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“A coisa ficou preta”: do ditado preconceituoso à arte urbana em Maceió

Atualizado: 7 de dez. de 2023

Texto de Gabriely Castelo 

Ressignificação. No jargão coloquial, “A coisa ficou preta” é uma expressão racista que indica que algo deu errado, associado a pessoas negras. O Artista Gleyson Borges transformou essa sentença com um projeto iniciado em 2018. Através de lambe-lambes aplicados nos muros, a arte afrocentrada cria uma teia de empoderamento e inspiração para a luta contra o racismo em Maceió.

Embora tenha conquistado grande popularidade nas redes sociais, com centenas de reações e compartilhamentos, a arte urbana ainda enfrenta a marginalização. Um problema crucial neste processo, para Gleyson, é a dominância do tradicionalismo na cidade. Ele compartilha que, apesar de não ter enfrentado situações problemáticas diretamente, algumas interações com transeuntes o deixaram cauteloso e alerta.

“Um dos maiores desafios é a percepção da sociedade sobre a arte urbana, ainda vista por alguns como vandalismo. O ato de sair para colar, especialmente com uma mensagem que pode incomodar, me mantém sempre vigilante, atento ao ambiente. Eu escolho cuidadosamente os locais, horários e técnicas de colagem, pois sempre há um risco”, revela.

Os lambe-lambes, pôsteres colados em muros, são acessíveis e de baixo custo, atraindo olhares e se integrando à paisagem urbana. Sua arte é instantânea. Não é como o grafite, que fica até a parede ser pintada novamente, é parte da paisagem, pois se transformam com o tempo, enriquecendo a cidade em constante mudança.

“A natureza da minha arte está conectada à cidade, um organismo vivo. Meus lambe-lambes vão mudar, desaparecer, ser substituídos. Faço o melhor para que durem, mas essa é a essência dessa arte“, descreve.

Sua obra é influenciada por outros artistas, especialmente a música, fundamental para sua identidade negra. A expressão “A Coisa Ficou Preta” é citada em letras de rap, transformando o dito em algo positivo, como é o caso do Rincon Sapiência.

“Eu acho sensacional o impacto que ela [a música] teve na minha vida, principalmente em relação a minha negritude. Foi algo essencial para mim e é uma das minhas principais influências. […] Até o pseudônimo “A Coisa Ficou Preta” é algo que é citado em não só uma, mas em algumas letras de rap como um espaço de ressignificação, de levar essa expressão como um sinônimo de uma coisa boa. Então é uma coisa que atravessa o meu trabalho porque me atravessa e uma coisa não está separada da outra”, explica o artista.

Com mais de 48 mil seguidores no Instagram, Borges vê as redes sociais como aliadas importantes para amplificar sua mensagem, transcendendo barreiras geográficas.

“A arte tem uma limitação geográfica. Porque eu estou colando numa parede e aquela parede não vai sair dali. E com a internet eu consigo amplificar isso para outras pessoas que não passam por aquela rua, que não passam por aquela parede. Isso pra mim é sensacional, me fez alcançar muita gente, e até, enfim, ter um nível de alcance nacional”, relata.

Uma obra em particular, “Colação”, teve um impacto pessoal significativo. Inspirada na arte de Banksy- artista londrino que pode nunca ter existido, uma história compartilhada por um seguidor emocionou Gleyson, mostrando o impacto profundo de sua arte na vida das pessoas.

Ao compartilhar a história com a Revista Alagoana, o artista comentou que soube do que sua arte pode causar através de uma postagem no instagram.

“Ele postou a foto da obra, um carrossel [estilo de publicação no Instagram] e depois ele postou uma foto dele fazendo a mesma pose. E eu fiquei tipo, como assim? Como isso foi possível? Como isso aconteceu?”, contou com nostalgia e empolgação.

Ele conclui a entrevista finalizando a história, que muito diz sobre a arte e os artistas.

“Às vezes eu acho que não tenho a dimensão do que a minha arte faz, talvez por não ter esse retorno tão frequente. O que eu faço tem significado para as pessoas. E isso é exatamente onde eu quero me mexer, onde eu quero me meter, sabe? Eu quero fazer esse impacto. Eu quero que as pessoas se vejam dessa forma”, finalizou.

Para saber mais e encontrar mais obras de Glayson Borges, basta acessar o site acoisaficoupreta.com.br e conferir todas as obras disponíveis do artista. E para ler mais matérias como esta, clique aqui.

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