Romance alagoano coloca ciência e saber ribeirinho diante dos impactos do desenvolvimento

Em O Rio Não Esquece, Gabriel Gomes Barros Souza acompanha a trajetória de um jovem pescador que deixa a comunidade para estudar Engenharia Química e buscar respostas para a ameaça ao rio

Antes mesmo de conhecer conceitos científicos, Benício aprendeu com a própria vida a reconhecer a importância do rio. Jovem pescador de uma comunidade ribeirinha de Alagoas, ele cresce vendo as águas garantirem alimento, trabalho e identidade para sua família. Essa relação muda quando uma indústria chega à região prometendo empregos e desenvolvimento — mas deixando sinais de que o progresso pode ter um custo alto.

É a partir desse conflito que Gabriel Gomes Barros Souza constrói O Rio Não Esquece, romance publicado pela Editora CAB. A narrativa acompanha Benício diante da transformação de seu território e de sua própria trajetória, marcada pela decisão de estudar Engenharia Química para compreender o problema e tentar encontrar uma saída para sua comunidade.

A princípio, a instalação da indústria comandada por Dr. Becker é recebida com esperança. Em meio à seca e à redução da atividade pesqueira, os empregos prometidos parecem representar uma oportunidade para os moradores. Com o tempo, porém, o cenário muda. O rio perde vida, os peixes desaparecem e surgem problemas de saúde entre os habitantes.

Benício percebe que não basta desconfiar do que está acontecendo. Ele precisa compreender as causas. É quando sua formação acadêmica passa a dialogar diretamente com aquilo que aprendeu vivendo às margens do rio.

Na universidade, o jovem conhece Dr. Fausto, pesquisador especializado em sustentabilidade. A aproximação entre os dois se transforma em uma das principais relações da trama. Fausto oferece a Benício conhecimento científico, enquanto o jovem leva ao pesquisador uma experiência concreta sobre o território e os impactos sentidos pela comunidade.


A parceria também transforma o próprio cientista. Marcado por frustrações profissionais e problemas pessoais, Fausto encontra em Benício uma nova motivação para retomar suas pesquisas. Juntos, eles analisam a contaminação do rio e desenvolvem alternativas para enfrentar o problema, aproximando ciência, conhecimento local e preocupação ambiental. 

O romance também coloca em discussão uma questão que ultrapassa a história de seus personagens: o que acontece quando a promessa de desenvolvimento entra em conflito com a preservação de um território?

Essa discussão ganha uma dimensão especialmente significativa em Alagoas. O enredo dialoga, ainda que não trate diretamente do caso, com debates ambientais provocados pelo episódio da exploração de sal-gema em Maceió pela Braskem. A referência ajuda a aproximar a ficção de uma realidade em que os impactos de uma atividade industrial transformaram profundamente a relação de comunidades com seus territórios.

No livro, entretanto, a questão ambiental não aparece apenas como denúncia. A ciência surge também como possibilidade de transformação. Benício e Fausto desenvolvem uma cianobactéria capaz de auxiliar na purificação do rio e trabalham na criação de polímeros biodegradáveis, buscando reduzir futuros impactos. 

O próprio título da obra está ligado à ideia de transformação. Inspirado na conhecida reflexão de Heráclito sobre o rio e a impossibilidade de permanecer exatamente o mesmo diante do tempo, O Rio Não Esquece acompanha um personagem que sai de sua comunidade em busca de conhecimento e retorna transformado — assim como o próprio rio ao longo da narrativa.

No desfecho, as soluções desenvolvidas pelos protagonistas contribuem para a recuperação das águas, o retorno dos peixes e a melhora da saúde dos moradores. A história de Benício e Fausto ganha repercussão, enquanto parte dos recursos obtidos com suas pesquisas é direcionada para melhorias na comunidade, incluindo acesso à água limpa, educação ambiental e infraestrutura. 

A agenda de divulgação do livro também amplia os debates propostos pela obra, levando o autor para espaços ligados à educação, à preservação ambiental e à engenharia. Entre as atividades estão encontros na Associação Peixe-Boi, em São Miguel dos Milagres, uma conversa sobre sustentabilidade na Pousada Zai Patacho, em Porto de Pedras, e uma atividade com profissionais e colaboradores da área de Engenharia.

O lançamento oficial está marcado para 17 de outubro, na Ilha do Ferro, com sessão de autógrafos.

Mais do que contar a história de um jovem que tenta salvar o rio de sua comunidade, O Rio Não Esquece propõe um encontro entre memória, ciência, território e responsabilidade ambiental — e lembra que, quando uma paisagem muda, as pessoas que dependem dela também são transformadas.

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