Em 11 de março, o Iphan oficializou o saber circense como bem cultural do Brasil, validando a memória transmitida de geração em geração
Por Maryana Carvalho sob supervisão de Bertrand Morais
É muito provável que você já tenha cruzado com um circo por aí. Aquela lona colorida e pontuda que surge no horizonte, seja numa viagem de carro, pela janela do ônibus ou em uma caminhada qualquer pela cidade. Para quem entra, a beleza se revela nos detalhes: malabaristas que fazem parecer fácil o que ninguém consegue, palhaços com seus narizes vermelhos e acrobatas que desafiam o medo em cima de uma corda. Ali dentro, é possivel acreditar no impossível; a ilusão vira realidade e a mágica, enfim, acontece.
Helga Guedes não só viu essa mágica acontecer, como também cresceu nela. Filha de Teófanes Silveira – Patrimônio Vivo de Alagoas e Mestre das Artes Brasileiras –, ela foi criada entre os trailers e o picadeiro da companhia familiar “A Turma do Biribinha”. O nome, que já carrega 38 anos de história, é o mesmo do palhaço lúdico vivido por seu pai.

Para Guedes, essa experiência de viver no limite entre o sonho e o real definiu quem ela se tornou. Hoje, ela leva essa bagagem para São Paulo, onde coordena o programa Sou de Circo no Centro de Memória do Circo, e também para sua terra, como diretora da Escola Municipal de Circo de Arapiraca. Além de gestora, ela se dedica a pesquisar o circo como patrimônio, focando naquilo que não está nos livros: os saberes passados de pai para filho, de geração em geração.
“Mas preciso dizer que antes dos conhecimentos acadêmicos, minhas fontes são os mestres e as mestras do circo, eles são os detentores do conhecimento. Mulheres e homens que se criaram debaixo da lona, sendo criados numa cultura de tradição oral que resiste ao tempo, é a eles que eu recorro para tirar minhas dúvidas, para aprender e às vezes apenas para ouvir, sem interesse de registrar, me deleitar mesmo. Dizem que quando morre um mestre ou mestra do circo, é como se uma biblioteca inteira fosse incendiada, é muito conhecimento, por isso os honro e reverencio”, evidência Guedes.
Helga lembra que, na infância, ser de uma família circense era o seu natural. Ter um pai palhaço, para ela, era como ter um pai político: uma figura pública e conhecida. Foi a partir das histórias contadas por ele que a chave virou: aquelas memórias deixaram de ser apenas lembranças familiares e passaram a ser vistas como histórias únicas de um povo, com saberes e estilos de vida expressos pela arte. “Eu percebi que queria estudar o circo, preservar essa história, já adulta”, confidencia.
Com o tempo, o circo deixou de ser apenas o lúdico da infância. Ela percebeu que, por ser uma arte nômade que se desloca para lugares onde poucas atividades culturais chegam – como povoados, sítios e pequenas cidades –, o circo se destaca. Para muita gente, o picadeiro é o único contato com a arte ao vivo e presencial, de forma acessível.
“Isso traz muitos benefícios para as comunidades, pois a arte é uma necessidade básica dos seres humanos. Arapiraca sempre foi uma cidade que gostou de arte. Era conhecida no mundo do circo como uma ótima ‘praça’, por esse motivo, sempre tínhamos circos na cidade. Essa relação é de ganho para ambas as partes, o circo oferece sua arte, entretenimento, e a cidade oferece o prestígio, através do qual os circenses tiram seu sustento”.
A educação e a memória do circo

