Amigurumi como resistência: a trajetória de um jovem quilombola 

Do quilombo ao mercado cultural, o artesão Tiago Vinna rompe padrões de gênero e entrelaça fé, ancestralidade e empreendedorismo

 

Por João Vitor Ferreira – jornalista-colaborador 

Primeira peça de amigurumi feita por Tiago foi um polvo, inspirado no Octo Project. Com o tempo, ele passou a produzir bonecas negras e outras peças ligadas à cultura e à identidade étnico-racial. Foto: Arquivo pessoal

Realizar uma atividade manual exige foco e dedicação. Quando feita com afeto, a arte transforma-se em resistência. É assim que Tiago Vinna, 26, define o próprio ofício, diante dos fios coloridos e agulhas finas que costuram sua própria narrativa. Por meio do amigurumi, técnica japonesa de crochê e tricô, o jovem artesão rompe estereótipos de gênero e fortalece o afroempreendedorismo dentro da comunidade quilombola onde vive. 

Natural de Água Branca, no Alto Sertão alagoano, Tiago Vinna pertence à comunidade quilombola Sítio Queimadas — espaço de resistência histórica e cultural que influencia diretamente seu processo criativo. Criado em um lar de artesãos, o jovem valoriza as próprias raízes e acredita ter herdado da ancestralidade a mesma veia artística. A mãe produz peças de decoração sustentáveis com fibra de bananeira, enquanto seu avô trabalhava com cipó.  Através das peças confeccionadas em crochê, Tiago ressignifica traços e identidades do seu povo, dando continuidade à tradição manual que atravessa sua linhagem familiar. 

O primeiro contato de Tiago com o crochê surgiu em 2017, a partir de uma curiosidade despertada ao folhear uma revista. O interesse permaneceu por dias, até que a mãe e a tia lhe ensinaram os pontos básicos. Das primeiras tentativas nasceram panos de prato e sandálias decoradas. Autodidata, ele decidiu ir além e passou a explorar novas possibilidades com a linha e a agulha. 

Foi em 2018, por meio de vídeos na internet, que Tiago se encantou ao descobrir o amigurumi. Ele recorda que a primeira peça produzida foi um polvo, inspirado no “Octo Project” — iniciativa voluntária que confecciona polvos de crochê para bebês prematuros em UTIs Neonatais. Após aperfeiçoar a técnica, passou a produzir bonecas negras e outras peças com temáticas étinico-raciais. 

“Busquei inovar ao trazer, nas bonecas negras, o fortalecimento da identidade, o empoderamento e, principalmente, o antirracismo. Também passei a trabalhar com os orixás, valorizando a cultura afro-brasileira com respeito e consciência”, destacou o jovem artesão. 

Mas afinal, o que é amigurumi? A técnica japonesa de crochê ou tricô consiste na criação de bonecos tridimensionais — geralmente bichinhos, personagens ou figuras simbólicas. O termo nasce da junção de duas palavras: “ami”, que significa trançado, e “nuigurumi”, que pode ser traduzido como boneco de pelúcia. 

Rompendo estereótipos de gênero

Antes de qualquer norma social, o ser humano já deixava marcas nas cavernas e gravava símbolos nas pedras. Criar sempre foi necessidade de expressão — não uma questão de gênero. Ainda assim, na contemporaneidade, estereótipos de masculinidade continuam associando trabalhos manuais ao universo feminino. O crochê, muitas vezes reduzido à ideia de “coisa de vovó” ou “hobby de mulher”, torna-se, nas mãos de um jovem quilombola, instrumento de afirmação identitária e ruptura de padrões. 

A cada boneco que nasce de suas mãos, Tiago Vinna ressignifica esse ofício historicamente associado à feminilidade. Apesar disso, não ficou imune ao preconceito por escolher a linha e a agulha como ferramentas de trabalho. 

“Uma vez meu pai comentou que era coisa de mulher, mas não dei importância. Hoje lido muito bem com isso e me orgulho muito do que faço. Independente dos estereótipos, acredito que não há gênero específico para o desenvolvimento dessa arte, pois costumo dizer que crochê é coisa de mulher, de homem, de idoso, de criança. Crochê é coisa de gente inteligente”, ressaltou Tiago, orgulhoso de sua trajetória.  

