Giro Musical: Pirralho no nome, grande na arte

De um apelido da infância, à uma referência ao modernista Oswald de Andrade: assim surgiu o nome artístico de Vitor Lucas Dias Barbosa, o Vitor Pirralho. O artista, que atua na cena alagoana desde 1999, tem seis álbuns, cinco EPs e alguns singles lançados.

Poeta, rapper e professor, ele versa em suas obras sobre o movimento antropofágico, literatura brasileira, a presença afro-indígena, o colonialismo e a formação do Brasil. E foi o entrevistado de outubro do Giro Musical. Confira:

Revista Alagoana: Quem é Vitor Pirralho para além dos palcos, das rimas e do microfone?

Vitor Pirralho: É professor, produtor musical e boêmio por vocação.

Revista Alagoana: Você poderia nos contar um pouco mais do seu processo de composição e produção musical?

Vitor Pirralho: A composição vem de um processo muito variado. Às vezes tenho a ideia de letras, como foi o caso de Refrãos, outras vezes me vem a música primeiro e em cima disso escrevo a letra, não tenho um modo único de criação. Em algumas situações sou contratado para escrever uma música específica e assim vai. Já a produção musical é um processo bem mais direcionado, já que ao produzir as minhas músicas ou outros artistas, já existe uma ideia a ser concretizada, uma forma já definida que quero alcançar. E aí entro num modo de execução pras mixagens e masterizações, ou de direção quando trabalho com alguém que estou produzindo. Uma coisa é certa, sempre começo um trabalho sabendo como ele vai ficar no final de tudo… apesar de brincar dizendo que as mixagens são eternas. (risos)

Revista Alagoana: Você tem músicas em colaboração com Ney Matogrosso. Como começou essa parceria?

Vitor Pirralho: Em 2009, a partir de uma matéria que foi capa do Caderno B da Gazeta. Ney estava em Maceió para uma apresentação e quando leu a matéria se interessou pelo tema do disco Pau-Brasil que estava sendo lançado na época. A Sue Chamusca entrou em contato comigo e fui ao encontro dele. A partir daí o acesso que temos como artistas é muito tranquilo. Ney é um cara muito generoso e está sempre disponível para ouvir uma ideia que levo até ele. Em 2024, gravamos uma música minha chamada Lápis de cor, que já há algum tempo estava tentando tirar do papel mas não encontrava muito apoio pra isso, na época ainda não produzia minhas músicas, mas quando tive uma oportunidade e apresentei ao Ney, ele concordou na hora em fazer a gravação. Foi a primeira vez que pude dirigi-lo também, o que foi uma experiência sem igual. A generosidade está sempre presente e ele aceita elegantemente as orientações que recebe. Depois dessa ainda gravamos Mar ia, que trata das consequências da mineração provocada pela Braskem aqui em Maceió. Enfim, é uma parceria importantíssima pra minha vida musical porque além da oportunidade de interagir com um dos maiores nomes da música brasileira, tenho ele como um apoiador da minha arte.

Revista Alagoana: Inspirado em uma das suas faixas com o Ney, a “Tupi Fusão”, surgiu o livro “Um Brasileiro”. Para você, como foi receber um livro inspirado em seu trabalho?

Vitor Pirralho: Depois que Ney regravou essa música, que estava gravada lá no Pau-Brasil e incluiu no seu show Atento aos Sinais, a artista fluminense Isabela Sultani passou a conhecer meu trabalho, ela é ilustradora e fez a arte desse livro que teve inspiração em Tupi fusão. É muito gratificante testemunhar a expansão e o desdobramento de uma obra de sua autoria. Ela também foi responsável por viabilizar os singles Lápis de cor e Mar ia. Depois, ela ilustrou outro livro, dessa vez com texto meu, somos coautores desse livro infantil sobre o Modernismo, intitulado Liga modernista. Há também o biografema “Vira-lata de Raça”, onde tem um capítulo que sou citado. É sempre uma honra ser lembrado dessa forma, ainda mais quando se trata de literatura. Assim como nesse livro, sou citado em alguns artigos científicos como “CONDENADOS A VIVER DO QUE CANTAR”: o discurso dos/sobre o trabalho de musicistas em Alagoas”, escrito por um amigo e também parceiro de produção Rodrigo San, entre outros artigos de tese ou dissertação. Minha relação com a educação perpassa pela música também.

