Trio de Skramz/Emoviolence conversou com a Revista Alagoana sobre as experiências de ser uma banda inter regional
Você lembra dos seus gostos quando tinha 6 anos de idade? Para Szid, Jay e Bru, essa foi uma idade inesquecível: ali, cada um dos integrantes do “as migalhas dø tempo que guardei pra viver” (ou apenas “Mugalhas”), começava sua relação com a música. Eles tiveram influências diversas, como ter crescido na Igreja, parentes músicos, uma guitarra de presente, álbum do Sepultura e aparelhos de som.
Familiarizados com os gêneros Skramz/Emoviolence, mas vindos de diversas bandas e projetos com sonoridades completamente diferentes, em 2024, o trio se juntou para dar vida ao Mugalhas. A ideia surgiu como uma forma do vocalista e guitarrista Szid externalizar algumas composições mais “agressivas”, que até então, ele só tinha concebido e gravado de forma acústica.
A Mugalhas conta ainda com uma particularidade que a torna um trio inter regional: Maceió, Campinas e Hortolândia são as cidades onde estão cada um dos integrantes. Apesar de não ser uma configuração comum, Jay, baterista, já participou de uma banda de Trash Metal que era nessa configuração, com pessoas de Campinas, Goiânia e do interior do Rio Grande do Sul. Mas, para ela, isso é confortável de certa forma, pois a banda age de maneira mais colaborativa quando estão trocando arquivos e escrevendo.
Já para Bru, baixista alagoano, a vantagem é estar inserido em diversas cenas, e produzir no tempo de cada pessoa da banda, sem cobranças, e segundo ele, as coisas fluem de forma muito natural e rápida. A desvantagem é não poder realizar tantos shows quanto gostariam, e de até recusar alguns convites importantes, pois ainda não existe um retorno financeiro que sustenta todas as idas à São Paulo.
Para Szid, a distância é um obstáculo, mas apenas isso. “É negativo pois não conseguimos ensaiar juntos sempre, mas vivemos numa era digital onde quase tudo é possível. Nós produzimos, trocamos ideias e possuímos uma amizade como qualquer outra banda. Eu acredito que esses limites, outras bandas e projetos que ainda não saíram do papel deveriam experimentar sem medo de ser feliz!”, conta.

Mas como é o processo de produção, se cada um está em uma cidade diferente?
Jay explica que o processo segue uma linha colaborativa, trocando arquivos de áudio entre os três, que vão gravando por partes. “Tudo começa com um riff de guitarra, seja uma draft ou algo já gravado e lapidado, da qual eu depois dou umas escutadas e gravo linhas de bateria por cima. Depois, gravamos as linhas de baixo e fazemos nossas últimas revisões antes de mixarmos e masterizarmos.”, explica.
A baterista cita ainda que experiências de vida e pessoas próximas servem de influências para as músicas, assim como os momentos mais “conscientes”, com o bucolismo e a luta anti-especista como fatores líricos explícitos. Recentemente, Jay e Szid estão explorando bastante a espiritualidade como influência lírica, pois são budistas praticantes.
“Eu vejo nossas músicas como pequenas formas de vida que, ao surgirem, elas têm características próprias e a gente molda elas o mínimo possível, mas também pode ser uma influência direta do Skramz, que costuma ter músicas mais rápidas e curtas. Eu particularmente gosto muito disso, principalmente ao vivo, porque eu sempre fico com a sensação de quero mais, vamos tocar de novo e de novo!”, conta o baixista Bru.
A frase do baixista se encaixa com o que Szid pensa. Para ele, não existe o momento “agora eu vou criar uma música”, “agora vou criar uma letra”. São processos que vêm, vão, se perdem ou não.
Crédito da foto: Lentes borradas
Lançamentos
Vários arquivos em drive, comunicações por whatsapp e um sonho. É assim que Szid define o processo de produção das músicas da banda. “No primeiro EP, a guitarra de “more than pizza” foi gravada com o microfone de um celular captando o som de cubo amplificador da meteoro. Tentei posicionar de forma que não ficasse horroroso ou estourado, no fim deu certo. No restante do EP eu estava em Maceió e aproveitei pra gravar com a interface do Bru, assim como ele também fez para o baixo. Já no nosso álbum lançado em setembro de 2025, a guitarra eu gravei pelo bandlab usando um iRig como interface. as mixagens e masterizações todas nós fizemos independentemente, com um FL Studio.”, explica.
Jay conta que as baterias do primeiro EP e do álbum foram gravadas com apenas um microfone condensador USB simples e não foi utilizado metrônomo nas músicas, o que para ela, contribui na sonoridade crua e direta da banda. “O primeiro EP e o álbum meio que “ecoa” todo esse processo pra mim, pois a gente já tinha um padrão, que no caso consistia em Szid me mandar um draft de algum riff, seja de forma já gravada ou acústica, do qual eu ouvia e gravava alguma linha de bateria logo em seguida para depois Bru gravar linhas de baixo por cima, tudo também foi feito de forma direta das quais trocamos arquivos de áudio e gravamos de forma crua.”, comenta.
O primeiro show
Perguntados sobre a experiência mais marcante, a banda foi unânime: o primeiro show. Confira o que cada um falou sobre esse momento:
Szid
A primeira vez que tocamos na vida foi com a ERRATA, que também estava no seu show de estreia. Nesse dia eu fiquei muito nervoso porque como somos uma WEB BANDA tivemos apenas dois ensaios, um já ia fazer um ano que aconteceu e o outro foi 1 hora antes de começar o rolê.
