marcelino. Ele gostou muito da minha atuação e, ainda naquela cidade, me convidou para fazer um contraponto cômico em um melodrama de uma autora chamada Gilda de Abreu, intitulado Coração Materno.”
A reação do público não passou despercebida por Nelson, também conhecido como Biriba. Ao ver o filho arrancar risadas em meio às cenas mais sérias do melodrama, o pai percebeu que havia ali uma habilidade que merecia atenção. Depois da apresentação, chamou Teófanes para uma conversa e compartilhou ensinamentos que o artista carrega até hoje.
“Eu fugia do texto original para tornar engraçado aquilo que era sério. Papai amou e me disse: ‘Netinho, você fez a plateia chorar no drama e rir no melodrama. Quem faz rir e faz chorar tem que ser palhaço’”, relembra. Naquele dia, Nelson também começou a ensinar ao filho os três tempos do humor no circo: a pergunta do mestre de cena, a resposta do palhaço e a gargalhada do público.

A estreia oficial como palhaço e o batismo do personagem aconteceram logo em seguida, durante uma matinê escolar. Já maquiado para entrar em cena, o menino ainda não tinha um nome artístico. A solução veio de um colega de elenco, o caipira Zé Lapada: “Bota Biribinha! Se o pai é Biriba e ele é pequenininho, o diminutivo é Biribinha”, conta Teófanes. Envergonhado, Teófanes foi literalmente empurrado pelo pai para o palco. Tropeçou, ralou os joelhos e, em pânico diante de tantos olhares, começou a chorar.
“Tentei enxugar as lágrimas e sujei o rosto todo, misturando vermelho, preto e branco. Quanto mais eu chorava, mais as crianças riam de mim”, relembra. Sem perceber, o garoto vivenciava na prática a essência de sua nova profissão. “Ali estava acontecendo o processo verdadeiro e natural do palhaço se expor ao ridículo para fazer as pessoas sorrirem. Foi lindo, porque era o choro do palhaço e a gargalhada do público.”
A família tradicional circense

Teófanes fala dos pais com admiração. A mãe, pernambucana de Serra Talhada, veio da roça e encontrou no picadeiro a vocação como cantora e atriz admiradissima. Já seu pai cursava o terceiro ano de Direito quando decidiu abandonar a faculdade para seguir a vida no circo. Foi debaixo da lona que ele e os irmãos, todos artistas, passaram a infância, dividindo uma barraca com o chão como piso e viajando de uma cidade a outra. Ao recordar esse período, Teófanes destaca o quanto aprendeu com os pais e diz que gostaria que mais pessoas tivessem tido a mesma oportunidade.
A vida circense, porém, também trouxe experiências difíceis. Por viverem à margem das cidades, muitas vezes instalados longe das áreas centrais, os artistas acabavam vistos com desconfiança e tratados como marginais. “O circense sempre foi colocado à margem da sociedade. Nunca num terreno central, mas num terreno à distância”, conta. Apesar disso, a família seguia de cidade em cidade levando sua arte ao público, com o desejo de informar e até transformar os corações das pessoas.
“O privilégio é que hoje eu, meus irmãos e minhas irmãs podemos abrir a boca e dizer que não existiria escola melhor. Já que não tivemos a oportunidade de sentar nos bancos das escolas convencionais, a faculdade da vida nos preparou para tudo. Principalmente para amar, reconhecer, respeitar e entender melhor por que estamos aqui, por que somos artistas e por que fomos escolhidos para defender essa bandeira da arte e da cultura, levando essa arte às pessoas”, conta.

