Conheça Arthur Fernandes, fotógrafo que registra política, cotidiano e eventos em Alagoas

Há 11 anos trabalhando com fotografia, profissional alagoano atua em eventos políticos, sociais e registros do cotidiano

“A beleza das coisas e o poder de eternizá-las, de evidenciá-las”. É dessa forma que Arthur Fernandes define a relação com a fotografia. Natural de Arapiraca, no interior de Alagoas, e crescido em Olho D’Água das Flores, o fotógrafo de 29 anos começou a registrar imagens ainda com o celular, fotografando paisagens e situações que despertavam sua atenção.

“Dias e dias” em Olho d’Água das Flores. Foto: Arthur Fernandes

O interesse por essa arte cresceu quando passou a fotografar pessoas e recebeu retorno positivo sobre seus registros. Em 2014, teve o primeiro contato com uma câmera DSLR e iniciou um processo de estudo sobre técnicas fotográficas. No ano seguinte, com apoio da família, adquiriu sua primeira câmera usada e começou a realizar pequenos trabalhos profissionais.

Há 11 anos atuando na área, Arthur trabalha com diferentes segmentos da fotografia, incluindo registros políticos e cenas do cotidiano. Nesta entrevista, ele fala sobre o início da carreira, a relação com a fotografia e a atuação como homem trans em espaços de produção visual em Alagoas.

R.A: Antes de ter sua primeira câmera, você já registrava tudo o que chamava sua atenção com o celular. O que despertou essa vontade de fotografar naquele período? Em que momento isso deixou de ser apenas uma curiosidade e virou uma possibilidade de carreira?

Arthur Fernandes: A beleza das coisas e o poder de eternizá-las, de evidenciá-las. Quando ganhei minha primeira câmera, passei a fotografar pessoas e elas gostaram das fotos.

R.A: Arthur, você nasceu em Arapiraca e cresceu em Olho D’Água das Flores. Olhando para trás, o que chamava a sua atenção no cotidiano da cidade naquela época e que ainda hoje aparece no seu jeito de fotografar?

Arthur Fernandes: A forma como as coisas se repetem e, mesmo assim, você pode registrá-las de um jeito diferente.

Foto: Arthur Fernandes

R.A: Na fotografia política, os eventos costumam ser muito controlados, cheios de protocolos e pautados para gerar a “imagem oficial”. Como é o seu método para antecipar uma cena relevante e se posicionar no lugar certo antes que ela aconteça?

Arthur Fernandes: Estar sempre muito atento. A experiência faz com que você antecipe alguns momentos, principalmente quando já conhece os políticos para quem trabalha há anos. Eu sempre busco fotografar primeiro as situações protocolares. Até em eventos a céu aberto, que são mais imprevisíveis, procuro garantir esses registros. Depois disso, tenho a segurança de que terei tempo para tentar registrar algo novo, mais espontâneo, e buscar inovar.

R.A: Você atua em áreas bastante diferentes, como a fotografia política – dito anteriormente -mas também casamentos, eventos e ensaios. O que muda na forma como você observa e constrói uma imagem em cada um desses contextos?

Arthur Fernandes: Em cada trabalho, eu me cobro muito para ser a minha melhor versão. Todos esses momentos são importantes, cada um à sua maneira. Acredito que o que muda é entender o propósito e o perfil de cada evento ou cliente a ser fotografado. Por isso, sempre busco reunir o máximo de detalhes possível sobre cada situação.

Da série “amigos”. Foto: Arthur Fernandes

R.A: Ainda hoje, vemos um número reduzido de profissionais trans assinando coberturas fotográficas de destaque no jornalismo, na política e no documentário em Alagoas. Que leitura você faz sobre o lugar que você ocupa hoje nesse cenário e sobre o impacto de diversificar quem são as pessoas que estão atrás da lente narrando visualmente o nosso estado?

Arthur Fernandes: O olhar se constrói muito a partir do que vivemos. Para algumas pessoas, sou referência na fotografia; para outras, sou referência no cenário trans. Entendo a importância de ocupar esses espaços, e não foi fácil. Quando comecei na fotografia, eu ainda estava me entendendo como Arthur e ainda não havia iniciado minha transição. Então, vivi esse processo também no âmbito profissional.

Devo dizer que, para uma cidade pequena como Olho d’Água das Flores, o acolhimento foi muito maior do que as pequenas rejeições que sofri — o que não invalida a dor que senti. Para mim, a fotografia e a minha transição acabaram caminhando e evoluindo juntas.

Em um país que mais mata pessoas trans, é extremamente necessário que tenhamos mais oportunidades de mostrar nossa visão, seja na fotografia ou no jornalismo, transmitindo os fatos também a partir do nosso olhar. Em Alagoas, eu gostaria muito de ver mais protagonismo e reconhecimento, não apenas e unicamente como pessoas trans, mas como pessoas capazes, dignas de terem suas visões e opiniões respeitadas, e não ridicularizadas.

Arthur Fernandes nos bastidores. Foto: Arquivo pessoal.

R.A: Ao longo do seu trabalho como fotógrafo, existe alguma foto que esteja ligada a uma história especial e que tenha ficado na sua memória? Se sim, pode contar qual é essa foto e a história por trás dela?

Arthur Fernandes: Minha avó, com certeza. Em dezembro de 2021, resolvi registrar uma cena que a vejo fazer desde que me entendo por gente: minha vó Zefinha catando feijão.

Fiz as fotos. Mesmo ficando com vergonha, ela aceitou. Depois, saí para revelar as imagens e procurei um conjunto de quadros bem bonito para presenteá-la. Ela amou, e as fotos continuam até hoje na parede da casa dela.

Foto: Arthur Fernandes

R.A: O que você espera que as pessoas sintam ao ver suas fotografias?

Arthur Fernandes: Conforto e curiosidade.

R.A: Quais são os próximos passos ou projetos que pretende desenvolver nos próximos anos?

Arthur Fernandes: Ao longo dos anos, pensei em algumas possibilidades. Tenho muita vontade de lançar um livro fotográfico em preto e branco. Sebastião Salgado é uma grande inspiração para mim, embora eu ainda não saiba ao certo qual será o tema. Também tenho muita vontade de desenvolver algum projeto voltado para a comunidade trans.

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