Revista Alagoana: Na faixa “Dispositivos explosivos / formato físico”, você afirma que, na internet, todos os formatos são suportados, exceto o físico. Considerando que hoje a música circula principalmente pelas plataformas digitais, enquanto os discos físicos proporcionam outras formas de contato com a obra, o que você acredita que se perde nessa mudança na maneira de produzir, distribuir e consumir música?

Vitor Pirralho: O que se perde é o contato com o objeto mesmo. Não temos mais o encarte onde encontrávamos as letras ou a ficha técnica. Não temos mais a chance de ir até uma loja pra ouvir e escolher um disco pra levar ele pra casa, essa experiência foi perdida com o digital. Antes nós podíamos “ter” o disco, hoje em dia nós pagamos pelo acesso e muitas pessoas nem ouvem um disco inteiro. Esse tipo de relação com a música deixa tudo mais superficial, tudo mesmo, tanto a relação do ouvinte com a arte quanto com o próprio artista. Parece que o contato ficou mais desinteressado. Mas é um movimento, não é? E não podemos negar que ele existe. Pra produção ou distribuição tem seu lado positivo porque não dependemos de uma gravadora, o próprio artista pode gerenciar essa etapa. Enfim, lados positivos e lados negativos.

Revista Alagoana: Na faixa Ínterins, você diz que gosta de números ímpares porque é nos intervalos que encontra os pares. Fiquei curiosa sobre essa relação: você pode contar a interpretação por trás desse verso?

Vitor Pirralho: O refrão fala exatamente isso: “gosto de números ímpares porque nos ínterins eu encontro os pares”. É uma brincadeira com a questão do tempo, um tema que é bastante caro aos poetas e que me interessa muito. Música é tempo; a música tem essa ciência matemática dos compassos contados em pares (1, 2, 3, 4). Nesses intervalos você vai sempre encontrando os pares. A brincadeira também se estende à busca por encontrar quem se parece com você, os seus pares. Não à toa, a música traz um sample instrumental do filme “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (Steven Spielberg, anos 70). É a busca pelo contato com o outro — que no filme vem de outro planeta, mas para mim pode representar um par. É como se eu não me considerasse mais parte deste mundo e agora precisasse buscar meus pares fora daqui.

Revista Alagoana: Você compara o álbum aos poemas-pílula modernistas. Quais referências literárias influenciaram a concepção do projeto e como elas aparecem nas escolhas musicais?

Vitor Pirralho: Eu considero esse álbum — composto apenas por refrãos, pedaços e esboços de canções — como um “álbum cápsula”. No Modernismo, os poetas produziam os poemas-pílula, que são poemas rápidos para serem ingeridos em um gole só. Fiz essa comparação: o álbum cápsula aparentemente é mais robusto que uma pílula por ter 18 faixas, mas é consumido em apenas 12 minutos. Está tudo encapsulado ali para ser consumido num gole só. A referência principal é o Modernismo do início do século XX, tanto no Brasil quanto nas vanguardas europeias: a ideia de ruptura, de estar na vanguarda e de tentar sempre inventar, sabendo que nada se cria do zero. É o conceito da antropofagia, a transformação e a ruptura com o que está estabelecido.

Revista Alagoana: Você tem um EP chamado 357, que aborda questões relacionadas à política e à repressão. Considerando o cenário político e social que vivemos hoje, você pode falar um pouco sobre o conceito do trabalho e explicar o significado por trás do título?

Vitor Pirralho: O EP 357 é o meu trabalho mais recente, lançado em 2 de outubro, dois dias antes do primeiro turno das eleições presidenciais. O conceito foi exatamente trazer esse diálogo e debate político. Há 10 anos, em 2016, eu tinha uma banda de rock/rap chamada Efeito Moral, montada no momento do impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Na época, compusemos 10 canções políticas (na linha de bandas como Rage Against the Machine, anti-imperialista e contra os saudosos da ditadura). Para este EP recente, resgatei 3 dessas faixas originais (as faixas 3, 5 e 7) e acrescentei uma faixa de introdução.

O título “357” vem dessas faixas do projeto de 2016. Porém, ao pesquisar a legislação brasileira, descobri que os Artigos 357 do Código Penal e do Código Eleitoral dialogam perfeitamente com a proposta: o Artigo 357 do Código Penal trata da exploração de prestígio/privilégio (crime cometido por muitos parlamentares e autoridades), enquanto o Artigo 357 do Código Eleitoral estabelece o prazo para o Ministério Público oferecer denúncia sobre crime eleitoral. Além disso, brinquei com a numerologia artística e com a ideia de digitar 357 na urna eletrônica para votar no Vitor Pirralho como o “infrator” — aquele que comete a infração de ir contra o engessamento, a pilantragem e a polarização política.

