Por Luís Laércio Gerônimo
Não é recente a confusão que paira sobre a figura de Maria Madalena. Ao longo dos séculos, construiu-se em torno dela uma narrativa marcada mais por julgamentos morais do que por fidelidade histórica. Uma mancha repetida tantas vezes que acabou sendo tomada como verdade, mesmo sem fundamentos sólidos nos textos bíblicos ou na pesquisa acadêmica contemporânea.
Em determinados momentos da história, Maria Madalena foi confundida e reduzida a uma única personagem: a mulher pecadora. A ela foram atribuídas identidades distintas — a mulher pecadora e anônima que unge os pés de Jesus com perfume (Lucas 7:36-50); a mulher adúltera apresentada para ser apedrejada (João 8:1-11); e até Maria de Betânia, do Evangelho de João (12:3), por também ter lavado os pés de Jesus com perfume.
No entanto, essa fusão de personagens não encontra consenso entre estudiosos. Ela foi fruto de uma deturpação do Papa Gregório I, no século VI da nossa era. Por isso, há fortes indícios de que se tratam de mulheres diferentes, cujas histórias foram indevidamente condensadas em uma só figura feminina.
Maria Madalena, ou Maria de Magdala, é apresentada nos Evangelhos como uma mulher de posses, independente e profundamente comprometida com o ministério de Jesus. Ela é mencionada por Lucas (8:1-3) como sendo da Galileia e como alguém de quem Jesus expulsou sete espíritos (possivelmente doenças). Foi seguidora fiel, esteve presente nos momentos mais cruciais — inclusive na crucificação — e, segundo os relatos, foi a primeira testemunha da ressurreição. Ainda assim, seu protagonismo foi gradualmente silenciado, substituído por uma imagem marcada pelo estigma do pecado.
Maria de Betânia, que lavou os pés de Jesus com um perfume caríssimo (equivalente a quase um ano de trabalho), pertence a outro contexto, outra localidade, outra história. Ela é irmã de Lázaro e Marta, e morava na aldeia de Betânia, próxima de Jerusalém.
Já a chamada “mulher pecadora” do vaso de alabastro (perfume caro) permanece anônima, sem nome e sem origem definida. A associação automática dessas mulheres revela menos sobre elas e mais sobre uma tradição que, historicamente, teve dificuldade em lidar com mulheres fortes, autônomas e espiritualmente relevantes.
Em 1969, sob o pontificado do Papa Paulo VI, a Igreja Católica admitiu oficialmente o erro de identificação dessas mulheres. O ato de reparação foi ampliado e reafirmado em 2016, no papado de Jorge Mario Bergoglio (Papa Francisco).
Apesar da retratação da Igreja em relação a Maria Madalena, a cultura popular continuou a insistir na narrativa que a associa à figura da mulher pecadora. Isso aparece, por exemplo, em produções artísticas amplamente difundidas, como a canção Jesus e Madalena, interpretada pelo cantor paraibano Fernando Lélis na década de 1970, que ajudou a reforçar o imaginário construído ao longo dos séculos por leituras equivocadas e pouco rigor histórico.
Revisitar a figura de Maria Madalena é, portanto, um exercício de justiça histórica e também de reflexão contemporânea. Questionar as narrativas herdadas não diminui a fé; ao contrário, amplia a compreensão e devolve dignidade àquelas que foram distorcidas pelo peso do tempo, da cultura e do preconceito. Talvez Maria Madalena nunca tenha sido quem disseram que ela era — e talvez seja exatamente isso que a torne tão relevante ainda hoje.
“Que esta reflexão alcance o leitor como um chamado ao cuidado: antes de repetir narrativas prontas, vale perguntar de onde elas vêm, a quem servem e se realmente resistem à verdade. Nem tudo o que o tempo consagrou merece ser mantido sem questionamento.”
Sobre o autor
Luís Laércio Gerônimo, é natural de Pão de Açúcar-AL, graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe. Possui pós-graduação na área das Ciências Humanas, em Filosofia, História do Brasil, Teologia e Gestão Pública. Mestre e doutorando em Ciências da Educação pela Universidade Autónoma de Assunção, no Paraguai.
