Em “Bromélias imaginárias”, seu primeiro livro, o jornalista alagoano transforma ausências em literatura — e explica por que acha errado, palavra dele, morrer; confira a entrevista

Décadas depois, Maylson continua a subverter o que encontra, só que agora com palavras. Filho do poeta popular e patrimônio vivo Audálio Honorato, e de Isabel Honorato, que ensaiava folguedos no terreiro de casa quando ele era criança, o escritor cresceu num ambiente em que a poesia era, nas suas palavras, “café da manhã, almoço e janta”. Fez teatro dos 11 aos 21 anos, cantou com a irmã em showmícios e sorteios de botijões de gás em comunidades rurais, e só foi encontrar o jornalismo — e finalmente a ficção — depois de um percurso que passou por animador de festas infantis, produtor de eventos e staff de bandas de forró.
Hoje com 32 anos, Maylson Honorato é jornalista. E tem um livro no mundo: “Bromélias imaginárias” (Editora Urutau, 92 páginas), coletânea de 15 contos recém-lançada que atravessa perdas, memórias e geografias simbólicas do interior nordestino. O título carrega uma história dentro de si: ele o escolheu ainda adolescente, pensando em helicônias que alguém lhe disse serem bromélias. Levou anos para descobrir o engano, mas o nome já estava consolidado no projeto, impregnado de outros significados que o tempo foi depositando sobre ele.
A ideia do livro amadureceu num terraço de pensão para estudantes em Maceió, numa noite difícil de 2009, quando Maylson adormeceu escrevendo e acordou no meio da madrugada imaginando as flores de Viçosa pelas esquinas da cidade nova. Cresceu junto com as perdas que foram chegando — um irmão, dois amigos próximos, entre eles Tágore Cavalcante, o amigo com quem escrevia e sonhava, e cuja ausência, diz o autor, reverbera em todas as páginas do livro. A obra saiu pela editora Urutau como um inventário afetivo que recusa o Nordeste-cartão-postal e oferece, no lugar, almoços de Páscoa, festas de padroeira e velórios entre frevos.
Em entrevista exclusiva, Maylson Honorato conversa sobre a origem da sua relação com a escrita, os mortos que governam os vivos e por que acha errado — palavra dele — morrer.
“Bromélias imaginárias” é um título que você escolheu ainda adolescente. O que mudou de lá para cá — no escritor e no sentido desse nome?
Eu decidi que meu primeiro livro se chamaria “Bromélias Imaginárias” entre 2008 e 2009. Minha cidade, Viçosa, tinha uma tradição muito forte com flores tropicais. Nos eventos sociais sempre havia arranjos bem bonitos. Isso coloria o meu imaginário. No entanto, as flores que eu mais gostava não eram bromélias, mas helicônias. Só que alguém me disse que eram bromélias e eu acreditei. Anos depois, já em Maceió, tive um dia muito difícil e desalentador. Adormeci no terraço do prédio onde eu morava, escrevi até adormecer. Quando acordei, no meio da madrugada, fiquei olhando aquele pedacinho de Maceió e imaginando as flores de Viçosa pelas esquinas. Aí escolhi o nome Bromélias Imaginárias, que trariam os textos que me ajudaram a enfeitar aqueles dias complicados. A questão é que eu estava pensando em helicônias.
Anos depois, quando meu amigo Tágore Cavalcante morreu, as flores já estavam consolidadas nos contos. E ganharam novos significados. Me senti de novo em certo abandono, como aos 15 anos, tateando uma nova cidade. O livro foi perdendo contos, foi ficando mais melancólico do que mágico, e assim tive que decidir que o novo livro que estava nascendo se chamaria, sim, Bromélias Imaginárias — uma forma de contemplar o menino que sonhava em publicar um livro feito de flores, mesmo que agora elas sejam menos tropicais e careçam de sol.
Você diz que o livro nasceu das “ausências impostas”. Que ausência mais te fez escrever?