Um dos momentos mais difíceis de sua vida e carreira aconteceu em 1977, com a morte do pai. Teófanes já estava maquiado e prestes a entrar em cena, no Circo Mágico Nelson, quando recebeu a notícia. Mesmo abalado, decidiu cumprir o compromisso com o público e apresentou o espetáculo até o fim. Só depois revelou aos presentes o que havia acontecido. “É muito antagônico você estar de palhaço, ter um circo lotado com uma plateia te esperando e entrar para fingir que nada daquilo está acontecendo”, relembra.
Em 1972, ainda antes da morte do pai, Teófanes chegou a Alagoas com o Circo Mágico e foi em Arapiraca que conheceu a mulher com quem se casou e teve os quatro primeiros filhos. A família acabou sendo o motivo para permanecer na cidade, mesmo sem abandonar a vida no circo. “Essa foi a razão de ficar, de estar em Arapiraca. Acabei ficando assim, morando, viajava, ia, voltava, mas sempre tive uma casa para morar na cidade”, conta. Como a esposa não se adaptou às viagens constantes, preferiu ficar em Arapiraca para criar os filhos, enquanto Teófanes seguia com o circo e retornava sempre que podia.
Em 1985, ele decidiu baixar as lonas do Circo Mágico Nelson e interromper as viagens. A decisão, porém, durou pouco. Longe do picadeiro, percebeu que ainda queria continuar na estrada e, com a ajuda do sogro, montou uma nova lona. A família permanecia em Arapiraca, enquanto ele voltava a percorrer outras cidades com o espetáculo. “Eu baixei a lona do Circo Mágico Nelson e, pouco tempo depois, não me vi mais fora do circo. Tive que ficar. Fiz uma nova lona, ajudado pelo meu sogro, e saí itinerando outra vez. A família ficava na cidade e eu saía pelo meio do mundo”, relembra.
Entre as viagens e as visitas à família, Teófanes acabou construindo sua vida em Arapiraca. Comprou uma casa, criou raízes e passou a ser conhecido como o palhaço Biribinha de Alagoas. Na cidade, desenvolveu um trabalho pioneiro ao levar o teatro às escolas, formou artistas que hoje atuam em diferentes regiões do país e contribuiu para o fortalecimento da cultura local. O reconhecimento veio também por meio de títulos como Cidadão Honorário de Arapiraca, Mestre do Patrimônio Vivo de Alagoas e Mestre das Artes Brasileiras, concedido pela FUNARTE.
“Ser Patrimônio Vivo do Estado de Alagoas fez com que meu trabalho também recebesse reconhecimento nacional. Fui reconhecido como Mestre das Artes Brasileiras, na categoria Circo e Teatro, e recebi o prêmio no Teatro Dulcina, no Rio de Janeiro, das mãos da ministra Margareth Menezes e de Maria Marighella, que era, na época, secretária da Funarte e minha amiga desde 2001. Foi uma honra muito grande receber esse reconhecimento delas.”
O carinho por Alagoas também aparece quando Teófanes fala sobre a cidade que escolheu para viver. “Eu tenho toda uma vida dedicada a esta terra, ao ponto de dizer que a minha terra é a mais bonita do mundo”, afirma. Esse sentimento o acompanhou até nas viagens pela Europa, onde levou o nome de Arapiraca por meio de seus espetáculos. “Quando os jornais chegavam às minhas mãos, eu não sabia o que estava escrito, mas reconhecia o nome Arapiraca, que é um nome original. Eu sabia ler esse nome e via que ali estava o reconhecimento de uma sociedade europeia ao trabalho do palhaço Biribinha e de seus filhos, quando saímos daqui”.
Assim como seus pais foram seus primeiros mestres, Teófanes também assumiu esse papel na vida dos nove filhos. Alguns seguiram o caminho artístico. Helga Guedes, por exemplo, é contadora de histórias e trabalha na preservação da memória e da arte da família Silveira, cuidando do acervo que o pai guarda desde os 12 anos. Atualmente, ela também atua como pesquisadora e coordenadora do programa Sou de Circo, no Centro de Memória do Circo, e já foi entrevistada pela Revista Alagoana.

Nelson, outro filho, é cantor e músico, enquanto Júnior segue os passos do pai na palhaçaria. Daniela também tem talento para a música, embora tenha escolhido outra profissão. Já a caçula, Malu, tem 10 anos e já está experimentando o picadeiro e ajuda o pai na sonoplastia dos espetáculos. Ao falar sobre as escolhas dos filhos, Teófanes resume: “Todos eles eu dei a candeia acesa e os dois caminhos para escolher”.
O Festival Primavera Cultural, de Arapiraca, homenageia Teófanes Silveira