Agora, imagine se formar na arte circense. É esse o caminho que Helga propõe na Escola Municipal de Circo de Arapiraca. Ali, alunos e alunas da rede pública municipal seguem um currículo baseado em duas disciplinas: Arte e Educação Física.
“Desenvolvemos um programa que oferece aulas de malabarismo, equilibrismo e acrobacia, além de teatro e história do circo com foco em educação patrimonial”, explica Helga. As turmas frequentam o espaço duas vezes por semana para treinar e praticar. “Por isso somos uma escola. Ao final do ano, fazemos a culminância com a apresentação dos alunos, mostrando o que aprenderam durante o ciclo”, explica Guedes.
Já o Centro de Memória do Circo é uma referência mundial na preservação dessa arte. Com um acervo de aproximadamente 80 mil documentos, a instituição abriga o programa Sou de Circo, voltado para jovens artistas entre 18 e 29 anos. O objetivo é oferecer formação técnica em pesquisa, museologia e história do circo para quem já vive o dia a dia da lona.
“Minha atuação como coordenadora pedagógica é, em conjunto com a gestão da instituição, a gestão do acervo e a associação responsável, definir, organizar e acompanhar a execução dessas formações. Na medida em que os jovens vão recebendo formação, eles vão trabalhando o acervo, cuidando mesmo”.
Circo de tradição familiar como Patrimônio Cultural do Brasil
No último dia 11 de março, o modo de vida das famílias circenses foi oficialmente registrado como Patrimônio Cultural do Brasil. A decisão, tomada pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, reconhece que o circo é um sistema vivo que se espalha por todo o país. O que define essa tradição é a sua itinerância e a força dos núcleos familiares, onde os segredos do picadeiro, as técnicas e as formas de convivência não são aprendidos em manuais, mas passados de boca em boca, de geração em geração.

“Do ponto de vista subjetivo, é um reconhecimento do nosso valor enquanto artistas, mas ainda mais como cidadãos que têm direitos. É como uma reparação por tudo que vivemos de preconceito, desrespeito e desvalorização. Foi um grande presente, mas não é o suficiente, precisamos que esses benefícios que vem com o reconhecimento, começem a acontecer e alcancem aqueles que vivem há gerações sob a lona do circo”, explica a coordenadora.
As famílias circenses não estão isoladas da estrutura de uma sociedade ainda marcada pelo patriarcado. No entanto, Helga observa uma diferença fundamental que coloca o circo em uma posição de vanguarda: as mulheres sempre trabalharam “fora de casa”.
Enquanto as mulheres das cidades eram historicamente restritas ao ambiente doméstico e muitas vezes invisibilizadas, as artistas de circo já ocupavam o centro do picadeiro. Elas eram o destaque, seja em apresentações solo ou liderando trupes. Para a pesquisadora, o fato de essas mulheres serem profissionais em uma época em que o espaço feminino era o lar diz muito sobre a modernidade da lona. “Ainda assim, as mulheres têm muito o que conquistar, tanto nos circos quanto nas cidades”, pondera Helga.
Questionada sobre como mantém vivo o legado do palhaço Biribinha e a resistência do circo em Arapiraca, Helga explica que seu papel vai além de honrar o pai; trata-se de preservar a história dos avós e das gerações que virão. Para ela, a pesquisa e a gestão são ferramentas para fortalecer a memória de todas as famílias que vivem da arte itinerante.
“Acredito que meu trabalho, assim como o de tantos pesquisadores, contribui para o legado das famílias circenses como um todo. Meu maior desejo é que as pessoas entendam e conheçam o circo por sua história de arte e de luta”, afirma Helga.
O reconhecimento do Iphan, no entanto, é visto por Helga como um ponto de partida para ações práticas. Para ela, o título só terá efeito se houver mobilização. “Precisamos fazer a nossa parte: informar as autoridades sobre esse reconhecimento e exigir a criação de leis que apoiem o circo e as famílias que nele vivem”, afirma.

Essa visão política está ligada diretamente à sua trajetória. Para Helga, o circo é definido por vivências que misturam o trabalho artístico com o cotidiano familiar. Ela recorda as apresentações do pai, tanto as piadas do palhaço quanto o realismo dos dramas no palco, como partes fundamentais de sua formação.
“Tenho lembranças de dormir numa barraca e sentir aquele friozinho de manhãzinha, da brincadeira livre e do convívio com os familiares que estavam junto”, conta. Para a pesquisadora, são essas experiências que resumem o que o circo representa: “Lindas lembranças que só uma criança circense pode ter”.
Ao preservar essa memória, Helga mantém sua luta para que outras crianças também tenham o direito de crescer sob a proteção de uma lona colorida, garantindo que a história dessa arte e de sua gente continue sendo escrita.