Jay
Foi a primeira vez que peguei um ônibus sozinha com alguns amigos indo para capital e eu estava extremamente assustada e paranóica com como tudo seria, pois até então, eu nunca tinha ido para São Paulo sem meu pai. Porém, me encontrar com meus amigos paulistanos e ver como o público reagiu a nossa estréia foi o suficiente pra eu acabar sendo puxada de volta para um estado de calma e ver que no final tudo ia ficar bem.
Mas o que me marcou de verdade nesse dia foram duas coisas em específico: Ver o público berrando nossas músicas de volta para gente, e nosso set acabando da forma mais boiola o possível, com um abraço coletivo entre nós três (meu amigo até chorou vendo a cena, o que eu acho engraçado e fofo).
Bru
Foi absurdamente significativo pra mim. Ir pra São Paulo para tocar com uma banda era algo que eu jamais esperava que poderia acontecer, então eu estava bastante nervoso só por isso, e o fato da gente não ter tido tempo pra ensaiar não ajudou, a gente ia mais cedo no lugar do show e passar as músicas, eu estava uma pilha de nervos. A banda que tocou antes da gente, Errata, foi absurda e todos da banda são uns queridos. Mas tudo deu certo, eu me diverti pra caramba, o pessoal que tava assistindo se divertiu pra caramba e tudo flui de forma muito natural com a gente, isso que eu acho doido.
Fazer as músicas e tocar ao vivo com a Jay e o Szid é como se fosse algo que eu fiz a minha vida inteira, eu não preciso pensar muito (preciso porque sou ansioso e penso demais em tudo), mas a partir do momento que a gente sobe no palco, as coisas só acontecem da melhor maneira possível.
Crédito da foto: Lentes borradas
A cena em cada estado
Por ser uma banda inter estadual, os integrantes vivem a cena local de maneira diferente. Como maceioense, o baixista Bru cita que a cena alagoana foi a que ele conheceu por mais tempo, começando a frequentar há 10 anos atrás. “Naquela época tinha bandas como Demode, Troco em Bala, Dof Láfa, Belt… a cena era bem indie/alternativa. Ao longo dos anos, essas bandas foram sumindo e outras foram surgindo, como é o ciclo natural da cena. Atualmente nós temos em atividade aqui artistas e bandas muito boas, como Mãe que dá medo, Misantropia, Labirintite, Raiva. Porém, existem as “panelinhas”, o que é perigoso pois pode saturar a cena local. O lado bom é que no meio disso existe o Popfuzz, que está sempre abrindo as portas para bandas e artistas novos e isso é essencial pra cena continuar viva.”, relata.
Como moradora do interior de São Paulo, a baterista Jay fala que a cena de lá atualmente é extremamente fragmentada. “Tentam monopolizar a cena e os espaços daqui de uma forma abusiva e tóxica, então é natural ver bandas sendo obrigadas a recorrerem a regiões e cidades vizinhas para poderem ter seu devido espaço, o que pra mim é algo extremamente deprimente de se ver. Mas, felizmente, estão existindo movimentos contra essa monopolização. Inclusive, recomendo ouvirem as bandas Lamento, Mar de Lobos, Bastard God, Huaska e Magüerbes. Já da cena alagoana, recomendo as minhas favoritas do estado: Räivä, Figueroas, Quarto Vazio, Killing Surfers e Ximbra.”, comenta.
A música em suas vidas
Perguntados sobre o significado da música em suas vidas, e o que mais se encantam nela, a banda responde:
Szid
Acho que o fato de ela tocar qualquer pessoa que tenha contato com ela. Independente de como ela esteja sendo executada, expressa. Se você está triste, a música pode te consolar, te alegrar, te acolher, assim como o inverso. Então o poder que ela tem é o que mais me encanta. A música é como me expresso, como eu choro, como eu rio, como eu grito e como eu destilo o caos que vive em meu interior. É como eu vivo e sobrevivo.
Jay
O que mais me encanta na música é o fato de que pra mim, ela é a forma mais honesta e direta de expressar algo, seja um sentimento ou qualquer outra coisa. Aquele ditado “a música é uma língua universal” apesar de soar meio cafona às vezes, para mim é real, muitas das vezes eu me sinto mais conectada com alguém devido ao fato de compartilharmos gostos musicais ou saber que a pessoa também é musicista. Eu sinceramente não sei o que eu estaria fazendo e como eu estaria me expressando se não fosse pela música estar presente em minha vida. Assim como também a música sempre foi um “ombro amigo” pra mim, pois muitas das vezes, eu me sinto mais calma e “de pé” quando estou ouvindo alguma música ou quando estou em algum show.
Bru
Eu já tentei desenhar, pintar e fazer literatura, mas foi na música que eu encontrei a melhor forma de eu conseguir expressar o que eu estou sentindo. Em muitos momentos eu já me peguei refletindo sobre os motivos de eu continuar fazendo música, quando é tão difícil e frustrante, e eu sempre chego à mesma conclusão: eu não conseguiria não fazer e não ouvir, música é uma necessidade humana básica pra mim.
Planos para 2026
No momento, a banda está trabalhando em quatro músicas, indicando que tem próximo EP à vista, planejado para ser lançado no segundo semestre. “Pretendemos tocar também, tem um rolê em vista para junho em São Paulo, mas ainda estamos vendo se vai ser possível. No mais, continuar fazendo música.”, finalizam.