Afroempreendedorismo jovem

Bonecas negras produzidas por Tiago ganharam destaque durante o evento afro-cultural Vamos Subir a Serra, que celebra a cultura afro-brasileira em União dos Palmares e Maceió, no mês da Consciência Negra. Foto: Arquivo pessoal

Quando o hobby se transformou em fonte de renda, Tiago Vinna passou a comercializar as primeiras peças entre familiares e pessoas da própria comunidade quilombola. As vendas ajudaram a custear despesas com transporte e alimentação durante o período em que cursava pedagogia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Como quem costura sonhos e metas, foi nesse momento que o artesanato deixou de ser expressão criativa e se consolidou como iniciativa empreendedora, marcada por estratégia e desejo de ampliar o alcance da própria arte.

As bonecas negras e demais peças produzidas por Tiago ganharam maior visibilidade em 2019, durante sua primeira participação no evento afro-cultural “Vamos Subir a Serra”, realizado anualmente em Alagoas, nas cidades de União dos Palmares e Maceió. Promovido em novembro, em alusão ao Dia da Consciência Negra, o encontro celebra a cultura afro-brasileira com shows, rodas de conversa e feiras de artesanato. 

Desde então, Tiago passou a participar de feiras municipais e estaduais, ampliando o alcance do trabalho e fortalecendo vínculos com clientes e outros artistas. Segundo o artesão, cada elogio recebido serve como combustível para continuar criando — sobretudo diante da complexidade do processo manual. Algumas peças mais detalhadas podem levar de quatro a cinco dias para ficarem prontas. Apesar da dedicação minuciosa, ele afirma que, ao manusear a linha e a agulha, entra em um estado quase meditativo, já que o ofício exige foco e concentração. 

“O amigurumi mudou muita coisa em minha vida, principalmente ao me dar notoriedade como artista, tanto na minha cidade quanto no meu estado, além de me possibilitar ter outra profissão. Também é algo terapêutico, pois me ajuda na concentração e no controle da ansiedade”. 

Questionado sobre como enxerga o papel do afroempreendedorismo dentro dos territórios tradicionais, Tiago é enfático. “É bastante importante, pois eu carrego o meu nome e o nome do meu quilombo, buscando a valorização dos nossos costumes e da nossa ancestralidade”. 

Quando a linha vira sagrado

Foto: Arquivo pessoal

Tiago se descreve como uma pessoa de muita fé. A relação com a espiritualidade atravessa seu trabalho e pode ser percebida nos amigurumis de orixás e santos católicos. Entre as criações de que mais se orgulha está um boneco da Sagrada Família — peça que considera especial e também uma das mais desafiadoras, produzida sob encomenda para uma amiga. 

Mesmo se declarando católico, o jovem artesão defende o respeito a todas as crenças. Para ele, a arte tornou-se uma ferramenta de diálogo e enfrentamento à intolerância religiosa, especialmente aquela direcionada às religiões de matriz africana. Entre os orixás que já retratou em amigurumi estão Iansã, associada aos ventos e às tempestades, e Oxumaré, símbolo das transformações e da continuidade. 

“Fui criado na tradição católica, mas busco respeitar as diferentes crenças. Sempre achei interessante as histórias dos orixás e, após ter contato com pessoas da religião em eventos, decidi criar algumas peças. Com elas também procuro desmistificar a imagem de demonização que ainda é atrelada a essas entidades”, pontuou. 

Algumas peças surgem por encomenda; outras nascem do desejo do artesão de ampliar a diversidade de representações. Durante o processo de criação, Tiago também se dedica a conhecer a história de cada santo ou orixá retratado. Esse cuidado reforça o compromisso com uma arte que não apenas encanta, mas também compartilha conhecimento com clientes e moradores da comunidade.  

Desafios e planos para o futuro 

Foto: Arquivo pessoal

Com o apoio das redes sociais, o trabalho de Tiago ultrapassou os limites da comunidade quilombola e passou a alcançar públicos de diferentes regiões, levando suas bonecas e peças de crochê para além das fronteiras de Alagoas.  

Como todo pequeno empreendedor, ele também enfrenta desafios no processo de produção e monetização. Parte dos materiais não são encontrados em sua cidade, o que encarece e dificulta o processo. Além disso, a precificação das peças é um exercício constante, sobretudo diante das horas dedicadas a cada criação. Ainda assim, se a arte que produz é marcada por afeto e resistência, o objetivo é continuar expandindo horizontes e consolidando seu espaço. 

“Como todo artesão, sonho em ter meu próprio ateliê. Também penso em transmitir meus conhecimentos por meio de oficinas para outras pessoas, incluindo usuários do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) do meu município”, afirma. 

Mais do que afroempreendedor, Tiago Vinna se vê como agente cultural no próprio território. Com a delicadeza de quem transforma fios em expressão de identidade, ele reforça o desejo de empoderar crianças e jovens quilombolas. “Quero inspirar crianças e jovens do território a encontrarem caminhos dentro da arte”.

 

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