Embora não pareça, eu sou uma pessoa muito revoltada com a falta de magia na vida cotidiana, com o morno que fica quando o luto se aquieta e você fica naquele estado de resignação, sem sentimentos fortes. Acho que foi essa ausência de um sentimento forte. A psicóloga diz que é isso mesmo, resigne-se, ressignifique e siga em frente, mas aí eu tenho vontade de subir o Monte Olimpo e cometer um deicídio, entende? Então eu escrevo como uma maneira de agir contra o que eu não acho certo ou não vejo como algo que devamos aceitar complacentemente.
Em um trecho, você escreve que “escrever é agir contra a morte”. Você ainda acredita nisso?
Acredito e não acredito. Há dias em que me coloco no lugar de crente. Há outros nos quais prefiro ser o bêbado que vaga pelas ruas, sem nada além do dia pela frente e o inusitado da boemia. Claro, isso é uma imagem que criei, até porque eu raramente bebo. Penso que escrever é fazer alguma coisa. E é preciso fazer alguma coisa.
Como a amizade e a perda de Tágore Cavalcante atravessam este livro?
Teve um dia em que o poeta viçosense Sidney Wanderley me contou das suas próprias perdas, sem saber que elas estavam tão próximas das minhas. E terminou citando Comte, dizendo que os mortos governam os vivos. Aquilo ficou na minha cabeça. Ele também disse que, mesmo mais de 40 anos depois de perder o irmão e o amigo, ainda se pegava pensando que não era possível Deus achar que ele merecia, mais do que eles, estar vivo. Eu tinha esses mesmos pensamentos. O Tágore foi minha perda mais dura porque ele ia além do amigo confidente, ele compartilhava a vida e as paixões comigo. Escrevíamos juntos, sonhávamos juntos. E de repente ele sumiu. Ele está em todas as páginas de “Bromélias imaginárias” porque a falta dele está em todas as páginas da minha vida, mas também porque ele ajudou a formar o escritor que eu sou.
Você prefere chamar “Bromélias imaginárias” de um livro de luto ou de um livro de resistência?
Não é um livro de luto. “Bromélias imaginárias” ficou bonito do jeito dele. Tem gente bonita e doída por aí — conheço pessoas com uma elegância radiante e com o olhar um tanto desconfiado. O livro é uma dessas pessoas para mim. O que acho que ele traz do luto é a experiência circular, é como se a gente caminhasse, vislumbrasse outras pessoas, outros horizontes e, de repente, voltasse para a porta de casa. A gente sempre volta para o luto no livro, para a perda. Mas o livro não é de luto.
Há algo de sagrado e profano em seus contos. Qual é o papel da fé — ou da falta dela — na sua literatura?
Crer é algo muito bonito. É muito perigoso também. A fé das pessoas e a minha própria fé sempre me fascinaram, assim como o aparato que rodeia os rituais. Minha avó e minha bisavó tinham casas com praticamente todas as paredes cobertas por santos, com altares diversos, rezas amarradas em imagens, rosários aos montes. E sempre havia um cheiro de vela. Na minha adolescência, o pai de uma amiga, completamente apaixonado pela carroça com que trabalhava fazendo fretes, a vendeu porque se converteu a uma igreja e o pastor pediu que sacrificasse aquele bem. Eu a encontrei chorando, ela me contou isso. Tempos depois, encontrei o homem com os olhos vidrados, andando lentamente pelas ruas.
O conto “Sereno”, que abre o livro, fala sobre inocência, crueldade e amor. Por que ele é o primeiro?
Eu gosto do conto. Além disso, acho que ele sintetiza bem o que eu estava a fim de falar em todo o livro, que é sobre esse encontro mordaz com a finitude. É inescapável. Eu acho errado morrer ou perder.
Como o Nordeste aparece no livro, é uma paisagem, linguagem ou destino?
Um dos meus primeiros leitores reais me disse que faltou mais do meu interiorzão, o tempero do menino que cresceu em um interior tão dialético como Viçosa. Eu concordei. Há coisas que foram editadas e que eu não permitiria hoje em dia. Dito isso, vejo um Nordeste simbólico presente que não se rende ao que projetam do Nordeste em imaginários adoecidos e ultrapassados. Há paisagem, há linguagem e há destino. É muito Nordeste, até porque o Nordeste é o mundo que eu vivo e sempre vivi. O Nordeste está nas cores, no interiorzão que há dentro dos personagens.