Para além das cortinas, Teófanes também usa as mãos para dar vida a outros personagens. Foi assim que Bulba, criado por Ingrit Lima, o felino místico e mascote do Festival Primavera Cultural, ganhou corpo. Um artista plástico de Arapiraca esculpiu a cabeça, enquanto Biribinha ficou responsável pelo restante do trabalho, incluindo a decoração e os detalhes do personagem.
Com o passar das edições, o festival cresceu e Bulba também ganhou novas proporções, passando a percorrer diferentes cidades alagoanas em seus cortejos. Para este ano, a organização convidou Teófanes para criar uma nova roupagem para o mascote. O trabalho contou ainda com a participação do arquiteto e diretor de arte Eli Anderson, que trouxe ideias para aproximar o universo circense dos mistérios que envolvem o personagem. A proposta acabou se estendendo à própria estrutura do festival, que nesta edição também presta homenagem aos 68 anos de carreira do Palhaço Biribinha.
Teófanes ficou feliz com o reconhecimento e fez questão de agradecer às pessoas envolvidas na homenagem. “Eu agradeci muito, porque nada melhor do que reconhecimento. Nada melhor”, contou. Ao falar sobre o festival, também lembrou de Eli Anderson, Leonardo e dos jovens que se mobilizaram para realizar o projeto.
Os proximos passos de Teófanes, o palhaço Biribinha

Com 68 anos de carreira e 75 de vida, Teófanes não tem a menor intenção de parar. Pelo contrário, segue roteirizando e desenvolvendo novas ideias. Um de seus projetos mais afetuosos para o futuro próximo é um espetáculo inédito à sua mãe, Espedita Silveira. Ele conta que, devido à cultura patriarcal da época, ela foi impedida de expor seu verdadeiro talento cômico no picadeiro. “Diziam que isso não competia à mulher, que mulher não era engraçada. Eu batia de frente com meu pai, porque minha mãe era maravilhosa. Como atriz, cantora e sambista, ela ganhou o nome artístico de Ditinha Silveira do Diário de Pernambuco”, relembra.
Por isso, Teófanes decidiu reparar essa dívida histórica. Mesmo após o falecimento da mãe, ele a consagrou com o título que lhe foi negado em vida: Palhaça Ditinha. Agora, o mestre trabalha na fase de roteirização da peça Ditinha, a palhaça que queria nascer. “No final do espetáculo, eu quero que ela venha para a cena. Ela nasce. Vai ser lindo, vai ser maravilhoso. Como um dos defensores da mulher palhaça no Brasil, eu me vi nessa obrigação de batizar a Palhaça Ditinha e de contribuir também com as minhas colegas e amigas palhaças desse país”, orgulha-se.
E ainda neste ano, Teófanes tem outro espetáculo com estreia prevista. Intitulado Um Palhaço Velho para um Circo Novo, o trabalho tem autoria de Rafael Viana e William Santana, que também assinam a direção e a dramaturgia. A montagem surgiu depois que o artista começou a enfrentar dificuldades para conseguir projetos por causa da idade. Com o desenvolvimento da proposta, porém, a experiência acumulada ao longo de quase sete décadas de carreira passou a ocupar outro lugar na criação.

Outro espetáculo que merece destaque é Eu Sem Você Não Sou Ninguém, em que Teófanes resolve fazer uma experiência com Biribinha: colocar o próprio palhaço para contracenar com ele. Para isso, criou uma versão em boneco do personagem e assumiu o papel do Branco — que, nesse caso, é uma versão do próprio Teófanes —, acompanhando suas ações em cena. A brincadeira ganha outros rumos quando Biribinha começa a escapar do controle e passa a comandar a situação. A ideia, como conta o mestre, veio da vontade de descobrir como seria ver seu palhaço agindo livremente, sem precisar conduzi-lo o tempo todo.
Seu Teófanes encerra a entrevista com a mesma poesia que usa para baixar as cortinas de seus espetáculos:
“E assim o circo continua, e continuará sempre vivo para alegrar aquele que acredita no sonho e na fantasia. Na realidade do cotidiano, ainda se tem a esperança do brilho e das luzes. A descontração de um malabarista, o salto de um trapezista, a ilusão do mágico e as brincadeiras do palhaço fazem renascer a criança que vive dentro de cada um de nós – que sonha, brinca e acredita no valor das pequenas coisas. O circo, o picadeiro e o circo-teatro nunca irão se acabar enquanto houver o sorriso de uma criança. Por isso, eu peço a você, à sua família e a todos que lerem essa entrevista depois: nunca deixem de sorrir. Beijo no coração”.