Revista Alagoana: Na faixa “Efeito Moral”, escrita em 2016, durante o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, você diz que “nós somos o efeito moral” e destaca a importância de chegar até as pessoas, conversar e estabelecer um diálogo. Dez anos depois, em um cenário de polarização política e com as eleições presidenciais tão disputadas, como você enxerga essa ideia? Você acredita que o diálogo ainda é um caminho possível para aproximar pessoas com visões políticas diferentes? E qual é o papel da arte nesse processo?

Vitor Pirralho: A faixa “Efeito Moral” funciona como a introdução do EP 357. Ela foi criada a partir do recorte de um discurso real que fiz no palco durante um show em 2016, sobre o qual construí um novo instrumental mantendo os riffs marcantes de guitarra da formação original. O papel da arte é exatamente esse: estabelecer o diálogo e tratar de política sem violência — ou, se houver dureza, que seja estritamente artística, sendo direto, cru e propositivo. A arte precisa dialogar com as pessoas, provocar a reflexão e questionar o que está engessado e prejudicial na sociedade.

Revista Alagoana: Existe alguma música que você acredita ser a mais “querida” do público?

Vitor Pirralho: Considerando toda a minha trajetória, acredito que existem duas queridinhas do público: “Dialeto” (do meu primeiro álbum, cantada inteiramente no dialeto e sotaque alagoano/maceioense) e “Tupi Fusão” (do segundo álbum, que foi gravada por Ney Matogrosso e incluída em sua turnê). Ambas aparecem constantemente entre as mais ouvidas no meu catálogo.

Revista Alagoana: Você citou que está mais inserido no processo de produção, e não só das suas músicas, mas também de outros artistas. Para você, como é esse processo?

Vitor Pirralho: Sempre fui apaixonado por produção musical. Mesmo antes de produzir diretamente meus trabalhos, eu acompanhava os produtores em estúdio, observando cada detalhe e dando direções sobre arranjos, timbres, entradas de refrão e texturas. Recentemente, montei meu próprio home studio e fundei nosso selo e produtora oficial com CNPJ. Hoje coloco a mão na massa em todas as etapas: composição, criação de instrumentais, gravação, mixagem e masterização (como fiz nos álbuns Refrãos e 357). Além dos meus projetos, também passei a produzir e dirigir musicalmente trabalhos para outros artistas, o que me traz um enorme prazer criativo.

Revista Alagoana: Como surgiu a ideia de criar o selo musical independente “Janela Capacete”?

Vitor Pirralho: A criação do selo Janela Capacete nasceu da busca por liberdade e independência artística. Anteriormente, dependia do tempo de terceiros para lançar minhas produções, o que muitas vezes me fazia perder o timing das lançamentos. Com a produtora e o estúdio próprio, ganhei autonomia para lançar meus trabalhos no momento em que as ideias surgem, além de oferecer essa estrutura profissional para outros artistas — seja em pré-produção, consultoria, gravação ou finalização de mixagem e masterização. O selo veio para estar totalmente a serviço da boa música.

Revista Alagoana: O que mais te encanta na música e qual o papel que a música tem na sua vida?

Vitor Pirralho: Essas são perguntas profundamente humanas cujas respostas passam inevitavelmente pela subjetividade. O que me encanta na música — e na arte de forma geral, incluindo a literatura e o cinema — é justamente a capacidade de suprir a necessidade de expressão que todos nós temos. A música é a minha voz e a forma como me coloco no mundo. O papel principal da arte na minha vida é a possibilidade de realizar ideias e deixar um legado histórico. Como citou o poeta brasileiro Souza Andrade ao apresentar sua obra (dizendo que a incompreensão do presente é uma pena para quem produziu antes do tempo): o importante para o artista é criar com verdade no presente e deixar a sua contribuição registrada para a posteridade.

Revista Alagoana: O que o público pode esperar de novidades daqui para frente?

Vitor Pirralho: O público pode esperar muito conteúdo novo! Estou em uma fase de intensa efervescência criativa — cerca de metade de tudo o que produzi em toda a minha carreira foi lançado nos últimos dois anos. A independência do selo me deixou artisticamente mais dinâmico e ansioso para concretizar projetos rapidamente.

Já posso anunciar o próximo lançamento: um projeto especial em homenagem aos 30 anos do álbum Afrociberdelia, de Chico Science & Nação Zumbi — um disco e um artista que me influenciaram profundamente e continuam moldando minha visão de mundo e minha forma de compor.

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