Como jornalista e escritor, como você equilibra o olhar do repórter e o do ficcionista?
São movimentos completamente distintos. Quando escrevo uma história real, lido com a verdade, com a objetividade, com fatos apurados e checados. Meu processo jornalístico é metódico, visa errar o menor número de vezes possível. Por outro lado, quando estou escrevendo ficção, a ideia é errar mais. Quanto maior o engano, melhor. Trago comigo, para o lado do ficcionista, experiências e ecos de histórias que apenas o jornalismo poderia me proporcionar. Para o papel de jornalista, levo do ficcionista a capacidade de contar bem uma história — mas isso se aplica apenas à forma, o conteúdo é inegociável: precisa ser a verdade objetiva. O jornalismo é algo sagrado pra mim, cuja verdade e a precisão me são muito caras. A ficção é santa para mim também. E dela quero a mentira, o caos, o desencontro, as iluminações mais claras e as sombras mais escurecidas que eu puder alcançar.
Qual foi a reação mais inesperada que você recebeu de leitores até agora?
Eu sou péssimo para ouvir elogios. Só não sou pior do que para vender livros. Algumas pessoas falaram comigo sobre comprar o livro e eu acabei respondendo: “não quero que você fique triste.” Só depois entendi que o livro não estava deixando ninguém triste, estava, na verdade, conversando com os sentimentos das pessoas. Um homem de 53 anos me disse que chorou em quase todos os contos, mas que se viu no espelho quando leu a história do Alcides. “É a minha solidão que está ali”, ele disse. É a minha solidão também, aproveito para responder. Estamos dançando sozinhos, mas coletivamente. É engraçado isso. Por que não nos encontramos de uma vez e fazemos uma rave?
Seu livro chega num momento de renovação da literatura nordestina e alagoana. Como você se enxerga nesse movimento?
Me enxergo exatamente começando um caminho aberto por tantos outros nomes. Eu sou porque Marcelino Freire existe. Marcelino, inclusive, tem um papel fundamental na minha vida porque me deu coragem de publicar e de ir atrás das minhas próprias palavras. Talvez isso apareça mais pra frente, visto que “Bromélias” tem muito de experimental e acompanha um processo de formação da minha escrita. Mas eu sou, por causa deles. E isso é um fato, não uma alegoria para a entrevista ficar bonita. Eu sou porque meu pai resolveu transformar, em algum momento, dureza em verso. E a minha irmã, a May Honorato, é uma bruxa da língua em sua música e literatura. Eu sou porque a Érika Santos escreve com um lirismo e olhar afiado que me fazem delirar. Eu sou porque a Ana Maria Vasconcelos é precisa e enobrece a nossa literatura. Eu sou porque Lêdo Ivo ainda me ensina a ver o mundo. Eu sou porque Sidney Wanderley, Richard Plácido, Nilton Resende, o Anselmo Ferreira e tantas outras pessoas escrevem. Tô começando, mas tô segurando firme nas mãos dos escritores do meu lugar.
Depois de “Bromélias imaginárias”, o que vem a seguir?
Eu tomei gosto por escrever e publicar no meio do processo de “Bromélias imaginárias”. Antes, eu só escrevia para mim. Agora, tenho alguns projetos em andamento. Penso que há um romance curto chegando, muito diferente de “Bromélias”. E há outros dois projetos aí caminhando no seu tempo. O que posso dizer é que continuo escrevendo. Tentem cansar pouco de mim, para que me deem uma chance novamente daqui a pouco.
“Bromélias imaginárias”, de Maylson Honorato, é publicado pela Editora Urutau (92 páginas, R$ 49,90). O livro está disponível no site da editora (editoraurutau.com) e diretamente com o autor, com exemplares autografados e envio para todo o Brasil, pelo Instagram @maylsonhonorato e pelo site maylsonhonorato.com.br.
