Cícero sempre dizia que não tinha medo de nada.
Morava sozinho numa casa simples, dessas de tijolo à vista e telhado baixo, na beira da
estrada que cortava o interior de Pernambuco. Era uma casa pobre, mas honesta — pelo
menos era o que ele pensava antes de perceber que nem tudo ali era deste mundo.
A Primeira Noite — O Cesto de Lixo
Foi numa noite abafada de agosto que tudo começou.
Cícero ouviu um barulho seco na cozinha, como se alguém tivesse chutado algo.
Levantou-se, acendeu a lamparina e viu o cesto de lixo… se mexendo sozinho. Primeiro
achou que fosse rato, mas o cesto andou alguns centímetros, depois virou de lado como
se alguém invisível o empurrasse.
— Ave Maria, que diabo é isso? — murmurou.
Criando coragem, pegou o cesto, saiu pela porta dos fundos e o deixou no terreiro. Bateu
a porta com força, como quem expulsa uma visita indesejada.
Mas quando voltou para a sala… lá estava o cesto de novo, parado bem no meio, sujo,
pingando água, como se tivesse caminhado sozinho até ali.
Foi a primeira noite que Cícero perdeu o sono.
A Segunda Noite — O Velho das Correntes
Na noite seguinte, o relógio marcava quase meia-noite quando ele começou a ouvir passos
arrastados.
Chic… chic… clac.
Era o som de algo raspando no chão de barro batido.
Algo… ou alguém.
SOBRE O AUTOR

Livros: Jundiá: sua gente, sua história. Medo na cidade. Te contando
Entre a sala de aula e as páginas da imaginação, compartilha histórias que nascem do chão nordestino, da memória do sertão e das vozes do interior.
Escreve contos, crônicas e narrativas inspiradas na cultura nordestina, misturando tradição, mistério e cotidiano. Aqui você encontra conteúdo educativo e narrativo, pensado tanto para quem gosta de literatura quanto para quem vive a experiência da língua portuguesa na escola.